terça-feira, 7 de maio de 2013

... calor ...


Quem me conhece não achará muito estranho...
Em dias como os que correm, sinto o que é ser um pedaço de metal. Sim, um pedaço que sente aproximar-se o momento da fundição, seja ela a primeira ou já uma segunda em virtude da reutilização.Não sei como será por tarde de um naco de ferro, ou mesmo de um tacho de alumínio. Mas o que sei, pela minha prática de tempos quentes, é que o calor se nos entranha de uma forma que chega, mesmo, a dissipar a nossa natureza. Ao contrário do metal, a nós apenas não nos leva a uma plena fluidificação. Mas andamos lá perto.As nossas formas parece que se desagregam. O nosso corpo deixa de reagir. Os líquidos passam a dominar a nossa superfície. O calor é a mãe de todas as deformações a que assistimos. Diz a Física que tudo se passa no campo da energia e da movimentação dos átomos.Pois digo-vos eu que nada disso acontece. Tudo tem a ver com uma dimensão esquisitóide em que o calor suscita em nós o desejo de esgotamento. Se aos átomos é dada maior energia, implicando mais movimento e mais vigor, pois a nós, humanos de átomos também feitos, tudo ocorre da forma inversa: o movimento é tudo o que perdemos.À noite, com uma aragem, uma brisa, a vida regressa ao corpo. Começo a controlar melhor os movimentos. E mesmo o cérebro parece largar, finalmente, a hibernação em que se lançara devido à temperatuda elevada.Nunca mais chega o Inverno....

ÓCIO ou NEGócio?


Tal como mostra a etimologia usada no título deste texto, a nossa cultura tem prezado a distinção entre os tempos de ócio e, o que os nega, os de negócio.
Poderíamos dizer que, para os latinos, a base era o ócio – é que se depreenderia do facto de ser esse o conceito base sobre o qual se forma a sua negação.
Para nós, a base é, claramente, o negócio: o ócio é aquilo que se almeja e se atinge em alguns momentos, nos intervalos possíveis do negócio.
A nível religioso, várias tradições de análise cultural e antropológica identificaram directamente a possibilidade da criação cultural e religiosa com a existência de tempos de ócio, como se de algo acessório à natureza humana se tratasse.
De facto, talvez a cultura e a religião não estejam no pacote mais imprescindível da sobrevivência da espécie, mas cada vez mais se afirma a criação e a fruição das construções mentais como o grande diferenciador face aos restantes seres que habitam este planeta.
Mesmo a tradicional diferenciação entre ócio e negócio, tão afirmada em tempo de férias, tem de ser tomada com grandes cuidados.
O prazer não se afirma apenas no campo do ócio, nem a grandiosidade das criações humanas necessita da pacatez do nada fazer para desabrochar.
Quantas vezes é o stress triunfante, o desgaste, o suor que faz eclodir a grande ideia ou o brilhantismo.
Quão importante é na nossa sociedade a chamada realização individual, quase coincidente com a profissional. A gestão dos prazeres do dia-a-dia passa pelo local de trabalho, pelos desafios e pela afirmação nesse constante mundo do negócio, do trabalho, numa concepção de quase culto e prazer de um «serviço profissional obrigatório».
Quantas vezes em fim de férias não sentimos vontade de voltar às “hostilidades”; um “vamos a eles!”.
Se em tempos ainda não muito recuados alguém afirmou que a religião era o ópio do povo, cada vez mais devemos baralhar esta afirmação de Marx com a cada vez mais forte necessidade de produzir e de nos afirmarmos por esse meio: o trabalho é o ópio do povo.
A uma religiosidade que supostamente anulava a individualidade, a capacidade da afirmação das capacidades do homem (como afirmava Nietzsche), sucedeu uma outra forma de o indivíduo se encaixar no mundo. A grande constante mantém o lugar deixado para o ócio: o periférico que tem lugar umas escassas vezes por ano ...
Ainda não foi desta que o ócio passou a ser a base de tudo.

as regras que somos


Poderia mesmo ser um manifesto de vida. Uma máxima em que se pega, um sentido dado às coisas. Mas é muito mais. Sem saber, sem dar por isso, todos passamos a vida a definir o que não devemos fazer. Por mais que desejemos esquadrinhar e planear o que queremos, apenas conseguimos a fraca aproximação ao seu oposto.
Exactamente, talhados para uma quase incapacidade de atingir a plenitude, ficamo-nos pela completude de um quase. Não sei o que quero, mas, ao menos, imagino o que não quero...
Um sinal é isso. Uma regra apenas existe porque nos indica, aborrecidos que somos com tudo, o que não devemos fazer. Pois é, se não houvesse uma regra ela seria inata? Se não nos dissessem "não te mates", eu seria capaz de o não fazer?
Profundidades existenciais à parte, o que nos interessa é saber se conseguimos esticar a linha da nossa imaginação ao ponto de sermos a regra e ela ser interior a nós. Muito o Direito nos diz sobre o que é natural na legislação. Sim, que ela apenas responde às necessidades e, por isso, é tomada pelos cidadãos como natural.
E o seu oposto, não é natural? Por mais risível que seja, uma regra ajuda-nos a definir o que não fazer. Mas também nos ajuda, no caso dos mais distraídos, a saber o que não fazer e, assim, poder quebrar as regras mediantes as regras que temos...

aPOCALIPSE, ao contrário


Diz-nos um texto sumério que, no princípio, ditaram os deuses que o Homem lhes fosse submisso. Em contra partida, e de forma aleatória e nada regular, eles ser-lhe-iam propícios, e disso deveriam ficar gratos. E tendo sido assim, ambos acharam bem por não conseguirem imaginar que fosse de outra forma. E ficaram todos contentes porque parecia bom.
Deuses e Homens irmanados na mesma desgraça: a uns tolheu-os a incapacidade de coisa alguma fazer porque tudo lhes faziam sem exigência; os outros, nada fizeram porque para isso não estavam instruídos. Incapazes de perceber que quem comandava, afinal não o fazia porque nunca aprendera a comandar, seguiram à tona de água, se bem que com muitas intempéries e naufrágios que mais foram vividos como dilúvios.
E assim chegaram, uns e outros, ao quase nada, ao tão pouco, que tem sido o esforço que mutuamente fizeram por si mesmos. Num qualquer momento em que se aproxime o fim dos tempos, quando o dia final vier colocar o seu ponto no extremo da linha em que correm, nada haverá para dizer, senão o lamento por ter aberto os olhos.
Apocaliptico o discurso? Sim, inevitavelmente negro e sombrio. Afinal, quem melhor que os deuses poderia ter compreendido que todos eram o mesmo? Agora, volvidas muitas eras, basta olhar para trás e chorar. Afinal, os filmes em nada foram diferentes da realidade: efémeros e sem continuação na vida real. Quem dera que o mito tivesse um lugar. Sim, esse. O da realidade!

Is there a time to turn to Mecca


Is there a time for first communion
A time for East Seventeen
Is there a time to turn to Mecca
Is there time to be a beauty queen
Miss Sarajevo, U2

[ao ouvir uma recriação deste dueto maravilhoso, escrevi este texto]


O mundo das ideias feitas não se adequa à realidade das civilizações e das culturas. Perante movimentos como o sucedido nas últimas semanas na Tunísia e noutros países muçulmanos e, em especial, no Egipto, percebemos que pouco ou nada dominamos no conhecimento sobre essas tão próximas culturas.
Comentadores, analistas, fazedores de opinião, todos foram apanhados de surpresa por uma série de dimensões inesperadas num mundo que nos habituámos a olhar apenas com umas lentes. Tudo o que saia desse espectro de olhar nos era estranho e, simplesmente, não se via.
Despudoradamente, o que hoje interessa é conseguir não colocar muito de nós na análise que do Médio Oriente se fizer. E esse esforço, mais que enorme, é desgastante porque nos obriga a sair da facilidade dos nossos pré-conceitos, do conforto das ideias feitas.
O que resultará dos movimentos claramente cívicos do Egipto? Haverá um lugar institucional para um Islão não fundamentalista na organização e na concepção do Estado? O caminho, com um exército forte, será o da Turquia em que essa instituição é o garante e o observador da laicidade? Ou, como gostamos de ler na realidade, ao contrário, a evolução terá na Irmandade Muçulmana uma forte componente, não se separando o civil do religioso?
O problema deste dilema que hoje em dia se coloca ao mundo islâmico, e que nós não imaginamos, sequer, as formas da sua resolução, encontra-se dentro da própria Europa: há anos que a nossa latente islamofobia faz circular pela internet as mais assustadoras projecções. “Em menos de 50 anos estaremos todos islamizados!” dizem os que ainda acham que somos todos cristãos, ou os que acham ser o Islão a antítese da civilização, reunindo-se neste medo vários opostos.
Ora, desenganem-se, uns e outros. É que – espantem-se – até mesmo o Islão, é composto por pessoas... Disso se esqueceram os comentadores que ao longo dos últimos anos fizeram previsões apocalípticas sobre o mundo muçulmano para as próximas dezenas de anos. E as pessoas são imprevisíveis. Há algo de matemático, mas ligado às imagens do Caos, na forma como as sociedades reagem: é impossível imaginar como será o Islão daqui a um mês, quanto mais daqui a 50 anos…
O realismo necessário para abraçar os problemas de hoje implica que nos afastemos da boçalidade de imaginar que sabemos o que vai acontecer daqui a mais de um mês. Não sabemos, e isso é certo, mas a realidade vai superar a nossa imaginação. Basta que estejamos atentos e dela dêmos conta.
Enquanto mundo, estamo-nos a virar para Meca, sim. Mas há muita forma de o fazer. No Egipto tenta-se uma nova maneira.
Felizmente, em relação ao futuro, os Homens e a as Mulheres são melhores quando anónimos do que quando assinam textos. Olhemos para os movimentos, não para os catastrofismos teóricos. Afinal, não é essa a essência da Democracia que “lhes” queremos transmitir?

domingo, 16 de dezembro de 2012

Para uma apologia do incómodo cultural

Há alguns anos, comecei a questionar a validade de usar a palavra "tolerância". Na altura, num artigo para o Público (que reproduzo abaixo), dizia simplesmente que toleramos o que, sem pode rejeitar, conseguimos manter na nossa órbita. Tolerar, não é, assim, do campo da efectiva relação, mas sim das possibilidade que se abrem ao cumprir regras de convívio.

Da mesma forma, não pagamos impostos porque os achamos essenciais; assim tem que ser. Toleramos os impostos por não se conseguir uma outra via. Regra geral, quem a consegue, segue-a. E esta, aplicada à cidadania, é a marca do falhanço rotundo.

O que fazemos, fazemos por Respeito, ou por obrigação? É esta a questão que cada vez mais me fascina. Como será possível, num tom muito kantiano, tornar o Respeito imanente, apriorístico nas nossas acções e nas nossas tomadas de opção?

No campo da relação, entre partes, a sessão de apresentação do livro de homenagem ao Frei Bento Domingues, trouxe uma afirmação simples e cristalina, quanto também de impossível. "Não há diálogo sem incómodo", afirmou Guilherme de Oliveira Martins quando falava sobre o frade dominicano que eu tanto admiro.

"Não há diálogo sem incómodo"?... poderá a falta de diálogo resumir-se a uma incapacidade, a  uma falta de vontade de sair de uma oposição de conforto? Sim, o diálogo é sempre resultado de uma capacidade de falar, de ver, e de escutar, é claro.

Quantas vezes as actuais dinâmicas de contacto entre culturas nas nossas cidades se resume ao "simpático" da festa, da partilha de moções em ambientes diferentes, em situações onde o exótico e o peculiar fascinam quase que como num circo... será isto diálogo? ou não é, antes, um conforto de ver, ao vivo, no nosso espaço, o bizarro do deferente?

O que nos torna, então, respeitadores?




terça-feira, 4 de dezembro de 2012

escrever, escrever, escrever-me

Ontem à noite, sentado no típico sofá de sala, dizia eu que mal terminasse esta onda avassaladora de burocracias, de papeladas, me ia lançar à escrita. É fácil de dizer, é quase catárquico, tem mesmo um sabor a ameaça num misto de desejo, mas, de facto, quando conseguirei escrever?
É verdade que gosto de dirigir, de coordenar. Gosto de lançar projectos e de os ver crescer. Mas quanto de cada um de nós se esgota em tarefas que, sendo muito importantes, não são exactamente o que nos daria prazer, nem são, sequer, o que de melhor nós poderíamos dar à sociedade?
Há umas boas duas semanas que sonho com projectos de escrita, de investigação, de reflexão. Como que numa fuga ao actual estado de coisas, ontem lancei três ideias. São projectos de livros, em campos muito variados, mas todos eles como que me ressuscitariam desta letargia intelectual em que cai quem manda, ou pensa que manda...
Foi muito por isso que este projecto de blog-diário nasceu: obrigar-me a escrever.
Preciso.