quarta-feira, 29 de abril de 2015

Homo Sapiens Indiferentis, ou a negação da mais elementar Fraternidade


Muitas vezes se fala no famoso jet lag, mas a minha maior dificuldade encontro-a, não na gestão fisiológica dos fusos horários, mas na da vivência das gentes e das paisagens humanas. Depois de uma viagem longa, com três voos que devem ter somado cerca de vinte horas, acabado de chegar à sala de aula em São Luís do Maranhão, estoirado de cansaço, ainda consigo ser surpreendido numa breve conversa com uma aluna.
Perante uma turma com vários pastores, e talvez fruto de uma certa desfaçatez típica de quem dormiu pouco, deambulei por várias situações em que pastores foram presos, acusados de burla, de roubo, de desvios. No intervalo para o café, uma aluna, enfermeira, veio ter comigo. Queria falar de uma experiência “na primeira pessoa”.
Tudo era o normal, com uma tentativa de desvio de fundos, com os recursos para trabalho social a irem parar sabe-se lá onde…. nada de novo a não ser a intensidade colocada no olhar, mais que na voz. Esse foi mesmo um dos primeiros aspectos a me agarrar a esta mulher que claramente já muito vira e muito tivera que transmitir com o olhar, com gestos, com modos que se usam quando as palavras nada conseguem dizer.
De resto, foi pelo olhar que eu fiquei preso e ficarei ainda por muitos dias. Falou-me dos índices de pobreza em algumas zonas do Estado. Falou-me das carências mais básicas. Falou-me do trabalho voluntário que é desenvolvido e de como as autoridades nada fazem. Mas o essencial não foi falado. Foi visto.
No telemóvel, mostrou-me uma vídeo de poucos segundos. Não sei se trinta, ou menos. Mas a visionação foi horrorosamente longa. Dolorosamente nítida, ao ponto de se perceberem as estrias na superfície das larvas que comiam as costas de um jovem. Com feridas de vários centímetros de largura, e com uma profundidade que rasava os ossos, um jovem agonizava numa mesa a receber os primeiros tratamentos para lhe retirar essas larvas que, literalmente, o comiam vivo.
Há já algum tempo que eu não era tão brutalmente abalado. E fui-o de forma e no momento mais inesperado. Sim, o Brasil continua a ter gigantescas bolsas de pobreza e ainda maiores núcleos de indiferença. Mas esse vídeo não era o único; outro mostrava um crânio na mesma situação. Não aguentei ver e desviei o olhar. Soube que não eram casos raros. A lepra grassa abundante nas zonas mais pobres deste Estado, num país que se farda de gala para receber Mundiais de Futebol e Jogos Olímpicos.
E, por mais uma vez, com uma intensidade antropológica e, quem sabe, teológica, levo-me à questão fundamental: porque nasci num espaço onde tenho a possibilidade de não ser comido vivo por vermes? Porque não nasci aqui, numa aldeia onde se vive na miséria, ou nos campos de morte do Ruanda?
Nada mais sou que um exactamente igual em corpo e mente. Tão gratos que somos a uma evolução que nos levou a píncaros de excepcionalidade, afinal continuamos a votar elementos da nossa espécie para níveis que nem ao limiar da sobrevivência chegam. Isto é, uma Fraternidade Humana que deveríamos ser, ainda implica o indescritível, negando-a no simples direito à mínima dignidade no corpo animal que temos, já que a mente humana, essa, nem sequer é para aqui chamada.
Que fazer com essa sorte de não ter nascido para ser comido vivo por vermes? Que fazer com esse peso de não ter nascido no Ruanda? Que fazer com essa mácula de ter sido bafejado por um “acaso” que levou a que eu seja eu, e não alguém que nada sabe, ou nada experienciou, dos avanços célebres do auto designado Sapiens Sapiens?
Sem respostas, acho que não será esta a minha boa noite de sono.

11 comentários:

  1. O comunismo era um sistema utópico que só se manteve pelas ditaduras por ser contrário à natureza humana. O indivíduos preferem ser livres para escolherem serem pobres e poderem deixar de comer para terem carro, tvs e todas as outras não necessidades. O capitalismo aproveita-se da natureza humana para poder governar países gerando riqueza que não aproveita a todos. O que viste é fruto desse capitalismo selvagem que não respeita nem dignifica o homem. Esquecem-se que para que todos possam beneficiar do enriquecimento geral, é preciso primeiro educar e culturalizar os povos. Para que todos pudessem beneficiar teria de haver um rendimento mínimo garantido a par de um enriquecimento máximo permitido. Mas isso o grande capital não deixa. Vais continuar a chorar...

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    1. Curiosa a mencao ap rendimento maximo permitido. Ha cerca de uma decada, quando ainda mantinha um Blog, escrevinhei uma vez um texto que abordava a ideia do "salario maximo nacional". Enfim, utopias...

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  2. Ja tinha lido este texto ha algumas semanas e ja nessa altura me tinha impressionado. Nao so pelas descricoes das feridas e dos vermes, mas pela identificacao com esse sentimento de culpa (?) por ter tido o privilegio de crescer e viver onde cresci e vivo. Discutia isto mesmo com a minha professora de Yoga a semana passada: como facilmente chorava naqueles momentos tipicos em que a
    maioria das pessoas dizem sentir-se confortadas - como por exemplo ao ouvir a chuva cair la fora enquanto estao quentinhas debaixo de um edredon. Eu nessas alturas nao consigo evitar pensar nos sem abrigo - tanto humanos como animais. E pergunto-me exactamente o que o Paulo se pergunta aqui: Porque tenho eu o que eles nao tem?... E o que fazer com isso?... A minha professora de Yoga falou-me de Karma, e do meu dever e direito de me sentir grata e de usufruir do que tenho. Percebi o que me disse, mas nao me alterou as inquietacoes...

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    1. Sandra, devemos estra gratos, sim; devemos ter noção do que temos, por diferença ao resto do mundo. Mas, essencialmente, acho que devemos sentir essa dita dádiva como algo que devemos multiplicar, transmitir e fazer transbordar.

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  3. Impressionante clareza desta humanidade tão imperfeita! Mas ainda bem que existem horizontes visiveis, metas. Uns tempos antes e todos viviam mal. É ease horizonte, canto de sereia mortifero, que mata tantos por pretenderem firmar o pé nas praise europeias.


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    1. E hoje ainda mais actual, estando todos suspensos sobre o que a Europa irá fazer perante o drama que se vive.

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  4. Esquecime-me de assinar o meu comentário
    Joana Ruas

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  5. O que fazer com a sorte que temos?Agradecer a Deus por não sermos sobreviventes da miséria humana.Agradecer a quantos nos ajudam a dialogar com a passado de forma a aprendermos a preservar o laço imemorial que nos liga ao resto da humanidade.A grader a nós mesmos pelo esforço que fazemos para preservar em nós bem vivo o sentido de responsabilidade em relação aos outros.Agradecer a quantos como o Paulo Mendes Pinto se aventuram pelos caminhos do homem que poucos percorrem para através da palavra cumprir a responsabilidade social de nomear e dae visibilidade ao rosto do humano.Abraço
    Joana Ruas

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    1. Joana, não sei se é sorte ou algo de muito diferente. Apenas sei que não devemos ficar imunes ao privilégio de ter nascido onde falta tão pouco, pelo menos me comparação com aqueles a quem tanto falta.
      Vivemos tempos muito complicados em que o que até ontem se pensava apenas ter lugar lá longe, num inócuo distante qualquer, hoje parece muito perto, nas praias que apenas usamos para prazer, mas onde hoje se morre.

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  6. Acabei de ler este artigo e sinto-me mergulhada num momento de reflexão! Será que podemos ter a esperança de algum dia podermos apreciar a chuva cair lá fora sem pensar nos sem abrigo? Grande mudança da face da terra, deseja-se.

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    1. Cara Helena, apenas busco o momento de poder ouvir a chuva com a serenidade de ter dado o meu melhor.
      Ainda não consegui esse momento. A chuva ainda me molha sem me deixar senti-la livremente, sem o peso de serem, eventualmente, como lágrimas.

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