quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O calor das linhas frias. Niemeyer, 2012.

Terá sido junto a esta mesma semana, mas de 1992, que fui pela primeira vez a Paris. Desaguei numa Gare d'Austerlitz fenomenalmente a saber a Natal. Era um Dezembro daqueles dezembros secos, frios, mas luminosos. Era de noite e a iluminação típica ofuscava o sentir numa bebedeira que em tudo me dizia que estava na Cidade Luz.
Nessa ida à antiga Lutécia, vivi o que muitos anos depois encontrei ao visitar o pavilhão do Mies Van der Rohe em Barcelona: no meio de uma arquitectura tão cheia de floreados (para, verdadeiramente, dar nas vistas), surgia uma tal depuração de linhas que o edifício mais parecia levitar que ter alicerces a um chão qualquer que lhe era estranho.
Paris é um cidade com tudo o que o sumptuoso pode dar de brilho e de magnetismo, de fascínio e de paixão. Mas é também muito ruído, muitas luzes, muito de um misto de eterno com efémero. facilmente nos movemos por uma arcada que está assim, imóvel, há mais de duzentos anos, e que numa das suas montras tem uma peça que, apesar de nos deslumbrar, não estará lá na estação seguinte.... a moda já ditou outra coisa, mas a arcada ficou, a "montra" não se esgotou, apesar de quase não se dar por ela em redor dos holofotes que iluminam o seu circunstancial miolo.
No meio dessa bebedeira de barrocos e neo-góticos, neo-maneirismos, etc, fomos à Villa Savoie, um excepcional marco de le Corbusier. Nuns arrabaldes da grande cidade, entre estradas barulhentas, lá estava o edifício que é um dos marcos da liberdade que o betão trouxe à arquitectura: as paredes já não precisam de ser o "soutien" do edifício, podendo fazer-se todo um jogo de escondidas entre paredes e pilares, ondulando com umas e "esguiando-se" com outros, tornando as linhas cada vez mais elegantes. O austero imediato dá lugar a um erotismo imanente que se cola ao olhar, obrigando a uma respiração lenta e vagarosa: o espaço tomou conta de nós.
Nunca tivera uma experiência de tal natureza, mística, quase. Apenas a repeti em Brasília, mas em tons totalmente diferentes. O choque com o ecossistema do Brasil é ainda mais interessante e obriga a reflexões que ganham dimensões diferentes das aplicadas a Paris (reproduzo abaixo o texto que nessa altura escrevi).
Na capital brasileira encontrei um discípulo do arquitecto franco-suíço: Niemeyer, Óscar de seu nome, uma verdadeira lenda que era viva até ontem.
Ao olhar para alguns dos edifícios deste arquitecto brasileiro, sente-se o contraste entre o quente que o envolve o frio do branco que lhe sustem a forma. Este é um primeiro olhar, mas nada se esgota num olhar que seja o primeiro. E com Niemeyer acontece exactamente isso: a possibilidade de subtileza de uma linha pura, é muito mais rica que um rocambolesco artificialismo que nos obriga à leitura que estava previamente definida.
É sublime sentir a leveza de uma estrutura de toneladas a esvoaçar no calor do planalto, como se o branco fosse alma ou qualquer outra maneira de insuflar um gás levíssimo que quase nos obrigasse a pairar.
Tão simples, afinal. Há algum coisa mais democrática no sentir que o libertarmos-nos dos símbolos? Estes, por mais belos e com significado, implicam um código de leitura. As linhas rectas, as formas puras, não precisas de descodificação. Simplesmente, emanam, existem, estão e são.


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De Agosto de 2009:

O sangue vermelho como alcatrão do branco pensado

Há histórias que não começam pela tradicional abertura: “Era uma vez, há muito, muito tempo…”. Não, e essas histórias não são de príncipes e de princesas, é claro. São de gente como nós que decide fazer histórias ou História. O Brasil tem uma dessas estranhas histórias.
Daqui a alguns séculos, alguns dirão: “Era uma vez, há muito, muito tempo quando um Presidente decidiu fazer uma capital nova”. Hoje fazemos aldeias olímpicas, fazemos bairros novos. Há exactamente 50 anos, o Brasil fez Brasília, bem no centro do país.
Esta foi a minha primeira vez em Brasília. Muito me falaram do planalto, alto e seco, com a terra vermelha que tudo marcava, que em tudo se entranhava. Brasília é isso e muito mais. Estranhamente, muito mais.
Brasília é o Brasil a tentar fugir de si mesmo, lançando-se numa ilha que nada tem de si mesmo. Apenas a terra vermelha, qual imagem do homem que vai circulando pela cidade, qual estranho em casa. Dizem-me que agora a cidade está a ganhar uma identidade...
A cidade capital é exactamente a negação de tudo o que se pode apontar para o restante pais. Um pensador, Agostinho da Silva, parece ter dito que “o Brasil era Portugal à solta”. Brasília é o Brasil domesticado, regrado, ordenado.
Para quem conhece o Brasil, a capital não é a reunião de toda nação, como o próprio nome tenta mostrar com um artificial genitivo de gosto latino. Em Brasília não há Brasil, há uma fuga a ele. Toda a informalidade do país é esquecida. Toda a capacidade de improvisação tenta ser negada. Toda a arquitectura procura ser fria e não quente. Todos os espaços são impessoais e não pessoais, naquele gosto latino tão típico de quem se fala sem nunca se ter visto.
Em Brasília não há acasos, há planeamento. Não há desordem, há ordem. Até talvez se tenha, por detrás de tanto planeamento, tentado esquecer o famoso “jeitinho Brasileiro”… mas isso ficou. Do Brasil, ficou em Brasília essa forma informal de resolver tudo.
A geometria dos espaços e a cor branca não fazem as almas. Podem iludir uma aparente limpeza. Mas as almas lá estão… quentes como a terra vermelha que sabemos estar debaixo do alcatrão das avenidas.




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