domingo, 12 de maio de 2013

Mikhail Petrovich Artzybashev, O judeu (Estrofes & Versos, 2010.)


Mikhail Petrovich Artzybashev, O judeu, Estrofes & Versos, 2010.

De forma inesperada, dei por mim na Ler Devagar a folhear um livro para mim completamente desconhecido. O autor, nascido na Ucrânia, vivera na Rússia e o seu período de vida decorrera entre 1878 e 1927.
O Judeu, uma pequena obra, de pouco mais de vinte pequenas páginas, trata uma situação que deveria estar muito nas mentes desse tempo: a guerra, a devastadora belicosidade entre os Estados europeus, que lançava milhões de anónimos soldados para situações de esgotamento físico, psicológico e moral, levando-os para níveis de sub-humanidade para nós hoje totalmente desconhecidos, onde as trincheiras eram verdadeiras valas comuns, e onde o gás mostarda fazia a decomposição da carne sem ter em conta qualquer limite acordado entre nações para uma suposta ética de guerra.
Este conto trata de um grupo de militares que, após dias de dolorosos combates em quadro de total abandono no terreno, se perde. Procurando um rumo, uma direcção para caminhar, deparam-se com semelhante grupo inimigo. Frente a frente, a morte de quase todos eles era o inevitável. A escassos metros de distância, nada os poderia salvar.
O inesperado surge, dando-nos uma visão romântica, claro, mas surpreendente do que as identidades pode conseguir. Estamos na Europa Oriental, depois de um século onde o antissemitismo tinha sido gerado em grandes preconceitos. Estamos, também, num quadro onde os judeus são vistos acima, ou além das nações. Esse bem comum, como que os leva para um denominador que os une: a humanidade, aliás, palavra várias vezes usada neste texto.
Deixo aqui o final desse conto, tendo alterado apenas uma ou outra gralha. De resto, tudo foi deixado como se encontra na edição indicada. Leiam, merece a pena, sob o ponto de vista de um sentido de Humanidade:

Exactamente no instante em que a tensão atingiu o seu ponto mais alto e o pesadelo se preparava para dar lugar a um sentimento implacável, Hershel Mak, incapaz de controlar os seus nervos esfrangalhados durante mais tempo, começou a rezar na língua dos seus antepassados. Shma Isroel! Shma Isroel! Os seus camaradas não o entenderam e olharam-no aterrorizados, como quem olha para um louco, mas do outro lado uma voz assustada e dolente respondeu-lhe em judaico:
- Um judeu!... Um judeu!
O coração de Hershel Mak caiu-lhe aos pés. A alegria louca que se apoderou dele é indescritível. Foi uma alegria humana sincera que o encheu até à borda, quando do lugar de onde esperava que viesse apenas a morte e ódio lhe chegaram palavras humanas e familiares. Esquecido do perigo de morte, caiu de joelhos, ergueu os braços e gritou, como se estivesse a responder a uma voz em pleno deserto.
- Eu!... Eu!...
Ouviu-se um tiro; mas apenas o boné de Mak tombou e caiu na poça de lama. Do outro lado do rio, uma cabeça típica, com as orelhas a aparecer por debaixo do capacete luzidio, fitou-o nos olhos.
- Não atires, não atires! – gritou Hershel Mak em russo, alemão e judaico tudo ao mesmo tempo, agitando freneticamente as mãos. E o outro judeu, envolto numa longa capa cinzenta, também gritava qualquer coisa aos seus colegas soldados. Agora, em vez de apenas um, eram cerca de dez os pares de olhos que estavam fixos em Hershel Mak, espantados e subitamente alegres. Uma esperança vaga e indefinida reflectia-se nesses olhares humanos assustados, que de repente se tornaram vulgares. Em seguida, Hershel Mak e o judeu de capa cinzento-clara avançaram pela clareira e, patinhando na água, correram, confiantes, um para o outro.
Pararam entre as duas fileiras de canos de espingardas ainda hostis e abraçaram-se, num acesso exagerado de felicidade.
- És judeu? – perguntou o soldado cinzento. Continuavam a olhar um para o outro, como dois velhos amigos que se encontram onde menos esperavam que isso acontecesse.
Ao entardecer, depois de os soldados recolherem os respectivos mortos e feridos, cada um seguiu o seu caminho ao longo da ravina, agora azulada com a neblina do fim do dia. Os da rectaguarda estavam sempre a virar-se para o inimigo, que os observava desconfiado, e a agarrar nervosamente com as mãos os canos das suas armas.
Só Hershel Mak e o judeu de capa cinzento-clara caminhavam calmamente. Hersehel tagarelava como um macaco, metendo conversa com um soldado, depois com outro. Falava sobre a alegria que o invadira, sobre a grande missão do judaísmo. Mas ninguém o escutava e um dos soldados até disse, bem disposto:
- Vai para o diabo, porco judeu.


O Mágico, de Somerset Maugham (original de 1908)



Há livros que lemos no momento exacto em que o deveríamos fazer. Aconteceu-me tal fenómeno há pouco. Somerset Maugham estava na minha lista há vários anos. Nunca mais chegava a oportunidade. Mas chegou o acaso.
Comprei em segunda mão o seu Mágico. Não nego que o texto da contracapa que relacionava o personagem Oliver Haddo com Crowley foi motivante para a leitura, e crucial para a compra. E assim nasceu um dos livros deste meu tempo.
Tanto das conversas com o José Carlos, o Anes, a Zé e o Pedro Cunha me vieram constantemente à cabeça. Muito há para dizer sobre este livro, e muito foi já escrito. Mas o essencial numa leitura pessoal é exactamente o que dessa dimensão de pessoal cada um retira. E para mim, esta leitura foi ao encontro de muito do que vivo interiormente hoje em dia.
São cinco as personagens que gerem a trama do texto. São quatro as que gerem, em quatro pontos de vista totalmente diferentes, a relação com o já referido Oliver Haddo, o mágico. Susie, uma parisiense apaixonada por Arte, mas, sobretudo, por Artur; Artur, um médico totalmente racional, com o maior dos cepticismos em relação a tudo o que seja sobrenatural ou místico, apaixonado, não por Susie, mas por Margaret; Margaret, uma jovem tutelada por Artur, a passar uma temporada em Paris, com Susie, e com casamento marcado com Artur; e Porhoët, um outro médico, que viveu no Egipto, com profundos conhecimentos de ocultismo.
E, claro está, Haddo, um estranho homem que domina as artes mais assustadoras, mas, ao mesmo tempo, mais deslumbrantes e cativantes. Um certo lado negro, ou, se quisermos, cinzento, do ocultismo, ganha um lugar cada vez mais intenso no texto, passando de um lugar perfeitamente acessório no início do livro, para se tornar assustadoramente – e, acima de tudo, incontornável – a partir de meio da narrativa.
E torna-se incontornável porque, não apenas Haddo parece não deixar de surgir em sobressalto da pena de Maugham, mas porque vai dominando as mentes das duas jovens, especialmente de Margaret, a jovem noiva de Arthur que abandona o casamento prometido para fugir com Haddo.
E o centro do livro é isso mesmo: o controle das personagens que, de uma repulsa a Haddo, seguem para uma impossível proximidade que implica a total anulação aos desígnios de alguém que parece dominar as vontades e o próprio destino. Pelas mãos, nãos as físicas, do mágico, tudo acontece como ele deseja. Mesmo o mais improvável.
Susie faz tudo por livre vontade, desde a sua fuga ao casamente até ao seu arrastar até uma morte quase ritual, mas nunca o queria. Fá-lo por não conseguir fugir a uma chamamento que a domina, ao qual não consegue fugir, mesmo quando o verbaliza e o repudia.
E Arthur? Essa é a maior trama de todo o texto: uma verdadeira metamorfose das mais inesperadas que um incauto leitor pode contemplar. O apaixonado médico, que tudo vê através de uns óculos de racionalidade a toda a prova é, afinal, alguém que descobre ter capacidades quase ilimitadas para o ocultismo.
De uma fase longa de busca da sua fugida amada, em que usa sempre do cepticismo, terminamos, nas últimas páginas, num intenso e indescritível ritual de invocação de uma Margaret já morta que continua a ser a chave da resolução do crime de que foi alvo.
A grande tensão é, afinal, entre uma racionalidade limite, que nega um lugar, sequer, ao religioso, ao sobrenatural, ao místico e ao oculto, e a adesão a esse mesmo universo, a essas outras dimensões de o compreender e de o viver.
O fim?.., esse, apenas deve ser lido.


terça-feira, 7 de maio de 2013

Da necessidade de um pós-Ecumenismo


Após o 11 de Setembro, o mundo acordou para a dramática realidade de uma nova forma de fazer terrorismo. Se até então o terror, esta forma de luta ilegal e fugindo ao controle dos grupos de nações e às convenções internacionais, tinha tido como alvo maioritário pequenos grupos humanos, agora a massificação era a palavra de ordem. Massificação dada pelo resultado dos ataques, mas também pela magna cobertura dos media.
O mundo das religiões deixou de ser estrita preocupação dos religiosos. Todos os dias a religião passou a ser tema presente nos noticiários. Todos os dias passamos a ver imagens de pessoas a morrer devido a questões apresentadas como religiosas. Como nas torres de Nova Iorque, nas discotecas em Bali, nos comboios de Madrid ou no Metro de Londres, percebeu-se que a religião fanática, extremada e irracional podia chegar a qualquer um de nós.
Durante décadas, a palavra de ordem fora a «tolerância», ao abrigo das ideias de ecumenismo. A verdade é que o paradigma do ecumenismo, em que a palavra «tolerar» significa exactamente o sentido da permissão excepcional, resumiu-se a simples manifestações em que as confissões, através de alguns líderes, mostraram conseguir estar juntas no mesmo local. O que se alterou a nível dos crentes e das suas práticas de ver os membros das outras religiões?
De facto, a palavra «tolerar», tão usada nas relações entre religiões, merece algum cuidado. Qualquer dicionário da língua portuguesa nos dá o seu campo de significado: “atitude de admitir a outrem uma maneira de pensar ou agir diferente da adoptada por si mesmo; acto de não exigir ou interditar, mesmo podendo fazê-lo; permissão; paciência; condescendência; indulgência”. Nada menos ... ecuménico, na medida em que o espaço dado para os outros é sempre referenciado em relação a si.
É que o Ecumenismo, tal como o temos visto ser realizado, choca com a visão que a esmagadora maioria dos seus crentes tem da sua própria religião: a Verdade que é superior às restantes e que deve ser levada (muitas vezes imposta) aos outros. E esta é uma contradição insuperável: como pode uma religião dar um lugar ao “outro” se tem como postulado vir a ocupar o seu lugar?
Donde, por esta entre outras razões, o Ecumenismo em nada levou a um desaparecimento dos grandes conflitos religiosos: ele apenas acontece onde já existem condições para que aconteça, onde os líderes religiosos já estão predispostos ao diálogo e ao convívio.
Mas mais, dia-a-dia, todos tomámos consciência de que o universo das religiões afecta e interfere com o normal mundo de todos nós, sejamos religiosos ou não: as religiões não são um problema nem um monopólio dos religiosos. A religião, fazendo parte de uma das faces mais expressivas da actividade humana, a todos diz respeito e coma  vida de todos pode interferir.
Ora, é neste sentido, no âmbito deste imperativo que se apresenta à nossa sociedade, que é necessário ultrapassar o bem intencionado e de extrema importância diálogo inter-religioso. O ecumenismo, como o vimos crescer em importantes movimentos nos anos oitenta e noventa do século passado, fechou-se no seio das religiões e, dentro delas, em grupos muito específicos. É necessário ultrapassar o universo das religiões e chegar ao da cidadania (onde se encontram religiosos e não religiosos).
Ao fazer esta rotação que é de «convívio» para «conhecimento», e de «crentes» para «cidadãos», superamos a tremenda falha que existe na noção de tolerar. Entre cidadãos, religiosos ou não, não há lugares de maior direito; todos são legalmente iguais e com os mesmos direitos e obrigações.
Esta alteração de enfoque e de forma de tratamento do fenómeno religioso actual cimenta-se no conhecimento que as diversas partes devem ter umas das outras. Membros de uma sociedade global e diversa, todos os cidadãos devem ter as ferramentas mínimas para efectuar a sua cidadania plena e consciente. Estrangeiros ou nacionais, cristãos católicos, ortodoxos ou protestantes, muçulmanos sunitas, xiitas ou ismaelitas, judeus, teosóficos, bahá’ís, hindus, budistas, xintuístas, confucionistas, taoistas, animistas, e muitos outros, todos se integram numa sociedade que é a portuguesa e, acima de tudo, todos se devem identificar num corpo que participa das suas decisões, que é constituído por cidadãos conscientes, exigentes e críticos.
Este desafio, o do conhecimento das religiões, façam elas proselitismo no campo alheio, ou abdiquem dessa sua vocação, aplica-se a todos os religiosos e não-religiosos. No fundo, um pós-ecumenismo que não anula, antes pelo contrário, o ecumenismo, e que apenas o tenta trazer para um campo de funcionalidade e abrangência mais significativo.



Jornal Público, 6 de Janeiro de 2007, p. 8.

Obama e o terror religioso


“A árvore da liberdade tem de ser renovada, de tempos a tempos, com sangue de tiranos e patriotas” 
T. Jefferson

Para muitos, estamos a viver tempos de apocalipse. De resto, o regresso a essas visões do mundo é recorrente e enquadra alguns aspectos comuns. Um deles, convenhamos, é o de nascerem nos EUA. Terra onde nasceram grande parte dos fundamentalismos cristãos contemporâneos, o American Dream está constantemente entrincheirado entre visões que, mais que o negarem, lhe retiram o oxigénio tão necessário à Liberdade que canta.
Hoje, no Verão de 2009, vivemos mais um desses momentos. A literatura que podemos encontrar na internet sobre o presidente Obama enquanto Anti-cristo, demónio, ou um destruidor dos valores messiânicos da América, é num volume assustador e numa variedade que nos deixa perplexos.
Obama é ameaçado de morte por manifestantes, por intervenientes em programas de televisão, etc, etc, etc. O clima de tensão entre os meios religiosos mais extremistas vai-se alimentando numa espiral que ninguém pode saber onde vai terminar.
A frase de Jefferson, que Timothy McVeigh pintara na t-shirt que vestia quando foi executado pela autoria dos atentados de Oklahoma, vai-se repetindo em tom de ameaça: “A árvore da liberdade tem de ser renovada, de tempos a tempos, com sangue de tiranos e patriotas”.
A mistura é explosiva e reúne a cor e o local de nascimento de Obama (será mesmo americano?), a fobia homossexual e o trauma comunista, tudo muito bem condimentado com uma visão conspiracionista que, como se sabe, nunca pode ser efectivamente contrariada porque a sua natureza reside exactamente nisso, é obscura e escondida.
É fácil encontrar sites de grupos religiosos cristãos fundamentalistas onde se diz que o presidente é racista e que quer lançar o país em Estado de Sítio para o poder manobrar e, afirmam, destruir.
É uma visão de fim dos tempos de uma nação que viu nascer muitos dos grupos religiosos que hoje em dia dizem que o fim do mundo está próximo, numa tradição apocalíptica que vem desde os movimentos adventistas de meados do século XIX.
Mas mais que perceber este clima de terror, que poderá, no limite, culminar com uma tentativa de assassínio presidencial, o que nos deve interessar neste momento é um dado tantas vezes escamoteado na política europeia: algumas ideias religiosas podem dirigir o mundo.
Não tenho medo das ideias religiosas, mas sim dos seus fundamentalismos que não olham a preço para destruir o mundo, criando o “seu” mundo. Porque, sim, não tenhamos dúvidas, estes fundamentalistas americanos acusam Obama de querer destruir os EUA, mas eles é que os irão destruir.

Massificação e incultura religiosa


Nas últimas dezenas de anos deram-se importantes alterações no mundo da vivência da religião. Entre antropólogos, sociólogos e filósofos das religiões, nasceram conceitos como os de “erosão das identidades religiosas”, “religiosidades difusas”, ou mesmo, expressões quase impossíveis de traduzir para português como a noção de – pela falta de melhor - “turista religioso”.
Estas ideias aplicam-se a todo o renascimento religioso nas décadas de setenta do século XX, um ressurgimento que se manifestou em formas e atitudes totalmente novas: fuga aos movimentos / igrejas convencionais ou tradicionais; fácil deambulação entre credos e filiações; criação de uma atitude de pesquisa individual.
Ora, é neste contexto de afirmação da possibilidade e da liberdade de cada um fazer o seu percurso, preferencialmente atípico para auto-demonstração da singularidade, que se devem entender os fenómenos de massificação de obras sobre o fenómeno religioso. E referimo-nos aos livros de Paulo Coelho, de Dan Brown, ao filme de Gibson, a toda uma miríade de categorizações biblioteconómicas com que nos cruzamos nas estantes das nossa livrarias, que vão da espiritualidade ao esoterismo, passando pelo que no Brasil se chama de “auto ajuda”.
Resultante de um movimento totalmente livre de pesquisa religiosa, nasceu um imenso campo, um enorme nicho de mercado, onde cabe tudo o que afirme ser contra os ditames tradicionais. É essa a pedra de toque de quase todos estes fenómenos: afirmar que vão contra o instituído, criando, assim, a ilusão a muitos dos seus leitores de participação nesse desmontar de supostas fraudes milenares ou de viver experiências espirituais até então quase inacessíveis.
Talvez se possa, mesmo, alinhar todo este universo de produção bibliográfica em dois grandes campos. Por um lado, os livros que transmitem supostas vivências religiosas, espirituais e místicas até então vedadas; Por outro lado, as obras que, voyeristicamente, levam os leitores a viver um desmontar das grandes estruturas religiosas (nada mais voyerista neste universo que entrever nas páginas de um livro a possibilidade do acto sexual entre Jesus e Maria Madalena, por exemplo).
Em ambos os casos, o essencial é que este retorno ao sagrado, resultante de uma pesquisa individual não mediada por entidade alguma, levou a um boom editorial e ao facto de a religião estar na moda – os acontecimentos pós 11 de Setembro vieram consolidar este fenómeno.
Massificaram-se as leituras sobre religião. Os best sellers estão ai, mês após mês. Mas a cultura religiosa da população é cada vez mais baixa. Alguns museus, por exemplo, estão a adoptar descrições e explicações temáticas nas legendas de pintura sacra, respondendo à incapacidade dos visitantes compreenderem as situações retractadas.
E é cada vez mais baixa a cultura referente ao mundo religioso porque estes livros em nada a constróem, antes pelo contrário. Mas também porque não existem instrumentos que forneçam à generalidade da população informação credível e atractiva que venham colmatar o fim da massificação das catequeses.
Até há duas ou três gerações, quase toda a população tinha uma cultura religiosa mínima que advinha da obrigatoriedade da catequese no sistema de ensino. Era uma cultura facciosa, pobre, não especulativa. Mas neste momento ela simplesmente não existe.
Não é que se possa, em condição alguma, defender o regresso a esse sistema, mas urge tomar consciência de que no mundo das religiões se criam ideias feitas com a maior das facilidades, julgando que se está perante grandes e inquestionáveis verdades – porque essa é uma das vocações das religiões, agora transportada para a função da literatura: a de criar discursos de verdade.
Quantos de nós sabemos a que correspondem alguns dos feriados religiosos de que gozamos durante o ano? Esta é a faceta anedótica. Mas existem outras. O actual mundo de fundamentalismos religiosos é em grande parte alimentado por esta massificação da incultura religiosa.
Nada haveria a apontar a livros como os antes referidos, se eles não levassem o leitor, ou melhor, se o leitor não fizesse com o livro o percurso de criação de uma visão do mundo. E estas visões romanceadas, mas tidas como verdade por muitos leitores, são essencialmente fundamentalistas porque apresentam o mundo das religiões em tons altamente contrastados; uns são bons, outros são maus.
Nesta mecânica demonizante de parte da realidade, a simplicidade dá lugar ao simplismo. Longe de se estar a evoluir para um mundo com uma compreensão crítica sobre as religiões, cimentada na reflexão e no rigor, estamos a caminhar para uma crescente postura de anulação da tal individualidade que esteve na base deste surto bibliográfico.
Dominadoras, estas narrativas empolgantes que levam o leitor a vivenciar o que nunca tinham imaginado possível, castram o lugar do leitor no processo da leitura. Tudo é tão simples, tão óbvio, tão elementar, que o leitor simplesmente lê, acredita e reproduz.

 Jornal Público8 de Junho de 2006, p. 8.

... Jesus Christ, a super star!


Depois do alarido em torno do Evangelho de Judas, publicado em Portugal no início do verão passado (em duas edições, uma pela Ésquilo com tradução do original por Antonio Piñero e Sofía Torallas-Tovar), os media retomam a temática do Jesus histórico, lançando para os noticiários e as primeiras páginas dos jornais uma situação que surge como totalmente nova e provida do dramatismo típico dos assuntos que tudo colocam em causa. Contudo, a questão é bem mais complexa e merece alguns cuidados no seu equacionamento.
Em primeiro lugar, há que perceber que o Ocidente cristão desde há muito se habituou à ideia de que Jesus morrera e, porque ressuscitara e subira ao céu era, de facto, o Salvador. Esta ideia é tão profundamente enraizada que, muitas vezes, se refere Cristo, o epíteto, e não Jesus, o nome. Mesmo os não crentes comungam, muitas vezes, desta visão historicista da ideia de Salvação.
Em consequência deste aspecto quase civilizacional, foi muito tarde que se escreveram os primeiros arremedos de biografias de Jesus, textos que tentavam lançar luz sobre o homem de nome Jesus que, por razões várias, uma parte da humanidade tomara por Deus, fosse-o ou não. A estranheza neste novo olhar sobre Jesus, com este novos olhos não confessionais, era tanta que Renan, autor de La Vie de Jésus (Paris: Michel Levy Freres, 1863), perderia por esse motivo o seu lugar no Collège de France. De facto, o assunto muito coloca aparentemente em causa.
A questão é tão central na nossa própria formulação civilizacional, que não será por acaso que é exactamente neste momento que Bento XVI se prepara para lançar um livro sobre esta temática do Jesus sob o ponto de vista histórico.
Mas nem sempre foi assim: nem sempre esta religião teve como central a ideia de um salvador que ressuscita e, consequentemente, não existe (Não pode mesmo existir, ou não tivera subido aos céus) enquanto defunto.
Ou seja, interessa verificar que esta religião não nasceu como agora se nos apresenta. O nome «cristãos», os que seguem Cristo, nasceu em Antioquia já na época de Paulo - o principal divulgador do Cristianismo que, contudo, não conheceu Jesus. Como grupo autónomo do judaísmo, esta nova religião teve origem no espaço grego ou, pelo menos, judaico em diáspora, falante de grego e já não de hebraico. A ideia messiânica que está na base do nome da religião, kristos, a palavra que servirá como epíteto a Jesus, grafando-se «Jesus Cristo», é grega e não hebraica. Não é por acaso que a religião passou para o futuro com a designação de «Cristianismo» e não de «Jesuísmo» ou «Messianismo».
E isto não quer dizer que ao hebraismo fosse estranha a ideia de ressurreição como evidência da ideia de salvação. Ela era comum, quer a judeus, quer a gregos. Mas o caminho da ideia de salvação não se fazia apenas na dependência da ressurreição. Outras vias surgem significativamente claras em alguns textos não canónicos: os Evangelhos de Tomé e de Judas.
Nesses dois textos, verificamos que, em torno da ideia de Jesus, não existe a necessidade da morte e ressurreição. Aqui constatamos que, para algumas das comunidades primitivas de seguidores de Jesus, a ressurreição não era tida como necessária para se constituir um corpo de crença com os seus seguidores. A morte e ressurreição, para alguns crentes, não era central e, talvez, nem sequer a imaginassem.
Naturalmente, nunca poderemos saber qual a representabilidade relativa desta postura teológica. Supomos que, tendo em conta que a norma que vingou veio a ser a visão fundamentada no Cristo, aquele que ressuscitou, estes grupos fossem minoritários. Mas a verdade é que existiam e, em especial, não era por não acreditarem na ressurreição que deixavam de ver em Jesus o Filho de Deus... caminhos estranhos os da História
Enfim, neste modelo, é totalmente natural imaginar para a figura de Jesus um quadro familiar como, aliás, algumas tradições nos legaram. A ideia de que teria irmãos, assim como a de que teria vivido com Madalena, não é apenas criada por Dan Brown....
Ora, a questão hoje continua a ser complexa e, acima de tudo, incómoda. A eventual descoberta de um túmulo com sarcófagos e ossadas de um suposto Jesus e seus familiares aparece (e assim é apresentada) como a prova de uma grande mentira. Procuram-se testemunhos, leituras, opiniões... tudo é conduzido no sentido de procurar uma ideia de farsa por detrás da actual maior religião do planeta.
Os cristãos da Idade Média, que acreditavam nas lendas da vinda de Maria Madalena para o Sul de França, não deixaram de acreditar em Jesus pelo facto dele lhes ser apresentado como um homem que, como quase todos os outros, procriou. Os gnósticos das comunidades de finais do século I, que fizeram o Evangelho de Judas, não eram menos crentes em Jesus que os que seguiam os textos de Lucas, Marcos, Mateus e João que no século seguinte foram declarados canónicos.
Será que os cristianismos actuais, quer o católico, quer o evangélico (este, muitas vezes profundamente fundamentalista e quase nada crítico em relação à literalidade dos textos), conseguirão não se sentir abalados com estas descobertas, sejam elas verdadeiras ou não?

 Jornal Público22 de Abril de 2007, p. 47.

Trocamos competências relacionais por crédito internacional


Todas as sociedades são compostas por elementos em equilíbrio. Mais ou menos estáveis, esses equilíbrios funcionam como ecossistemas em que cada parte tem um lugar e uma função mais ou menos determinada. Com um lastro de identidades e com uma parcela regrada de liberdade, esses ecossistemas em que os humanos se gerem conseguem criar algum espaço para a evolução.
De facto, esse espaço de liberdade e de criatividade é, normalmente, definido em torno de objectivos. No caso das migrações, esses objectivos podem ser do foro profissional ou criados por motivos de sentimento de culpa e de espoliação. Escassa é a parte de uma colectividade humana que deseja, em si mesma, a miscigenação. Essa mistura, a multiculturalidade, aceita-se, regra geral, por moda, porque tal é politicamente correcto, ou porque ela é imposta por uma norma superior.
Apenas o passar dos anos consolida a relação e destrói a estranheza do confronto com o outro. Apenas políticas sólidas de integração conseguem ir contra essa reacção quase doentia que é a repulsa ao que é diferente.
Em Portugal, graças a dinâmicas de diversa ordem, em muito, devido a correctas políticas de integração, os imigrantes são geralmente bem aceites e não encontramos em território nacional focos de discriminação negativa. Antes pelo contrário, há hoje a noção exacta da parcela do PIB que é criado devido a essa gente que buscou em terras lusas melhores oportunidades.
A restante Europa, se bem que com orçamentos bem mais consolidados, não pode apresentar os resultados positivos de que nos devemos orgulhar. Quer a França, quer a Alemanha, seguindo a Suíça da famosa banca, parecem não ter conseguido fazer o seu “trabalho de casa” no que respeita à integração dos imigrantes.
Os caminhos que se parecem começar a trilhar são, não de complexidade alguma, mas da mais simples linearidade: onde iremos com as políticas que materializem as afirmações como as de Merkel, no passado dia 16?
Sim, a multiculturalidade alemã parece estar de muito má saúde. Mas, todo o discurso da Chanceler incendeia e dá foro de legitimidade às mais racistas posturas.  A Europa, começando pelas suas duas cabeças, parece não ter compreendido o quão necessita de imigrantes. Num quadro de quebra populacional, ou nos conformamos com o facto de muitas tarefas ficarem por realizar, de muitas empresas fecharem por falta de mão-de-obra, ou pegamos no problema e fazemos (mais vale tarde, que nunca) políticas que os integrem.
Talvez fosse interessante olhar para este endividado país e, por uma vez, imitar o que por cá se fez. Quem sabe se podemos trocar esse know how por umas décimas nos juros da dívida…

Jornal Público, 27 de Outubro de 2010, p. 37.