terça-feira, 7 de maio de 2013

Anti (semitismo - judaísmo - israelismo – sionismo): algumas diferenças


Num momento em que a guerra de Israel contra o Hezbolah parece já não vir a ser um conflito relâmpago, uma incursão cirúrgica, urge olhar para as palavras que usamos com um cuidado redobrado, fugindo à leveza da fugacidade das realidades passageiras.
De facto, no actual mundo do fast food intelectual e cultural, assistimos constantemente ao abusivo uso de determinados conceitos, de vocábulos que nasceram com definição clara do seu sentido mas que, pelo seu uso muitas vezes irresponsável, o perderam por completo, lançando um caos pantanoso onde tudo pode ser dito.
Não se trata de um purismo linguístico, mas sim de um esforço que é necessário fazer para afastar muitos mal entendidos e muitos juízos de valor.
E é importante tratar as realidades com os nomes que, de facto, se lhes aplicam, porque os nomes, as palavras, querem dizer alguma coisa, criam nuances de sentido, subtilezas de pensamento. A generalização de certas expressões que deixam de ter um sentido claro é uma das mais profundas provas de iliteracia.
O caso dos quatro vocábulos usados em título é significativamente importante porque nos obriga a um exercício de pensamento em que se separam fenómenos diferentes. Sem se compreenderem, nas suas especificidades, esses fenómenos, podemos estar a lançar os conflitos para campos ainda mais dramáticos, criando assim uma nova conflituosidade.
Esta conflituosidade criada nas opiniões mediante o uso de certas expressões, pode levar a reacções extremadas por parte de grupos islâmicos e judaicos, dificultando o diálogo e lançando ainda mais discórdia: o uso errado de certas palavras leva-nos para um horizonte de criação de uma guerra virtual em torno de judeus, islâmicos e “ocidentais”.
Historicamente, o «anti-judaismo» nasceu primeiro. Baseado na ideia de que os judeus mataram Jesus, o Cristo, o Deus Vivo, criou uma mácula que se estendeu por dois milénios. Culpados do deicídio, os judeus foram perseguidos por praticarem uma religião que conduziu a esse crime máximo, constantemente considerados um dos males do mundo.
O «anti-semitismo» difere da noção anterior porque perdeu a carga religiosa e se abriu ao horizonte cultural mais largo do mundo semita. Um anti-semita não persegue um judeu porque ele pertence a uma religião, a um grupo humano, que optou por matar Jesus.
O anti-semitismo existe porque vê nos judeus os descendentes de uma raça inferior, os semitas. Ora, duas considerações há a fazer: 1) este fenómeno está plenamente enquadrado numa Europa que não integrou as comunidades judias, e que via nelas algo de exterior a si mesmas (os semitas não eram europeus, eram asiáticos); 2) esta palavra teve maior expressão aplicada a judeus, mas designava genericamente todas as populações com origem no Médio Oriente, incluindo árabes e islâmicos.
Desta forma, o que se passa em Israel, na Palestina e no Líbano nunca pode ser designado como anti-semitismo: ambos, palestinianos e israelitas, são semitas.
Donde, é a noção de «anti-israelismo» que deve ser lançada em campo em detrimento da anterior. E este campo já pouco tem a ver com a religião, já pouco tem a ver com a visão de raças inferiores, em tudo tem a ver com uma delimitação de um estado, em tudo tem a ver com a definição das fronteiras e com as resoluções da ONU que obrigavam Israel a confinar-se a uma determinada linha fronteiriça.
Ser anti-israelita não implica uma posição antisemita. Um dos «anti» é de natureza “rácica”, o outro, é de natureza política.
Mas, obviamente, nada é linear. Transversalmente, há ainda a ideia de «anti-sionismo», conceito de mais difícil definição. O moderno sionismo nasce no século XIX e tem como objectivo o restabelecimento de uma pátria judaica no espaço do antigo Israel. Muito do anti-semitismo do século XIX nasce por oposição às linhas de poder de grandes famílias judias que fomentaram esses discurso de regresso à Palestina.
Para muitos, esse regresso implicava um domínio completo e total da região, e não apenas de um território mais pequeno. Pretendia-se, miticamente, alcançar os vastos domínios de David e de Salomão, recriando uma certa ideia de império, de domínio muito acima do nacional.
Complexificando ainda mais um pouco, o facto de o Estado de Israel ser um Estado Judaico, e de os judeus pelo mundo fora se sentirem solidários com essa nação (muitas vezes com dupla nacionalidade simplesmente por serem judeus), provoca o esbatimento dos conceitos anteriores. Por analogia, as reacções às comunidades judias fora de Israel são como que um ataque a Israel na medida em que há uma relação próxima entre essas duas realidades.
Muito se ganhava se as palavras fossem usadas correctamente. Muito do que de conflito latente se tem criado na Europa poderia ter sido talvez evitado, ou amenizado, se quem escreve ou fala sobre estas questões não falasse, por exemplo, constantemente em anti-semitismo, relançando um fantasma que, agora, quase não existe. Se continuarmos a falar tanto dele e da forma como o temos feito, talvez o ressuscitemos ...



Jornal Público, 13 de Agosto de 2006, p. 7.

A dívida individual como base de um investimento colectivo?


Um olhar para o distante início da monetarização

"Se um dos teus irmãos empobrecer, e não satisfizer as suas obrigações para contigo, protegê-lo-ás, mesmo que seja um estrangeiro ou um inquilino, e deixa-o viver contigo. Não receberás dele juros nem lucro algum, mas teme o teu Deus para que o teu irmão viva contigo. Não lhe emprestes o teu dinheiro com juros, nem lhe dês os teus mantimentos para disso tirar proveito."
Levítico (25, 35)

Há, por vezes, uma sabedoria que rasga os tempos e irrompe na nossa mente como um trovão que nos remete para as forças ancestrais da natureza. Alguns dos textos mais antigos da humanidade têm esse condão, o de nos despertar para o essencial, subtraindo-nos ao supérfluo. Quando nos parece que andamos enredados em soluções fast-food que nada nos trazem de novo, há sempre uma lufada de ar fresco numa esquina a que nos propúnhamos passar.
Uma dessas esquinas ou encruzilhadas civilizacionais encontra-se no mapa da Bíblia, num inesperado texto de carácter muito formal. Esse texto, muito ligado ao legalismo, portanto, aparentemente pouco rico em aspectos de humanismo, é o Levítico. Seja-se crente, ou não, nos tempos que correm, este texto está repleto de boas práticas económicas vindas dos primeiros séculos de monetarização da economia.
Na mentalidade antiga, o lucro era um resultado que espelhava uma relação com o divino. Temia-se o deus que possibilitava a riqueza. A forma como se geria essa riqueza dada ou possibilitada pelo deus era imagem do que essa mesma divindade poderia pedir em contas num juízo final.
Pela prática apontada pelo Levítico, se uma das partes contratuantes não consegue cumprir o estipulado, em vez de se exigir o pagamento, levando a uma ainda mais profunda e irreversível falência, criam-se as condições para uma evolução financeira que possibilite a retoma da actividade e um futuro pagamento, diríamos nós, sustentado.
A cobrança de dívida é, desta forma, travada nos momentos limite. O aparentemente defraudado cobrador transforma-se naquele que deve criar as condições para que o que está em falta volte a poder cumprir os seus deveres.
Muito inteligentemente, esta forma de acção e de protecção é um verdadeiro investimento no futuro, potenciando, a médio e longo prazo, efectivas cobranças da dívida na totalidade, e não apenas as cobranças parcelares que o curto prazo por hastas realizaria.
O que de essencial tem este pequeno excerto antigo é exactamente o facto de ser antigo, moldado pelo muito correr de água debaixo de pontes. Muita falência, muita gente passada à escravatura por impossibilidade de pagar as dívidas tinha sido retirada à massa produtora e pagante de impostos. Quem lucrava com isso? Obviamente, ninguém lucrava com uma situação económica em que parte da população deixasse de ser produtiva. A longa passagem dos séculos demonstra-o bem. A nossa escassa memória colectiva social afasta-nos de conclusões acima do pensamento diário das bolsas.
Introduzida na economia do Mediterrâneo no início do I Milénio a.C., quatro séculos depois, as principais culturas dessa região deparavam-se com sistemáticos problemas de endividamento que colocavam os próprios sistemas políticos em risco – como hoje, diríamos nós.
Este é o confronto da História enquanto modelo. Não porque a História seja o campo do exemplo de morais e práticas que devamos imitar. Mas porque nos mostra como somos novatos nisto de saber como funcionam as economias e, em especial, as pessoas e as sociedades quando as crises as afectam.
Realmente, imaginemos uma sociedade em que os endividados são acolhidos em “casa” para voltarem a ser produtivos e a pagar impostos? Era bem pensado… e já alguém o pensou há cerca de 2.500 anos. Talvez nunca ninguém o tenha levado à prática.



Jornal Público15 de Janeiro de 2011, p. 36.

alentejo



Na imensidão que o olhar nem sequer consegue abranger, a paisagem deste além-Tejo, pré-Algarve, torna-se quase absurda de contrastes e de sensações tão opostas que provoca. Diz a forma como as gentes vão criando as palavras e as expressões, que esta é a “auto-estrada do Algarve”. É verdade que sim, que o é, mas este é o caminho do nosso reencontro com a calma, com a fluidez da paisagem que se frui, com a languidez que é desejo de ficar.
Tudo nos impele a ir mais depressa. Contudo fica sempre no viajante a vontade de parar, de ver melhor aquele pormenor porque, afinal, aquela paisagem é monótona, mas é tão rica no despertar dos sentidos, que ficaríamos longamente a ouvir essa harmonia de cores, de saberes, de sabores.
É assim, o Alentejo, as suas planícies, as suas estradas e caminhos. Num perder de vista parece ser tudo igual. Num olhar descuidado, perdemos o controle do preconceito e ligamo-nos para sempre a esta terra milenar onde cada torrão de terra já viu passarem cavaleiros e cruzados, padres, rabis e imãs, filósofos, mercadores e saltimbancos.
É simples misturar os opostos. Basta uma pitada de sal, um pouco de coentros, e deixar o ambiente fazer o resto.

Direitos individuais e Deveres universais: judaísmo e economia


Genealogicamente falando, aquele a que normalmente designamos por espaço de Israel, mais precisamente, o Mundo da Bíblia, é pleno herdeiro das tradições legais de toda a Mesopotâmia.
Desde o III Milénio a.C. que vários códigos legais tinham surgido com o intuito de gerir a vida em sociedade, uma sociedade cada vez a viver em maiores urbes e, acima de tudo com formas de relações também cada vez mais complexas. Trabalho, propriedade, tudo tinha que ser gerido com cuidado pois poda implicar revoltas, descontentamentos.
Mas mais. A administração da justiça surge desde muito cedo como a forma, por excelência da imagem régia. Numa época em que se está ainda a definir o que se virá a chamar «Rei», a administração da justiça o que Foucault dirá ser o “monopólio da violência” a que se chega numa situação imite no século XVII, com o nascimento do Estado Moderno, punir é gerir o caos, domar as forças destruidoras da sociedade e da ordem. Tudo começou aqui, mais propriamente em Eshnuna, com o grande momento em no chamado Código de Hammurabi.
Neste último, com o nome do monarca que o mandou erigir na negra e duríssima diorite, o rei é mostrado a receber a “Lei” do deus Sol. Ela, essa dita Lei, é a maior dádiva dos deuses ao mundo, ao Homem e, naturalmente, a um monarca que se quer afirmar quase desse mundo sobre-humano.
Ao referir estes simples aspectos, o tal Mundo da Bíblia surge-nos imediatamente a nossos olhos.
Primeiramente pela natureza casual do que encontramos em ambos os casos: as leis antigas são reunidas, não em corpus sistematizados, em códigos civis, mas sim em colectâneas de sentenças que servem de exemplo. Assim nos é apresentado no Código de Hammurabi, assim vemos em Salomão.
Mas ainda porque no Mundo da Bíblia, será levada ao limite a necessidade de uma Lei, uma lei enquanto um dever, uma afirmação de ordem. A génese do monoteísmo judaico está perfeitamente intrincada com a génese da própria identidade do povo e das estruturas sociais e políticas em que se desenvolveu.

A Lei, o sentido universalizante
Um dos momentos mais importantes de rastrear para a compreensão da construção do corpo de textos normativos do monoteísmo judaico encontra-se no Deuteronómio e nos estratos redaccionais e de compilação normalmente chamados de deuteronomistas encontrados noutros livros bíblicos. Nesse livro, posterior ao exílio da babilónia, encontramos estruturada e apresentada a Lei, isto é, todo o conjunto de códigos a que está obrigado o povo judeu.
Podemos começar por afirmar que o sentido do texto, a Lei, usa o sentido da história para se afirmar, se robustecer, e validar as suas pretensões. Não só o livro Deuteronómio tem a início um prólogo histórico – os primeiros onze capítulos -, como é com esse prólogo que discursivamente se lançam as bases da necessidade da existência e adopção dessa mesma Lei.
Especificando, ao longo dos estratos deuteronomistas, podemos encontrar dezenas de fortíssimas valorações relativamente à memória do cativeiro no Egipto. E porquê? Porque é decorrente da vinda do Egipto a instalação em Canaã. A justificação da Lei cruza-se com a legitimação da instalação. Mais, a dinâmica da promessa que conduz à instalação é apresentada como dependente do cumprimento da Lei.
De facto, no início do livro é logo enunciado o elemento que, nesse mesmo discurso, surge enquanto finalidade: a instalação em Canaã. De facto, toda a narrativa está enunciada no sentido cronológico da ida e chegada a Canaã, dependendo esta da clara e pronta adopção da Lei:
[…] Eu te exporei todos os mandamentos, leis e preceitos que lhes ensinarás e que eles cumprirão na terra que Eu lhes darei em propriedade. […] Segui o caminho que o Senhor, vosso Deus, vos ordenou, para viverdes e serdes felizes. Assim, prolongareis a vida na terra de que ides tomar posse. (5, 33)
Ou, ainda:
O Senhor ordenou-me, então, que vos ensinasse as leis e os preceitos que deveis cumprir na terra para onde ides, para tomardes posse dela. (4, 14)
O importante é que este discurso colocado na boca e na época de Moisés, foi redigido vários séculos depois, quando a instalação no território era já acontecimento passado.
Isto é, está assim construída a possibilidade de uma identificação fortíssima entre uma sociedade e uma divindade: um espaço e uma organização comum ditada por Deus, a Lei Mosaica.
Profundamente marcada pela relação com um facto histórico, a identidade judaica, e o seu deus em processo de monoteização, surge claramente historicizada e fechada sobre esse momento como que iniciático vivido pelo grupo. Mais que esse momento, usado como chave justificativa, o centro encontra-se, de facto, na necessidade da adopção da Lei.
Tudo, a nível da legitimidade de tomar o espaço com que o povo se identificará, está sujeito à adopção de uma Lei… o modelo da gestão das vivências situa-se na existência de leis. Mais, de leis vindas de um deus.
           
Aliança e dever
De resto, se na História de Israel, no seu segmento histórico, encontramos tão patente esta ideia da necessidade de uma Lei e da sua relação profunda com a identidade colectiva através da forma de legitimação da ocupação do espaço, a verdade é que já em épocas anteriores esta dimensão havia sido experimentada.
Todo o Antigo Testamento se encontra marcado por um princípio base: a contratuação. Assim se passa em vários patamares de aliança entre Deus e o seu povo (Abraão, Moisés, consignação da monarquia, etc.). Talvez um dos maiores símbolos desta religião fosse mesmo a famosa Arca da Aliança.
De resto, basta usar uma qualquer concordância bíblica, para se ter acesso à dimensão verdadeiramente omnipresente desta ideia: 276 vezes é quanto a palavra «aliança» surge na Bíblia, quase todas elas no Antigo Testamento.
O universo de significado é sempre muito próximo. É a própria ideia de Povo Eleito que radica nesta situação de Aliança. De resto, este aspecto decorre, em tudo, do que tratámos antes: a legitimidade da instalação em Canaã implicou uma aliança, tal como já antes acontecera com Abraão.
Muito linearmente, estamos perante um grupo, uma ou mais sociedades, que centraram parte do seu imaginário na ideia de um contrato. Ora, em primeiro lugar este contrato é ao mais alto nível, com Deus. Em segundo lugar, esse Deus participante no contrato, não é um normal indivíduo: é uma entidade que não aceita facilmente a falha nesse quadro legal, como muitas vezes o vimos fazer no Antigo Testamento.
Usemos expressões como, Deus vingativo, temor a Deus, o importante é que era sabido que uma das partes contratuantes era muito mais poderosa e vigilante que a outra.
Inevitavelmente, quando falamos de contrato, esperamos rigidez de regras, determinação de acção e, em especial, respeito e prossecução dos objectivos traçados a início. Como súmula, aquilo de que aqui falamos é de Confiança ou, por outras palavras, Segurança.

Elementos éticos e de prática económica
Depois de um breve olhar por dois princípios de mentalidade relativamente vagos, olhemos agora para o universo da concretização em práticas quotidianas a nível do que mais desumanos nós muitas vezes apontamos: a economia.
Vejamos algumas dessas regras ou normas, não esquecendo nunca que o judaísmo é, acima de tudo, diverso. Todas as generalizações realizadas têm em conta um horizonte ideal, imaginário, de um grupo padrão que, naturalmente não existe em todo o bloco das considerações aqui realizadas.

Política de preços e de lucros
Quando nos referimos a negócios, neste mundo religioso e mental onde encontramos uma profunda ligação entre a possibilidade de enriquecer e a anuência do divino, somos levados a pensar, então, nas formas de gestão da política de preços e de lucros. Se a riqueza é um dom de Deus, e se a riqueza se adquire pelo lucro, que regras estão subjacentes a esta mecânica?
Em primeiro lugar, e tendo em conta o quadro cultural da origem do judaísmo, tudo nos leva a crer que os juros praticados seriam altos (entre os 30 e os 50% em poucos anos)[1]; o que poderia ser, aliás, uma resposta por parte de quem emprestava dinheiro ao facto de se terem criado formas cíclicas de perdão de dívida.
Em segundo lugar, encontramos um mundo de negócios altamente aberto à criação e oportunidades e de lucros, mas sempre constrangido pelo limite correcto dessas práticas. Um limite que é sempre uma definição de regra e de práticas dos indivíduos, mas também do todo social – num grupo onde riqueza e saber advém de Deus, o seu uso implica todos.
Assim, vários trechos antigos nos mostram uma profunda aversão a atitudes de alterar ou esconder, ou mesmo viciar, as regras deste jogo. Oseias, por exemplo, não hesita em usar uma imagem deste universo da confiança necessária nos negócios:
                Canaã é mercador de pesos falsos e amigo da fraude (Os 12, 8)
Por oposição, assumindo os deveres de equilíbrio contratual, qual imagem da Aliança como já apontámos, Efraim afirma de si:
Em verdade, tornei-me rico, adquiri fortuna. Em todo o meu esforço não me encontrarão culpa ou pecado(Os 12, 9)
No fundo, tudo se pode resumir à questão do preço justo e do duplo benefício: o preço justo é aquele que ambas as partes acharem... justo e, em especial, que traga clara vantagem e interesse a ambos. O Levítico (25, 14) diz-nos isso de forma clara:
Quando fizeres uma venda ao teu próximo, ou se comprares alguma coisa, não vos prejudiqueis um ao outro.
Utópica, talvez, esta sentença era a imagem da ordem que se queria manter mesmo através dos negócios. Mesmo no quadro do lucro, era suposto o Povo Eleito respeitar o equilíbrio, quem sabe, a equidade.
De facto, a busca de riqueza fácil é por diversas vezes apontada como um mal, denegrida seriamente, como no Eclesiastes (5, 9):
Aquele que ama o dinheiro nunca se saciará do dinheiro, e aquele que ama a riqueza, a riqueza não virá ao seu encontro.
Mais uma vez, não é o desejo de riqueza que comanda o processo da sua aquisição: é algo superior, como vimos, o próprio Deus.

O empréstimo como política social
Tendo em conta a questão de identidade hebreia ou judia, nunca ficou claro de que forma se aplicavam os juros aos correligionários de religião. O Deuteronómio (23, 20) nega a prática da usura entre hebreus, entre membros do Povo Eleito:
Não exigirás ao teu irmão juros de dinheiro, juros de comida ou juros de qualquer outra espécie. Poderás emprestar com juros a um estrangeiro, mas não ao teu irmão.
Contudo, mais à frente (25, 35), apresenta-nos o que realmente se passaria, e cria mesmo elementos de gestão para a falta de cumprimentos das obrigações – donde, existiam:
Se um dos teus irmãos empobrecer, e não satisfizer as suas obrigações para contigo, protegê-lo-ás, mesmo que seja um estrangeiro ou um inquilino, e deixa-o viver contigo. Não receberás dele juros nem lucro algum, mas teme o teu Deus para que o teu irmão viva contigo. Não lhe emprestes o teu dinheiro com juros, nem lhe dês os teus mantimentos para disso tirar proveito.
Como depreendemos, o lucro, sendo a já referida atitude que espelha uma relação com o divino, implica a ideia de temer a esse Deus que possibilita a riqueza. Mas, em especial, adquirir é um processo em que o dito jogo da economia e finança não pode estar falseado: se uma das partes não consegue cumprir o estipulado, em vez de se exigir o pagamento, levando a uma ainda mais profunda falência, criam-se as condições para uma evolução financeira que possibilite a retoma da actividade e um futuro pagamento, diríamos nós, sustentado. A cobrança de dívida é, desta forma, travada nos momentos limite. O aparentemente defraudado cobrador transforma-se naquele que deve criar as condições para que o que está em falta volte a poder cumprir os seus deveres.
Muito inteligentemente, esta forma de acção e de protecção é um verdadeiro investimento no futuro, potenciando, a médio e longo prazo, efectivas cobranças da dívida na totalidade, e não as cobranças parcelares que o curto prazo por hastas realizaria.
A visão do problema toma, mesmo, vertentes um pouco inusitadas e, de certo, exageradas na prática. As imagens, as situações bíblicas são, muitas vezes, fruto não de sistematizações legais, mas o corolário de alinhavo de sentenças que serviriam como exemplo. No Deuteronómio temos uma dessas descrições que deve ter tido como base uma situação que, por ter sido tão inesperada, foi rigorosamente detalhada e mereceu ficar na memória colectiva. Neste caso, verdadeiramente excepcional, é lançada a ideia de dignidade do devedor, aquele que mantém direitos, um dos quais o de não se ver obrigado a ver a sua morada invadida por aquele a quem deve (24, 10-13):
Quando emprestares alguma coisa ao teu próximo, não entrarás em sua casa para tomar penhor. Esperarás fora, e o homem a quem fizeste o empréstimo é que virá cá fora trazer-te o penhor. Se esse homem for pobre, não te deitarás com o seu penhor. Devolver-lhe-as o penhor ao por do sol para que possa repousar sobre o seu manto e te abençoe.
Defendendo os mais frágeis na estrutura social, ocorreram, mesmo, formas de limitar o preço de bens fundamentais. Neste caso, como nos anteriores, verifica-se que o bem individual, adquirido através do lucro em negócio, não colidia com o bem social global. O controle de alguns preços era um instrumento para que nunca ninguém chegasse a uma situação de extrema pobreza. Não se chegando a esta situação, mais facilmente se seria, a médio prazo, um novo consumidor ou mesmo investidor.
Por fim, todo este universo se realiza no campo dos compromissos, dos laços e dos afectos, podendo tudo passar ao lado dos poderes e dos tribunais.

Relações laborais
Os pontos que tratámos antes levam-nos ainda a uma outra questão em tudo semelhante, ou mesmo deles decorrente, da junção entre a ideia de aliança, ou melhor, de contratuação e confiança, e a de apoio social. O universo laboral é esse ponto de encontro, nas relações entre quem emprega e detém o capital ou, usando ainda a linguagem marxista, os bens de produção, e quem labora sob ordens superiores nesses meios que lhe são, a nível de posse, alheios.
Um texto do Deuteronómio é muitas vezes seguido pelos comentadores para esclarecer a posição entre os bens ou o espaço e produção, e aquilo que o trabalhador dele pode retirar para si. No fundo, espera-se que o empregado use, na medida das necessidades, dos bens que são como que, para esse fim, comuns, mas sem se apropriar deles para além do estrito uso ou consumo imediato e efectivamente necessário. Mas, vejamos o próprio trecho, eloquente na apresentação poética desses princípios (23, 25-26):
Quando entrares na vinha do teu próximo, poderás comer uvas até ficares saciado, mas não as levarás no cesto. Quando entrares na seara do teu próximo, poderás escolher espigas com a mão, mas não colherás à foice na seara do teu próximo.
Mas, esta postura de certa condescendência, não levaria a abusos? Decerto que sim, mas é de lembrar que dois dos últimos Mandamentos, o 8º e o 10º, remetem exactamente para o roubo e a cobiça aos bens do próximo – isto é, na mais sintética e, porventura, mais seguida legislação hebreia, tudo estava, à partida acautelado.
Noutro campo de interpretação, esta, à falta de melhor palavra, liberdade que é dada ao trabalhador, reside no facto de, em primeiro lugar, toda a terra ser, primeiramente, de Deus, mas sobretudo porque a condição de trabalhador é, para os judeus, inata à própria criação do Homem. O muitas vezes designado “Mandato Cultural” mostra-nos exactamente isso: desde o casal primordial de Adão e Eva que o trabalho está presente. Na leitura cristã, essa “queda” é uma punição que a teologia lançou na História da Humanidade mas, num sentido puramente de vivência social, o que esse episódio nos mostra é uma total dependência do Homem em relação ao trabalho:
Maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho (Gn 3, 17b)
Se tido como uma imagem da Humanidade, esta determinação primeva implica uma total e absoluta transversalidade do trabalho.
Ainda neste campo da obrigatoriedade do trabalho, nunca é por demais lembrar o facto de se ter criado um dia de descanso semanal: ter um dia de pausa, significava que nos restantes se trabalhava - de tal forma que era necessário descansar. Mais, basta ir ao quarto Mandamento para verificar essa linearidade de postura:
                       Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho (Ex 20, 9)
Isto é, e no limite da interpretação, mais que ter que trabalhar seis dias, não é por parar ao sétimo que alguma coisa fica por fazer...
E, na prática, a ética do trabalho resume-se a uma visão extremamente simples da criação de riqueza. Seguindo Eclesiastes (5, 8), "O proveito da terra é para todos", como fora dado no momento da queda de Adão e Eva.
Mas, se o trabalho é para todos, o mesmo Eclesiastes não se afadiga de afirmar que o rico, o patrão, tem mais problemas que o empregado. Numa significativa desresponsabilização do “proletariado”, afirma (5, 11-12):
Doce é o sono do trabalhador, quer tenha comido pouco ou muito; mas a abundância do rico não o deixa dormir descansado. Vi outra dolorosa miséria debaixo do Sol: a riqueza entesourada para desgraça do seu dono.
Se o Eclesiastes parece apontar o dedo ao trabalhador despreocupado, Jeremias abre toda uma importante linha de defesa dos direitos dos assalariados:
            Ai daquele que edifica a sua casa com injustiça, e os seus aposentos com iniquidade. Ai daquele que obriga o seu próximo a trabalhar sem paga, e lhe recusa o salário (22, 13)
Em Zacarias (8,10), a falta de pagamento de salário é mesmo uma das imagens do caos social e político.
Voltando ao Deuteronómo para encontrar uma síntese, esta integrando vários elementos, entre eles o medo da punição divina, mas também o mais profundo sentido humanitário, percebendo o quão importante, até psicologicamente falando, pode ser o acto de receber o vencimento merecido e necessário para a sobrevivência (24, 14-15):
Não explorarás o trabalhador pobre e necessitado, seja um dos teus irmãos, ou um dos estrangeiros que estão na tua terra, nas tuas cidades. Dá-lhe o seu salário no próprio dia, antes do por do sol porque ele é pobre e espera-o com ansiedade. Assim, ele não clamará contra ti ao Senhor, e não serás acusado desse pecado.


Terminando, hoje que se celebram os 60 anos sobre a Carta dos Direitos da Humanidade, interessa-nos olhar para um passado distante de dois milhares de anos, pelo menos, e perceber como muito do que hoje desejamos se começou a jogar ai nesse tempo já tão distante.
A dignidade humana nascia de um compromisso entre criaturas que se viam como criadas pelo mesmo Deus e para a mesma Casa.
Numa verdadeira ecologia social, o respeito pelos compromissos, o achar que tudo se regia por leis, o dar apoio ao outro porque esse outro poder vir a ser uma peço importante no todo social, eram formas de equilíbrio.
Mas muito mais, eram formas de equilíbrio nesse ecossistema que eram as cidades hebreias, mas eram ainda formas de equilíbrio que se viam como as únicas com Deus.


[1] Documentados desde, pelo menos, o famoso Código de Hammurabi (c. 1730 a.C.), os juros deveriam rasar valores altíssimos durante toda a Antiguidade. Por exemplo, o Código Justiniano (Corpus Iuri Civilis, de 531 d.C.), majorava a percentagem de lucro a 33% ao ano.

A construção de uma sociedade do medo e da acusação


Uma das grandes questões que se regularmente se colocam, remete-nos para o mundo do tudo ou nada: “O que mudou após o 11 de Setembro?”, perguntamos nós como se a data fosse um momento axial em torno da qual tudo gira.
Mas, olhando bem para o que mudou, vemos que pouco do que se esperava realmente aconteceu. Do lado dos “outros”, não vieram novos mega-atentados (a escala e a espectacularidade foi-se sempre reduzindo). Do lado “ocidental”, parece que nada aprendemos na forma de nos relacionarmos com esses tais “outros”. Veja-se o Afeganistão e o Iraque, para rapidamente se perceber que as lideranças das coligações pouco sabem sobre como se moverem nesses espaços humanos estranhos.
Mas sim, deu-se uma grande alteração. E essa alteração não nos remete apenas para os dados directamente relacionados com o 11 de Setembro e com a Al-Qaeda. É no campo construção da própria imagem que tudo se dá na Europa e nos EUA.
Essa grande alteração dá-se exactamente no momento em que ainda se digeria a saída da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim. O “ocidente”vira-se catapultado, e gostava dessa distinção, para o único modelo a sobreviver, a sociedade vencedora que seria imitada unanimemente; bastaria o tempo para que essa verdade se afirmasse incontestavelmente. A perfeição era óbvia com a queda dos regimes da última grande utopia, o socialismo soviético.
O dia 11 de Setembro de 2001 vem destruir de forma rude e violenta essa verdade que até ao minuto anterior era uma verdade absoluta. Não, afinal, a democracia ocidental não é assim tão desejada por todos… mais, essa repulsa merece os actos mais bárbaros no nosso próprio território. Mais que não estar imunes aos vírus, eles estavam exactamente onde se julgava ser o sucesso do modelo, a imitação: os estudantes estrangeiros aparentemente ocidentalizados poderiam ser o centro da conspiração…
O que nasce com os atentados não é, simplesmente, um clima de guerra, por mais estranha e diferente que ela seja, fora dos parâmetros clássicos. O que nasce aqui é um desgaste, uma erosão do ego de toda uma civilização. O resultado foi simples: de uma sociedade que se olhava como “o fim da História” seguindo Fukuyama, passámos a uma sociedade que se olha através de uma série de lentes de medo. Mais que procurar segurança, o inimigo pode ser qualquer um de nós.
Desde essa data, desde esse evento, que acentuámos os nossos desejos securizantes, as nossas fobias e os nossos medos enquanto civilização e sociedade. Não se trata apenas da segurança nos aeroportos, mas de toda uma forma de encarar o “outro”, seja ele um aparente muçulmano, ou o mais comum dos vizinhos do prédio. O medo tomou conta da nossa cabeça.
Aqui sim, neste campo, deixámos de ser a sociedade da confiança, para sermos a turba dos desconfiados. Remetidos para sistemas de vigilância, os principais alicerces da ideia de Democracia, foram sendo “limados”, adaptados e revistos. Todos somos possíveis acusados de tudo e de mais alguma coisa. No mínimo, hoje somos todos acusados de ter vivido acima das nossas posses.
Em dez anos, a Liberdade já nada tem a ver com o que era em 2001: somos vigiados constantemente e os nossos dados são recolhidos regularmente pelas mais variadas instituições. Até criámos formas de auto-regulação e de auto-censura, como se pode ver nas polémicas em torno das caricaturas de Maomé.
Sobre a Fraternidade, o seu estado está bem patente na dificuldade em a EU ajudar os países com problemas financeiros. Após dezenas de anos de Fundos de Coesão… hoje isso é uma miragem que parece vir de um conto utópico.
E a Igualdade? Nos poucos países do mundo onde se procurava alguma dessa igualdade nas formas gratuitas de certos bens essenciais e cuidados primários, hoje vemos a incapacidade de os manter e a inevitabilidade de os “aligeirar”.
Assim somos nós, dez anos depois. Todos somos possíveis delatores. Todos somos críticos acérrimos, mas quase sempre sem qualquer fundamento. Todos somos, no fundo, paranóicos, quer ao nível do indivíduo, quer ao nível das instituições dos Estados.
Liberdade, Fraternidade, Igualdade… De facto, a Revolução Francesa já lá vai há muitos anos…

Jornal Público,  13 de Setembro de 2011, p. 31.

As ferramentas da islamofobia


…não quero ficar com o peso da perda de muitas vidas na consciência… 

Quando no século XIII se terá escrito pela primeira vez em português a palavra «cristandade», estava a Europa Ocidental num dos mais fervorosos rebates anti-islâmicos. Num quadro de “reconquista-cristã” na Península Ibérica, e com a ênfase quase irracional das Cruzadas, a Europa que se via cada vez mais como cristã, fazia aderir à própria noção de espaço a ideia de religião. A Europa era, por definição, cristã. Assim o foi por muitos séculos, tendo-se vivido um longo período de acalmia à sombra do “paradigma” religioso vigente. Em Portugal, depois das matanças de judeus, de expulsões destes e de muçulmanos, depois de perseguidos os erasmistas e os luteranos, depois de três séculos de Inquisição, no Censos de 1900, menos de 5.000 pessoas se declaravam não católicos.
Hoje em dia o quadro é muito diferente, mas os recentes “atentados” / matanças de Oslo mostram-nos como esta noção de Cristandade ficou enraizada e como ela pode constituir campo privilegiado para que mentes deformadas encetem discursos irracionais e perigosos, construindo narrativas assassinas, tornando, mais uma vez, presentes no nosso quotidiano, aquilo a que desde há várias gerações não se assistia neste nosso “ocidente”: a violência tendo como leit motiv a religião.
Discursos como os de Raimond Panikkar ou  Lanza Del Vasto que, fortemente influenciados por Mahatma Gandhi, reformularam os princípios da não-violência, adoptados por este último, numa linguagem cristã (por exemplo: Lanza Del Vasto, Pèlerinage Aux Sources, Paris, 1943), imprimiram-nos um “novo” olhar sobre o outro, fazendo-nos olvidar o nosso passado religioso sangrento e tortuoso.
Contrariamente a estas linhas filosóficas, a Islamofobia tem crescido imenso na Europa: nas duas últimas décadas, nasceram movimentos, mais ou menos informais, que lançam discursos verdadeiramente incendiários em cidadãos menos capazes de digerir a informação que recebem e de a catalogar no lugar que merecem: lixo.
Sintomático do descontentamento crescente, dos desequilíbrios entre cultura e natureza, da tão falada crise de valores e, por fim, da crise económica, nada melhor do que encontrar um inimigo comum, um objectivo que une em torno de algo, nesta época em que vivemos, tão profícua em fragmentações. Uma suposta invasão islâmica surge como o discurso fácil em tempos de crises variadas e cada vez mais consolidadas.
Quem usa correntemente uma conta de e-mail já recebeu, de certeza, algum dos inúmeros produtos, slides, geralmente, com dados e supostos factos sobre o crescimento do Islão na Europa. São produtos de uma pobreza deprimente, com dados, regra geral, errados, deturpando a realidade, que chegam com uma eficácia demolidora a uma parte muito significativa da nossa população mais reticente à actual mobilidade migratória.
Ainda estamos muito longe de perceber exactamente como enveredou Anders Breivik pela “ideologia” que veio a materializar neste malfadado Julho de 2011. Possa ele considerar-se cristão, ou não; Devamos colar-lhe o rótulo de “fundamentalista”, ou não; O centro da sua reflexão estará, sem dúvida, numa primária islamofobia, exactamente a mesma que encontramos nesses perturbadores e-mails que circulam e nos inundam as caixas de correio ciclicamente.
Mas o mais desconcertante é a adesão com que muita supostamente bem informada gente adere a esses e-mails e os replica pela internet. Em tempos, não muito distantes, dei por mim a responder a quem me enviava essas mensagens. Reunia dados, fazia textos… mas desisti. Para que servia a minha argumentação se o meu “inimigo” era uma fobia, algo que não se combate com métodos racionais.
Certo dia, numa conferência organizada por um amigo, dei por mim frente a frente com alguém que dias antes me enviara uma mensagem dessas. O tema era mesmo o das fobias, dos medos que as religiões criam nos cidadãos. No final da minha “fala”, como se diz no Brasil, ele colocou-me uma questão: “Mas não devemos ter receio de que a Europa venha a ser islamizada?”.
A resposta que lhe dei foi longa. Sem nunca dizer que tinha sido dele a mensagem, contei o episódio que ele protagonizara comigo. Apenas me lembro do que lhe disse no fim: “O que acha que civilizacionalmente avança com o reenvio de e-mails como este que lhe descrevi? Os dados são falsos, o incitamento a uma reacção dura é claro… grande parte dos muçulmanos hoje existentes na Europa são cidadãos europeus como nós. Que lhes fazemos se vingarem as ideias defendidas nesses e-mails? Não são estrangeiros, não os podemos deportar… colocamo-los em campos de concentração? Não sei em que pode desaguar este crescente fluxo anti islâmico. Apenas sei que eu não quero ficar com o peso da perda de muitas vidas na consciência. Quem faz a replicação desses e-mails, mais tarde, ou mais cedo, recolherá esse peso.”

Jornal Público29 de Julho de 2011, p. 30.

... calor ...


Quem me conhece não achará muito estranho...
Em dias como os que correm, sinto o que é ser um pedaço de metal. Sim, um pedaço que sente aproximar-se o momento da fundição, seja ela a primeira ou já uma segunda em virtude da reutilização.Não sei como será por tarde de um naco de ferro, ou mesmo de um tacho de alumínio. Mas o que sei, pela minha prática de tempos quentes, é que o calor se nos entranha de uma forma que chega, mesmo, a dissipar a nossa natureza. Ao contrário do metal, a nós apenas não nos leva a uma plena fluidificação. Mas andamos lá perto.As nossas formas parece que se desagregam. O nosso corpo deixa de reagir. Os líquidos passam a dominar a nossa superfície. O calor é a mãe de todas as deformações a que assistimos. Diz a Física que tudo se passa no campo da energia e da movimentação dos átomos.Pois digo-vos eu que nada disso acontece. Tudo tem a ver com uma dimensão esquisitóide em que o calor suscita em nós o desejo de esgotamento. Se aos átomos é dada maior energia, implicando mais movimento e mais vigor, pois a nós, humanos de átomos também feitos, tudo ocorre da forma inversa: o movimento é tudo o que perdemos.À noite, com uma aragem, uma brisa, a vida regressa ao corpo. Começo a controlar melhor os movimentos. E mesmo o cérebro parece largar, finalmente, a hibernação em que se lançara devido à temperatuda elevada.Nunca mais chega o Inverno....