Há livros que lemos no momento exacto em que o deveríamos
fazer. Aconteceu-me tal fenómeno há pouco. Somerset Maugham estava na minha
lista há vários anos. Nunca mais chegava a oportunidade. Mas chegou o acaso.
Comprei em segunda mão o seu Mágico. Não nego que o texto da contracapa que relacionava o
personagem Oliver Haddo com Crowley foi motivante para a leitura, e crucial
para a compra. E assim nasceu um dos livros deste meu tempo.
Tanto das conversas com o José Carlos, o Anes, a Zé e o
Pedro Cunha me vieram constantemente à cabeça. Muito há para dizer sobre este
livro, e muito foi já escrito. Mas o essencial numa leitura pessoal é
exactamente o que dessa dimensão de pessoal cada um retira. E para mim, esta
leitura foi ao encontro de muito do que vivo interiormente hoje em dia.
São cinco as personagens que gerem a trama do texto. São
quatro as que gerem, em quatro pontos de vista totalmente diferentes, a relação
com o já referido Oliver Haddo, o mágico. Susie, uma parisiense apaixonada por
Arte, mas, sobretudo, por Artur; Artur, um médico totalmente racional, com o
maior dos cepticismos em relação a tudo o que seja sobrenatural ou místico,
apaixonado, não por Susie, mas por Margaret; Margaret, uma jovem tutelada por
Artur, a passar uma temporada em Paris, com Susie, e com casamento marcado com
Artur; e Porhoët, um outro médico, que viveu no Egipto, com profundos
conhecimentos de ocultismo.
E, claro está, Haddo, um estranho homem que domina as artes
mais assustadoras, mas, ao mesmo tempo, mais deslumbrantes e cativantes. Um
certo lado negro, ou, se quisermos, cinzento, do ocultismo, ganha um lugar cada
vez mais intenso no texto, passando de um lugar perfeitamente acessório no
início do livro, para se tornar assustadoramente – e, acima de tudo,
incontornável – a partir de meio da narrativa.
E torna-se incontornável porque, não apenas Haddo parece não
deixar de surgir em sobressalto da pena de Maugham, mas porque vai dominando as
mentes das duas jovens, especialmente de Margaret, a jovem noiva de Arthur que
abandona o casamento prometido para fugir com Haddo.
E o centro do livro é isso mesmo: o controle das personagens
que, de uma repulsa a Haddo, seguem para uma impossível proximidade que implica
a total anulação aos desígnios de alguém que parece dominar as vontades e o
próprio destino. Pelas mãos, nãos as físicas, do mágico, tudo acontece como ele
deseja. Mesmo o mais improvável.
Susie faz tudo por livre vontade, desde a sua fuga ao
casamente até ao seu arrastar até uma morte quase ritual, mas nunca o queria.
Fá-lo por não conseguir fugir a uma chamamento que a domina, ao qual não
consegue fugir, mesmo quando o verbaliza e o repudia.
E Arthur? Essa é a maior trama de todo o texto: uma
verdadeira metamorfose das mais inesperadas que um incauto leitor pode
contemplar. O apaixonado médico, que tudo vê através de uns óculos de
racionalidade a toda a prova é, afinal, alguém que descobre ter capacidades
quase ilimitadas para o ocultismo.
De uma fase longa de busca da sua fugida amada, em que usa
sempre do cepticismo, terminamos, nas últimas páginas, num intenso e
indescritível ritual de invocação de uma Margaret já morta que continua a ser a
chave da resolução do crime de que foi alvo.
A grande tensão é, afinal, entre uma racionalidade limite,
que nega um lugar, sequer, ao religioso, ao sobrenatural, ao místico e ao
oculto, e a adesão a esse mesmo universo, a essas outras dimensões de o
compreender e de o viver.
O fim?.., esse, apenas deve ser lido.
Fiquei curiosa e também motivada para conhecer o final da trama. O mesmo aconteceu comigo com o romance de Irvin D. Yalon; Quando Nietzsche chorou. Apaixonante tiângulo amoroso com um desenrolar interessante em que um psiquiatra trata um filósofo das suas feridas da alma, também o final merece ser lido.
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