sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A propósito da visita papal à Turquia: o cristianismo nascente e o restante...

Éfeso:
Uma das 7 Igrejas do Apocalipse
Forte comunidade cristã em cidade de culto a Ártemis
 
A cidade de Éfeso podia orgulhar-se de ter uma das sete maravilhas do mundo: o Templo de Ártemis. De facto, Ártemis de Éfeso era uma deusa sobejamente conhecida em toda a bacia do Mediterrâneo. Não se tratava de uma Ártemis comum, idêntica a tantas outras cultuadas noutros locais do mundo helénico. Ártemis de Éfeso era uma divindade francamente diferente de todas as restantes: a sua representação tinha dezenas de seios, e era acompanhada por dezenas de figuras aladas, o que lhe conferiria um carácter distinto da “normal” Ártemis, uma das deusas virgens do panteão grego, deusa da vegetação selvagem, dos animais indomados, da caça. A confirmar esta vertente maternal da deusa, é provável que o nome da própria cidade derive da expressão «cidade da deusa mãe».
Divindade sincrética entre os conceitos gregos e fenícios, as festas em sua honra atraíam milhares de peregrinos. Tinham lugar em Março / Abril, e depois em Maio. Nestas alturas, o seu magnífico teatro de vinte e quatro mil lugares ficava repleto.
Mas Éfeso foi ainda um dos berços do pensamento europeu. Cidade na costa da Ásia Menor, uma estreita faixa de terra onde existiam dezenas de cidades-estado gregas em que o dialecto dominante era o jónio, foi dos principais centros da chamada filosofia pré-socrática. Heraclito (540-480 a.C.), grande nome do pensamento grego, era sacerdote no Templo de Ártemis.
A imponente biblioteca de Celso, que ainda nos apresenta dois pisos de fachada, terá sido um forte centro intelectual do Mundo Antigo. Nas lajes da sua entrada ainda se podem ver desenhados no chão alguns típicos candelabros judaicos, sinónimo da forte comunidade hebreia da cidade.
No que respeita ao cristianismo, a comunidade primitiva de Éfeso será bastante antiga. Quando Paulo aí chega no fim da sua segunda viagem, já Apolo, judeu helenizado, criara uma comunidade que o discípulo confirmará (Act 19, 17).
Paulo ficará pelo menos dois anos em Éfeso, e será desta cidade que escreverá algumas das suas mais importantes cartas, nomeadamente a Carta aos Coríntios.
Tudo leva a crer, pelos vestígios arqueológicos, que no século IV, depois da aproximação feita por Constantino ao cristianismo, as imagens de Ártemis tenham sido decapitadas, destruídas, mesmo.
Recentemente, foi dada voz a uma tradição que dizia ter Maria, mãe de Jesus, passado os seus últimos dias junto à cidade, acompanhada por João, o evangelista. De facto, de forma algo misteriosa, e baseado na predição de Catherine Emmerich (1774-1824), e mediante escavações dirigidas pelo Pe. Poulin Young em 1892, foi descoberta uma construção supostamente da época a que foi atribuída essa função, atraindo agora milhares de visitantes. Alguns investigadores afirmam que a construção será posterior, do século IX, e terá sido uma igreja com a invocação da Virgem Maria.
 
As 7 Igrejas do Apocalipse: as chamadas sete igrejas do apocalipse (elencadas no Apocalipse de João) são como que um não-lugar no campo das peregrinações, dos lugares sagrados. Algumas dessas igrejas quase não apresentam ruínas e, em especial, nunca foram objecto de romagem em si.
Mas, não sendo lugar de viagem, são lugar de grande marca a nível do imaginário. Tratam-se das sete igrejas, as sete comunidades a quem foram dirigidas as sete cartas no momento final, no fim dos tempos.
São todas na actual Turquia. Éfeso, Pérgamo, Tiatira, Filadélfia, Esmirna, e Laodiceia. Todas apresentam antecedentes religiosos – nenhuma dessas cidades é de fundação cristã. Todas tinham comunidades cristãs e hebreias fortes e activas.
                  
             
Constantinopla, Bizâncio, Istambul
O berço do Cristianismo Oriental
A sede de três impérios consecutivos
 
Localizada no Estreito do Bósforo, controlando toda a navegação entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, a cidade é metade europeia e metade asiática. Foi sede de três impérios consecutivos (romano, bizantino e otomano), a que corresponderam três nomes também eles distintos mas em continuidade plena: Constantinopla, Bizâncio, Istambul.
O nascimento desta grande metrópole está profundamente ligado a alterações radicais na política e na religião do Império Romano. Coincide no tempo a opção de dividir o império em dois, a Pars Oriens e a Pars Occidens, com a aceitação e, depois, oficialização do Cristianismo como a religião do próprio império. É nesta dupla alteração que em 330, a 11 de Maio, Constantino declara a cidade como a segunda capital do império, depois de a construir quase de raiz.
Constantino, o imperador imortalizado no nome da sua cidade, ao jeito de Alexandre ou de Antíoco, tinha por mãe uma cristã, Sta. Helena. Diz a lenda que foi com o auxílio do próprio Cristo que conseguiu vencer o seu opositor, Maxentius, na luta pelo domínio de todo o império na batalha de Ponte de Milvios (312 d.C.): em aparição, Jesus disse-lhe para mandar colocar o seu símbolo num estandarte que fosse à frente de todo o exército. No topo de um normal estandarte romano, um labarum, Constantino fazia uma cruz com a estilização cruciforme do vocábulo Cristo: e facto... com esse símbolo venceria.
Efectivamente, Constantino venceu. In hoc signo vinces passará a ser um dos mais pesados e significativos mitos de toda a cristandade. Quase um milénio depois, será uma situação supostamente idêntica a que viverá o nosso monarca fundador na mítica Batalha de Ourique, levando a que muitas das moedas das nossas duas primeiras dinastias tivessem cunhada essa frase milagrosa, salvífica.
A marca da institucionalização desse cristianismo agora de império encontra-se, por exemplo, na necessidade de convocar o Concílio de Niceia (324), onde o próprio Imperador está presente, cioso de conseguir criar uma religião de estado sem as heterodoxias que até então a fé de Cristo apresentava e que, convenhamos, em nada concorriam para a unidade política do já frágil império.
Em 476, o Império Romano do Ocidente dava o seu último suspiro, mas o mundo oriental, agora dada vez mais distante e distinto do ocidental, que entrava num fase que posteriormente passámos a designar por Idade Média, continuava com uma significativa vitalidade.
Dessa época cristã, esta cidade mostra-nos uma das maiores estruturas que a humanidade construiu: a Santa Sofia, já com mais de milénio e meio de vida.
Em honra da sabedoria divina, a sabedoria que, como diz Ben Sira, esteve desde o primeiro momento junto de Deus no acto da criação, sendo seu arquitecto, este templo de enormes proporções é uma autentica obra de arte da engenharia de todos os tempos, tendo resistido a terramotos, e a demais intempéries ao longo de 1500 anos de vida. Muitas das suas paredes cederam ao esforço de tão enorme volumetria; muitos dos contrafortes arquearam; muita superfície horizontal adquiriu uma obliquidade significativa. Mas a estrutura não está em perigo: moldou-se ao tempo, ao esforço, ao desgaste dos séculos.
A primeira basílica foi construída, possivelmente toda em madeira, em 350 sob ordens de Constantino II. A grande volumetria que esta primeira construção religiosa teria encontra-se plenamente marcada no nome que lhe foi dado: magalo ekklesia, «a grande igreja».
Entre 404 e 416 foi ainda construído um outro edifício mais robusto que o primeiro, financiado pelo imperador Teodósio. Este segundo templo foi dedicado a 10 de Outubro de 415.
Este segundo edifício ficou marcado pelo incidente, uma quase revolução, que terminou com uma grande mortandade em toda a cidade, incluindo dentro do templo. Esta luta sangrenta entre dois grupos de adeptos de corridas de carros, mostrou alguma da fragilidade em que o império tinha caído.
O actual edifício, datado do século VI (532-537) teve como arquitectos Anthemius de Tralles e Isidoros de Mileto, e começou a ser construído imediatamente após a remoção dos corpos da querela referida (23 de Fevereiro de 532). Nela trabalharam cerca de 100 mestres e mais de 10.000 operários. Foram usados materiais de inúmeros monumentos da antiguidade, nomeadamente do Templo de Ártemis em Éfeso, uma das Sete Maravilhas do Mundo (ver Éfeso).
Uma antiga tradição diz que quando as obras de Santa Sofia terminaram, o Imperador Justiniano terá erguido as mãos para o céu e exclamado “Salomão, venci-te!”, numa clara alusão à superioridade do seu templo em relação ao de Jerusalém.
O templo foi dedicado a 27 de Dezembro de 537, em plena época natalícia. Santa Sofia foi usada como templo cristão durante 916 anos, desde 537 até 1453, e como templo muçulmano por 481 anos, desde 1453 até 1934, data em que passou a ser um museu. Magnificente é a sua cúpula, levantada a 55,6 metros do chão, com um diâmetro de 31 metros.
Continuadamente pretendida pelo Islão, a cidade acabou por aprofundar o abismo que se tinha criado entre a igreja cristã do Ocidente e a do Oriente, uma com sede em Roma, outra na própria Bizâncio. Este cisma teria efectivação definitiva em 1054.
A primeira cruzada passaria por aqui em 1096 sem lhe tocar. O mesmo não aconteceria com a IV cruzada que em 1204 conquistou e saqueou a cidade, mostrando de forma eloquente os desígnios da conquista da Terra Santa.
O primeiro cerco otomano teve lugar em 1390, repetido em 1422. A Conquista de Constantinopla por Mehmet II a 29 de Maio de 1453 marcou, durante séculos, uma das rupturas mentais mais significativas na cultura ocidental: o fim da Idade Média.
Essa conquista está integrada no prelúdio da época de maior apogeu do mundo otomano, o reinado de Suleymaniye, o Magnífico (1520-66). A maior parte da Africa do Norte, leste Europeu e todo o Médio Oriente estava sobre o controle Otomano em Istambul
Depois da tomada de Constantinopla pelos otomanos em 1453, Santa Sofia foi transformada em Mesquita e foram-lhe adicionados quatro minaretes.
Capital do Império Otomano, apresenta-nos ainda algumas das mais espantosas mesquitas do mundo.
Frente à Santa Sofia, encontra-se a Mesquita Azul (o seu nome deriva da decoração interior). Construída entre 1609 e 1616, era a Mesquita Imperial de Sultanahmet, com seis minaretes, tal como Meca, imagem do seu poder.
A mesquita Imperial de Suleymaniye domina a paisagem do Corno de Ouro. Construída entre 1550 e 1557, é uma jóia do arquitecto Sinán, um dos expoentes da Idade de Ouro da arte otomana.
             

                   
Antioquia
A sede das viagens apostólicas de S. Paulo
O “berço” dos cristãos
 
Biblicamente, são duas as Antioquias: a da Síria e a da Pisídia. Interessa-nos aqui a primeira, situada no Sul da actual Turquia, nas margens do Orontes.
O nome desta cidade vem, simplesmente do nome do Antíoco, nome de seis dos monarcas seleucidas que governaram a região depois da morte de Alexandre. Trata-se de um fenómeno onomástico igual ao encontrado para o nome das várias Alexandrias com que Alexandre foi perpetuando o seu nome.
Antioquia da Síria foi fundada por volta de 300 a.C., por Seleuco I, que a fez sua capital. É nesta situação política, de sede dos seleucidas, que é muito citada no bíblico Livro dos Macabeus, aquando das revoltas contra o poder ai sediado. Um dos chefes dessa revolta hebreia contra o poder helenizador, Judas Macabeu, foi levado preso para Antioquia.
Em 64 a.C. os romanos apoderaram-se da região, transformando-a na sua província da Síria, continuando Antioquia a ser a capital administrativa.
Grande metrópole da antiguidade, na época da vida de Jesus, teria cerca de meio milhão de habitantes. Seria a terceira cidade do império, depois de Roma e de Alexandria.
A comunidade judaica da cidade era bastante numerosa no século I d.C., o que explica, em certa medida, o rápido peso que o Cristianismo ai criou. Era também muito importante o grupo de não judeus simpatizantes com o pensamento e religião judaica. Entre estes dois grupos encontrou a primitiva comunidade de seguidores de Cristo a sua base de apoio e de expansão.
Tudo leva a crer que, aquando da perseguição lançada em Jerusalém em 36/37 d.C., na qual foi morreu Estêvão (o primeiro mártir cristão), alguns cristãos tenham seguido para Antioquia. A pregação nesta grande metrópole não se circunscreveu aos judeus, mas já também a todos os “tementes a Deus” (não seriam apenas os filo-judeus, mas também todos os crentes de outras religiões monoteístas que pululavam pela cidade e que se encontravam despertos para uma mensagem como a cristã, nomeadamente neo-platónicos, mitraistas – da religião de Mitra - e isíacos – seguidores de Isis)
O sucesso foi grande e rápido. Barnabé é chamado para reforçar a evangelização; este, posteriormente, pedirá ajuda a Paulo de Tarso que terá nesta cidade o seu ponto de partida para as suas famosas viagens apostólicas.
É nesta cidade que pela primeira vez os seguidores de Cristos foram chamados de “cristãos” (Act 11, 26). No fundo, como religião, é nesta metrópole helenista que o Cristianismo tem a sua Cédula de Nascimento.
Como monumento, quase uma relíquia, e local de actual peregrinação, nas encontras de Antioquia encontra-se, ainda hoje, uma gruta-capela que terá sido a primeira “cátedra de Pedro”.
 
Viagens de S. Paulo – Considera-se que Paulo de Tarso empreendeu 3 viagens para expansão da fé de Cristo. Estas viagens decorreram no tempo do imperador Cláudio, aproximadamente entre a Primavera de 47 e 60 d.C. Nestes seus périplos, deverá ter percorrido mais de 20.000 quilómetros, pisando, segundo a actual organização política, 32 países.
 
1ª viagem (Act 13, 4 a 14, 27): entre 47 e 48 d.C., acompanhado por Barnabé, João Marcos (apenas até Perge) e Lucas. Partiu de Antioquia e terá visitado Seleucia Pieria, Salamina, Pafos (ambas em Chipre), Perge, Antioquia da Pisídia, Icónio (Frígia), Perge e Attaleia, regressando a Antioquia da Síria.
2ª viagem (Act 15, 36 a 18, 22): Entre 51 e 53, partiu novamente de Antioquia, acompanhado por Silas, Lucas, Timóteo (a partir de Listra), Barnabé segue com João Marcos para Chipre. Esteve na Cilícia, Derbe, Listra, Iconium, Antioquia na Pisídia, Alexandria Troas, Neapolis, Filipos, Tessalonica, Bereia, Atenas, Corinto e Éfeso, Cesareia, e regresso a Antioquia.
3ª viagem (Act 18, 23 a 21, 27): Estavam com ele, Lucas, Timóteo, Erasto, Tito e juntam-se ainda Áquila, Priscila e Apolo. Partindo de Antioquia, visitaram Derbe, Listra, Iconium, Antioquia na Pisídia, Éfeso, onde Paulo ficou dois anos, Alexandria Troas, Corinto, Filipos, Samos, Trogyllium, Mileto Cós, Rodes, Patara, Tiro, Ptolemais, Cesareia e Jerusalém.
4ª viagem – a Roma: Partida no Outono de 59. Cesareia, Sidon, Myra, Cnidus, Lasea, Malta, Siracusa, Rhegium, Puteoli, Fórum Appi, Roma.
  
Texto adaptado do nosso volume, em conjunto com Francisco Moura, Itinerários de Fé (Lisboa, Mediatexto, 2005).

 
 
 

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