domingo, 12 de maio de 2013

O Mágico, de Somerset Maugham (original de 1908)



Há livros que lemos no momento exacto em que o deveríamos fazer. Aconteceu-me tal fenómeno há pouco. Somerset Maugham estava na minha lista há vários anos. Nunca mais chegava a oportunidade. Mas chegou o acaso.
Comprei em segunda mão o seu Mágico. Não nego que o texto da contracapa que relacionava o personagem Oliver Haddo com Crowley foi motivante para a leitura, e crucial para a compra. E assim nasceu um dos livros deste meu tempo.
Tanto das conversas com o José Carlos, o Anes, a Zé e o Pedro Cunha me vieram constantemente à cabeça. Muito há para dizer sobre este livro, e muito foi já escrito. Mas o essencial numa leitura pessoal é exactamente o que dessa dimensão de pessoal cada um retira. E para mim, esta leitura foi ao encontro de muito do que vivo interiormente hoje em dia.
São cinco as personagens que gerem a trama do texto. São quatro as que gerem, em quatro pontos de vista totalmente diferentes, a relação com o já referido Oliver Haddo, o mágico. Susie, uma parisiense apaixonada por Arte, mas, sobretudo, por Artur; Artur, um médico totalmente racional, com o maior dos cepticismos em relação a tudo o que seja sobrenatural ou místico, apaixonado, não por Susie, mas por Margaret; Margaret, uma jovem tutelada por Artur, a passar uma temporada em Paris, com Susie, e com casamento marcado com Artur; e Porhoët, um outro médico, que viveu no Egipto, com profundos conhecimentos de ocultismo.
E, claro está, Haddo, um estranho homem que domina as artes mais assustadoras, mas, ao mesmo tempo, mais deslumbrantes e cativantes. Um certo lado negro, ou, se quisermos, cinzento, do ocultismo, ganha um lugar cada vez mais intenso no texto, passando de um lugar perfeitamente acessório no início do livro, para se tornar assustadoramente – e, acima de tudo, incontornável – a partir de meio da narrativa.
E torna-se incontornável porque, não apenas Haddo parece não deixar de surgir em sobressalto da pena de Maugham, mas porque vai dominando as mentes das duas jovens, especialmente de Margaret, a jovem noiva de Arthur que abandona o casamento prometido para fugir com Haddo.
E o centro do livro é isso mesmo: o controle das personagens que, de uma repulsa a Haddo, seguem para uma impossível proximidade que implica a total anulação aos desígnios de alguém que parece dominar as vontades e o próprio destino. Pelas mãos, nãos as físicas, do mágico, tudo acontece como ele deseja. Mesmo o mais improvável.
Susie faz tudo por livre vontade, desde a sua fuga ao casamente até ao seu arrastar até uma morte quase ritual, mas nunca o queria. Fá-lo por não conseguir fugir a uma chamamento que a domina, ao qual não consegue fugir, mesmo quando o verbaliza e o repudia.
E Arthur? Essa é a maior trama de todo o texto: uma verdadeira metamorfose das mais inesperadas que um incauto leitor pode contemplar. O apaixonado médico, que tudo vê através de uns óculos de racionalidade a toda a prova é, afinal, alguém que descobre ter capacidades quase ilimitadas para o ocultismo.
De uma fase longa de busca da sua fugida amada, em que usa sempre do cepticismo, terminamos, nas últimas páginas, num intenso e indescritível ritual de invocação de uma Margaret já morta que continua a ser a chave da resolução do crime de que foi alvo.
A grande tensão é, afinal, entre uma racionalidade limite, que nega um lugar, sequer, ao religioso, ao sobrenatural, ao místico e ao oculto, e a adesão a esse mesmo universo, a essas outras dimensões de o compreender e de o viver.
O fim?.., esse, apenas deve ser lido.


1 comentário:

  1. Fiquei curiosa e também motivada para conhecer o final da trama. O mesmo aconteceu comigo com o romance de Irvin D. Yalon; Quando Nietzsche chorou. Apaixonante tiângulo amoroso com um desenrolar interessante em que um psiquiatra trata um filósofo das suas feridas da alma, também o final merece ser lido.

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