sábado, 23 de novembro de 2013

Anti (semitismo - judaísmo - israelismo – sionismo): algumas diferenças

Cada vez mais urge olhar para as palavras que usamos com um cuidado redobrado, fugindo à leveza da fugacidade das realidades passageiras.
De facto, no actual mundo do fast food intelectual e cultural, assistimos constantemente ao abusivo uso de determinados conceitos, de vocábulos que nasceram com definição clara do seu sentido mas que, pelo seu uso muitas vezes irresponsável, o perderam por completo, lançando um caos pantanoso onde tudo pode ser dito.
Não se trata de um purismo linguístico, mas sim de um esforço que é necessário fazer para afastar muitos mal entendidos e muitos juízos de valor.
E é importante tratar as realidades com os nomes que, de facto, se lhes aplicam, porque os nomes, as palavras, querem dizer alguma coisa, criam nuances de sentido, subtilezas de pensamento. A generalização de certas expressões que deixam de ter um sentido claro é uma das mais profundas provas de iliteracia.
O caso dos quatro vocábulos usados em título é significativamente importante porque nos obriga a um exercício de pensamento em que se separam fenómenos diferentes. Sem se compreenderem, nas suas especificidades, esses fenómenos, podemos estar a lançar os conflitos para campos ainda mais dramáticos, criando assim uma nova conflituosidade.
Esta conflituosidade criada nas opiniões mediante o uso de certas expressões, pode levar a reacções extremadas por parte de grupos islâmicos e judaicos, dificultando o diálogo e lançando ainda mais discórdia: o uso errado de certas palavras leva-nos para um horizonte de criação de uma guerra virtual em torno de judeus, islâmicos e “ocidentais”.
Historicamente, o «anti-judaismo» nasceu primeiro. Baseado na ideia de que os judeus mataram Jesus, o Cristo, o Deus Vivo, criou uma mácula que se estendeu por dois milénios. Culpados do deicídio, os judeus foram perseguidos por praticarem uma religião que conduziu a esse crime máximo, constantemente considerados um dos males do mundo.
«anti-semitismo» difere da noção anterior porque perdeu a carga religiosa e se abriu ao horizonte cultural mais largo do mundo semita. Um anti-semita não persegue um judeu porque ele pertence a uma religião, a um grupo humano, que optou por matar Jesus.
O anti-semitismo existe porque vê nos judeus os descendentes de uma raça inferior, os semitas. Ora, duas considerações há a fazer: 1) este fenómeno está plenamente enquadrado numa Europa que não integrou as comunidades judias, e que via nelas algo de exterior a si mesmas (os semitas não eram europeus, eram asiáticos); 2) esta palavra teve maior expressão aplicada a judeus, mas designava genericamente todas as populações com origem no Médio Oriente, incluindo árabes e islâmicos.
Desta forma, o que se passa em Israel, na Palestina e no Líbano nunca pode ser designado como anti-semitismo: ambos, palestinianos e israelitas, são semitas.
Donde, é a noção de «anti-israelismo» que deve ser lançada em campo em detrimento da anterior. E este campo já pouco tem a ver com a religião, já pouco tem a ver com a visão de raças inferiores, em tudo tem a ver com uma delimitação de um estado, em tudo tem a ver com a definição das fronteiras e com as resoluções da ONU que obrigavam Israel a confinar-se a uma determinada linha fronteiriça.
Ser anti-israelita não implica uma posição antisemita. Um dos «anti» é de natureza “rácica”, o outro, é de natureza política.
Mas, obviamente, nada é linear. Transversalmente, há ainda a ideia de «anti-sionismo», conceito de mais difícil definição. O moderno sionismo nasce no século XIX e tem como objectivo o restabelecimento de uma pátria judaica no espaço do antigo Israel. Muito do anti-semitismo do século XIX nasce por oposição às linhas de poder de grandes famílias judias que fomentaram esses discurso de regresso à Palestina.
Para muitos, esse regresso implicava um domínio completo e total da região, e não apenas de um território mais pequeno. Pretendia-se, miticamente, alcançar os vastos domínios de David e de Salomão, recriando uma certa ideia de império, de domínio muito acima do nacional.
Complexificando ainda mais um pouco, o facto de o Estado de Israel ser um Estado Judaico, e de os judeus pelo mundo fora se sentirem solidários com essa nação (muitas vezes com dupla nacionalidade simplesmente por serem judeus), provoca o esbatimento dos conceitos anteriores. Por analogia, as reacções às comunidades judias fora de Israel são como que um ataque a Israel na medida em que há uma relação próxima entre essas duas realidades.
Muito se ganhava se as palavras fossem usadas correctamente. Muito do que de conflito latente se tem criado na Europa poderia ter sido talvez evitado, ou amenizado, se quem escreve ou fala sobre estas questões não falasse, por exemplo, constantemente em anti-semitismo, relançando um fantasma que, agora, quase não existe. Se continuarmos a falar tanto dele e da forma como o temos feito, talvez o ressuscitemos ...
Texto publicado no jornal diário Público, a 13 de Agosto de 2006.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

União Europeia / Turquia: o regresso da noção de cristandade?

Queiramos ou não, gostemos ou não, todas as nações apresentam na sua estrutura identitária dados vindos do mundo religioso. Portugal é um país de base cultural católica. Sejamos, de facto, católicos, ou então evangélicos, protestantes, budistas, judeus, ateus ou laicos, etc, não nos podemos esquecer que a nossa cultura nasceu e se desenvolver num contexto que privilegiou secularmente um credo; só em 1974 o catolicismo deixou de ter lugar consignado na Constituição; só em 2001 foi votada uma Lei de Liberdade Religiosa – é significativo.
Somos inconscientemente herdeiros de um passado irrevogável, e através dele nos apresentamos profundamente marcados na nossa forma de estar e de viver o mundo e os seus problemas.
Não está certo nem está errado: é um facto histórico com o qual temos de conviver e que devemos ter presente sempre que pensamos em cultura em Portugal. Dependente de Roma e do catolicismo, ou afirmando-se a ela irreverente e tomando formas de recusa, toda a nossa cultura não passa ao lado desse realidade: a base católica do país.
Toda a Europa comunga da mesma noção identitária, mais ou menos enraizada nas suas gentes e nos seus hábitos.
Durante longos séculos, no Ocidente medieval, mais que reinos, principados e condados, havia a grande mole que identificava o todo colectivo, a «cristandade». De facto, a génese da cultura ocidental está profundamente ligada à noção de organização do mundo que tem em dados imaginários e simbólicos os principais referentes da construção geográfica.
Mais que identidades políticas autónomas, a cultura medieval, onde Portugal logicamente se inclui, tinha como fundamentais referentes do espaço categorias simbólicas e espirituais. O horizonte geográfico era um horizonte espiritual. A Europa, os Estados-nação, construíram-se mediante uma identidade que era, essencialmente, religioso-simbólica: a ideia de cristandade que se afirmava face aos que o não eram.
A contínua polémica em volta da retoma das negociações para a entrada da Turquia na União Europeia trouxe novamente esta identidade ancestral da Europa ao de cima.
Porque é que a Turquia, segundo, entre outros, Valery Giscard d’Estaing, não pode entrar para a EU? Está fora da Europa? Será por isso?
Pode ser, levado em sentido estrito, de facto. Grande parte do território da Turquia não se encontra no continente europeu, o mesmo se passando com a sua população. É um argumento que pode parecer lógico, mas não satisfaz. A delimitação entre Ásia e Europa é significativamente artificial; basta ver que a Rússia engloba há séculos territórios de ambos os lados e em nada isso fez perigar a sua unidade; são as escassas centenas de metros de mar que dividem ao meio a antiga Constantinopla que marcam uma radical diferença entre povos?
Ora, o que se passa é que a Turquia será o primeiro pais da União Europeia a não ter como base religiosa o cristianismo numa das suas versões históricas: catolicismo, ortodoxismo ou protestantismo.
Durante séculos o Ocidente europeu fez cruzadas para afastar o muçulmano da Terra Santa; durante séculos os Papas exararam bulas a exortar à guerra contra o “infiel”, e os reis da cristandade responderam a essas bulas com sangrentas conquistas.
Durante séculos o muçulmano foi, de facto, o grande “papão” da Europa. Temos um grande preconceito que vem do século VII da nossa era em relação ao Islão.
Foi com esse preconceito, com essa visão negativa do “outro” que construímos a nossa identidade. É nos impossível ultrapassar essa herança de forma fácil. Pode a Turquia entrar para o clube das nações da Europa?
Pode a Turquia juntar-se ao grupo de países que durante séculos viram o seu espaço e a sua religião como a principal marca do demónio no mundo dos homens?
Que sabemos nós sobre a cultura turca? Sobre o Império Otomano que normalmente é totalmente esquecido nas nossas disciplinas de História?
Nada. Somos, nós Europeus, totalmente desconhecedores dessa realidade culturalmente riquíssima que é a Turquia, herdeira do grande Império Otomano. Só o pré-conceito existe. Nada de conhecimento.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

…são rosas, senhor, são rosas…



É complexa e prenhe de incertezas a linha que transmitiu o conhecimento dos textos antigos herméticos até ao fim da Idade Média e, depois, ao nascimento, quer do rosacrucioanismo no século XVII, quer da maçonaria no século XVIII.
Não sabemos em que rosas se terão transformado os pães que a santa rainha distribuiria aos pobres. Mas sabemos que a escolha destas flores para centro desta lenda implicou, inevitavelmente, que o seu conteúdo simbólico fizesse apelo a elementos de significativa força, correspondente a múltiplas leituras, mas una em significado. Obviamente, não estávamos perante um rei malvado que mandaria decapitar a sua rainha por esta dar de comer aos pobres. Que comida, que pão seria esse que se transformou em rosas? Logo em rosas?...
Na sua multiplicidade de espécies, com os seus matizes de cores, volumes e tipos de pétalas, as imagens riquíssimas de simbologia estão sempre presentes nesta flor, tratem-se das Rosas de Sta. Teresinha, simples, singelas e pequenas, ou nas …. Rosas de José de Arimateia, remetendo-nos directamente para a personagem que teve a responsabilidade do depósito do corpo de Jesus, e que, em algumas tradições, recolheu o sangue de Cristo no Graal.
Não é pouco vulgar a assimilação desta flor com grande valor simbólico ao sangue Cristo, ao que ele representa de sofrimento, mas também de conhecimento, de superação e de capacidade regeneradora. Ou não fora, mesmo antes do nascimento de Jesus, esta a flor que, segundo algumas tradições, fora tingida pelo sangue que escorrera das feridas da amada de Adonis, Afrodite, aquando da perseguição que dera a morte a este.
Na tradição rosacruciana, a rosa é colocada exactamente no centro da cruz, tomando o lugar de destaque dessa imagem, no espaço iconográfico do próprio Cristo, como que o representando na sua essência, opondo-se à materialidade que é o lenho. A rosa representava, através dessa oposição, a espiritualidade implicada no processo de procura. O pão que se transmutava em rosas, teria o mesmo sentido, o alimento material que se transformava em alimento do espírito, de procura.
A simbologia desta flor vem de longe. É com este símbolo da beleza e do segredo que a amada cantada no chamado Cântico dos Cânticos se identifica (Cant. 2,1): Rosa de Saron. Geometrizada e “orientada”, cosmicizada qual dimensão de uma sabedoria cósmica, a rosa ainda a é dos “ventos”, indicando sempre esse Oriente marcado pela direcção de Jerusalém. E o Rosário, que Maria tanto quer que os fieis rezem, ainda tem marcado no nome essa dimensão de completude que a rosa foi buscar quando ao longo da Idade Média foi sendo plasmada à imagem da roda, ao circulo perfeito, aqui a Coroa de Rosas, na tradição católica. O Rosário, tal como existe hoje, foi entregue pela Virgem a São Domingos de Gusmão em 1206, já no século em Isabel de Aragão foi desposada por D. Dinis.
Seguindo a imagem da Rosa de Saron do Cântico dos Cânticos, na actual França, exactamente nesta mesma época, era começado a escrever o célebre Romance da rosa. A coincidência temporal e proximidade geográfica fazem caminhar o olhar para fora do horizonte das coincidências. O valor do símbolo estava assumido.
Mantendo uma tradição que se consegue perceber, pelo menos, desde o século X, no 4º domingo da quaresma, o Dia das Rosas, o papa ainda hoje benze uma Rosa de Ouro, recriando o ritual em que levava uma Rosa também de Ouro à Basílica de estacional de Santa Cruz de Jerusalém, ligando, mais uma vez, a Cruz à Rosa.
A história popular da Rainha Santa Isabel é, sem dúvida, uma das mais conhecidas em Portugal, e que em muito marcou o imaginário nacional. Essas rosas colhidas em Janeiro do regaço da rainha, foram uma parte de um folclore que perdeu o sentido por detrás dos símbolos. A época exacta do aparecimento desta lenda não está determinada com rigor. Apenas sabemos que ainda não consta de uma biografia, anónima, escrita no século XIV. É bem provável que circulasse oralmente. A versão escrita mais antiga deverá ser a transmitida através da Crónica dos Frades Menores, de Frei Marcos de Lisboa, 1562.
Através de séculos largos e com narrativas e símbolos complexos de entender, tal como a Rosa, muitos conteúdos foram sendo recriados continuamente por grupos que tinham na procura do conhecimento e na compreensão do mundo o seu polo aglutinador de sentido.
Quanto da nossa cultura herdámos destes grupos altamente letrados e com uma dedicação elevadíssima ao conhecimento? Sem preconceitos, com rigor e com respeito, é esse o trabalho que em Portugal se começa a fazer através da proposta editorial que a Fundación Rosacruz aqui nos trás.

A área de Ciência das Religiões tem a maior honra em poder participar deste trabalho de rigor que, estamos certos, é apenas o começo de uma caminhada que n os levará a mais e mais profundo conhecimento de nós mesmos.

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Texto publicado como introdução ao livro A Sabedoria do Silêncio, da Fundacíon Rosacruz, aquando da exposição homónima na Torre do Tombo, em Lisboa.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Palavras antigas em caminho pelo mundo moderno

É por demais sabida a origem e inspiração antiga de muito do que de pensamento e inovação a civilização ocidental criou no último milénio. As heranças, que quase sempre nem imaginamos, carregamo-las diariamente.
Fugindo ao mundo das religiões, que são a maior mostra de continuidade a nível de pensamento e comportamento humano, olhemos para o universo das marcas.
Quase todos os ramos do saber necessitam, para se legitimarem, de ir buscar (ou melhor, rebuscar) uma origem à Antiguidade. Para os geógrafos é, entre outros, Estrabão; para os historiadores é Heródoto; para os médicos é Hipócrates, etc, etc, etc.
Qual a semelhança entre o métier desses pais originais e o dos seus discípulos actuais? Regra geral, nenhuma. Trata-se de um símbolo de paternidade.
E é de símbolos que interessa falar quando nos referimos a algumas das influências antigas na ciência actual.
Talvez a actividade de Hipócrates tenha pouco a ver com a dos clínicos actuais, mas a verdade é que boa parte dos produtos farmacêuticos actuais foi buscar nome a raízes directas do grego clássico. Essa opção torna mais fácil a percepção, por parte dos médicos, farmacêuticos ou doentes, do campo de eficácia do produto? Não, em princípio só os cidadãos gregos perceberão que, por exemplo, o xarope Atarax (sem o qual o meu agregado familiar não pode passar), faz apelo à ataraxia, uma espécie de estado idêntico ao nirvana que os gregos atingiam com algumas drogas.
Obviamente, é escusado falar nos nomes científicos dos animais e plantas … quanto de grego e latim se espraia na classificação de Lineu.
Mas é todo o nosso dia-a-dia que vai buscar referências imperceptíveis a esse horizonte. Sem se dar por isso, andamos a soletrar verdadeiras frases em grego, latim, hebraico, e até egípcio.
Haveria nome melhor para uma marca de produtos desportivos que Vitória (em grego niké)? E uma linha de produtos de beleza que fosse A Beleza (no grego to kálon)? E os electrodomésticos que são Optimos, Excelentes (em grego aríston)? E porque não referir a marca de produtos didácticos e pedagógicos que é colher, escolher ... (Lego, em latim)?
De facto, até o perdido egípcio hieroglífico, só decifrado no segundo quartel de oitocentos, deu nome a automóveis: o Opel Ká foi buscar o dito «ká» à palavra egípcia que designava uma das vertentes não materiais do corpo humano: um verdadeiro, como a publicidade dizia, “carro com alma”. Mas o mundo automóvel está repleto de referencias à Antiguidade: do Clio (musa latina da história) ao Megane (superlativo de mega, grande em grego), muito mais se poderia referir. E por falar em «grande», também a relojoaria não ficou imune a este vocábulo usando-o para uma das suas principais marcas, a Omega.
Mais se poderia acrescentar. Quando ouvimos falar na Nissan, estamos a recordar um mês do calendário semita antigo; quando compramos as pastilhas da Adam’s, dizemos o nome do primeiro homem da criação divina.
Enfim, “o mito é o nada que é tudo”, nas palavras de Pessoa. Não tivesse sido debaixo de uma macieira que Newton teve a ideia da Lei da Gravitação Universal … no fundo, uma das árvores que na leitura medieval e moderna da tradição judaica era a Árvore do Conhecimento que estava no Éden… Nunca poderia ter sido debaixo de uma figueira!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Laicidade e Secularização. Entre processo e imposição

Hoje, 22 de Agosto, no Público:

Há duas formas radicalmente diferentes de definir a relação entre uma lei e a sociedade a que ela se aplica. As leis podem ser expressão de uma vontade, ecos do colectivo, e nesse caso a sociedade aceita essa lei como sua sem a contestar, ou a lei pode “ir à frente” da sociedade, e dirigir, impondo um caminho que por vezes é contestado ou, pelo menos, não cumprido na íntegra – supondo nós que esse “ir à frente” é legitimo porque se enquadra numa visão de progresso civilizacional, dimensão hoje cada vez mais complexa de aceitar de forma cega.
Para nós, hoje, cidadãos europeus do século XXI, e herdeiros de toda uma série imensa e violenta de revoluções e de grandes alterações mentais, a secularização da sociedade parece natural. A laicidade do funcionamento das instituições parece-nos ser como que imanente à própria forma de organização e de ordenamento da natureza, um dado indiscutível.
No Médio Oriente, nos casos turco e egípcio -os casos que mais vezes eram indicados como os que mais longe tinham ido nessa separação de poderes que, no mundo islâmico parece tão complicada de fazer pela própria natureza do Direito e pela literalidade de leitura do Texto Sagrado- , a secularização das instituições que teve lugar ao longo do século XX em nada vem de uma sustentável vontade popular.
A laicização da sociedade e da forma de entender o Estado, é em tudo um fenómeno do ocidente europeu e da América do Norte. É um processo que começa com a Reforma Protestante, que com as teorias do Direito de finais do século XVII e com o Iluminismo se consolidam e ganham foro de Lei nas Revoluções Liberais.
Quer no Egipto, quer na Turquia, milhares de anos nos olham com a serenidade do tempo que tudo envolve, mas onde quase sempre os poderes foram absolutos e teocráticos. Os fenómenos de laicização do Direito e da Política em países como o Egipto ou a Turquia, não saíram de um longo processo de maturação de ideias “autóctones”, de um caminho de uma elite através da sua identidade cultural integrada, mas de todo um conjunto de factores de manutenção de poder fora da esfera religiosa, legitimando uma nova elite, os seus lugares e as suas funções.
Na Turquia de Atatturk, a laicização deu-se pela forma de uma revolução que impôs essa mesma laicidade que, na Europa onde nasceu, implicava directamente a Liberdade. É neste jogo de contrários, de uma laicização que é em tudo ideologia política imposta e não vontade popular desenvolvida, que vemos a Democracia, a liberdade de escolha, de ambos os países definir um caminho que potencia a negação dessa mesma laicização.
O fundador da moderna Turquia, com gestos perfeitamente déspotas para as formas de acção que hoje defendemos, proibiu as roupas identificadas com o Islão em 1934, levando à adopção de roupas europeias pela elite nacional. Simbolicamente, a esposa de Ataturk deixou de usar o chamado véu islâmico. A esposa do actual presidente Turco já foi duramente criticada por sectores mais radicais por o usar…
As mudanças nunca se fazem por decreto, nem se importam. Sobretudo quando a tradição está cimentada na identidade religiosa.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

“Tudo na vida” de Pedro Paixão, ou a deslumbrante destruição da linguagem



O erro não é das pessoas […] a vida é que está errada.
[…]
Tudo na vida devia ser diferente, disse. As palavras são o maior erro. Todas as palavras. Não há nada de mais inútil porque nada nos responde.
[…]
Mais tarde ou mais cedo acabas por descobrir que não saberes não quer dizer que alguém saiba. Nem a tua ignorância te salva.
Pedro Paixão, A Noiva Judia, p. 25.

Já não sabia porque deixara o livro do Pedro Paixão quase no início. Não sei quando fora, mas há bem mais de 10 anos, pelo que a falta desse laço da memória me faz depreender. Mas percebi de imediato. Tanta dor, tanta tristeza, tanta incapacidade de lidar com o mundo e tanta negação do eu. É duro este livro. É brutalmente vivido por uma vida intensa mas dolorosamente desistida de si mesma.
Numa escrita perfeitamente laicizada, “desencantada” de qualquer parcela de divino, e como imagem de um máximo de sentido, por vezes o desalento torna-se em chave de uma certa raiva e chega ao lugar-comum da negação e da culpabilização. “Antes de adormecer peço que Deus não exista para não poder ser tomado como responsável por todas estas atrocidades” (p. 17), pede uma das personagens informes, num humanismo, ao mesmo tempo profundo, mas ironicamente leve e descomprometido como quem poderia dizer qualquer outra coisa.
Mas na maioria das vezes, o desgosto e a dor irrompem de si mesmo, sem objectivo que não seja a dor em si mesma. Sem carga de ironia alguma, apenas com um sentido estético brutal na criação de afirmações de tristeza.
Num sublime exercício estético de linguagem, o grande argumento do livro é o silêncio enquanto vazio. A linguagem não serve para nada. Apenas o silêncio é o último refúgio. Mas esse refúgio é, já em si, capacidade de autoconhecimento. É mais que constatação, é verificação e capacidade de o pensar. O silêncio que leva à destruição não apenas verificado quando aconteceu. É verificado quando acontece e faz parte de uma tomada de sentido da vida, do devir humano. “Há dias que não falava com ninguém. Só consigo, frente ao espelho, a horas irregulares. Mas isso não é falar. […]. Pouco a pouco sentia que enlouquecia, e, pior que tudo, isso não o assustava. Os homens dedicados a si próprios acabariam todos ou por enlouquecer ou por tornar-se criminosos. Nisto se resumia a sua ideia de progresso da humanidade” (p. 27).
O lugar deixado pela abandono da linguagem, o abandono à não comunicação, mais que deixar o indivíduo sozinho, só consigo mesmo, como que o deixa sem nada. Mesmo sem si. “Era o tempo da expiação. Um vazio completo a ocupar a próxima hora. Sem isso vai-se tudo o resto, até tudo o que já passou” (p. 29), afirma, como se esse vazio tivesse o poder de apagar até a s memórias e as vivências. Não só não constrói, como destrói o que já teve lugar e que, assim, se esvai.
Dizer e agir. Ou não dizer enquanto acção tornam-se a máxima de uma forma de entender o passar do tempo, a história de vida, em que a linguagem marcaria o que, de facto, interessaria: “Quando volta estou estendido em cima da cama de sapatos e tudo. Ela fica de pé e observa-se sem dizer uma só palavra. É verdade que ela já me conhece. É uma vantagem, poupam-se palavras. Sempre me incomodou o abuso que delas se faz. Quantas frases disse eu ao todo na minha vida que de facto tivessem valido a pena ser ditas?” (p. 46). Para Pedro Paixão, nas suas personagens, nada mereceria o uso limite das palavras. “As mais belas recordações serão sempre mudas” (p. 47)
Para Pedro Paixão a linguagem é a face visível da acção. Fazer é sinónimo activo de dizer, quase num sentido genesíaco. “Do que conseguiu fazer nada se consegue ler na sua cara. E quando lhe perguntam : «O que é que faz?», esquiva-se à resposta, por dificuldade em voltar a encontrar aquilo que fez” (p. 43). Tudo se esvai na incapacidade de dizer. Não diz, não existe.
Mas alguma coisa ficará para a história do meu exemplar d’A Noiva Judia. À tarde, fui fazer uma compra nada usual, uma escova de aço para tratar de uma caliça a cair de uma parede. Paguei-a, e o pequeno autocolante com o código de barras como que me chamou. Encimado pela directa e bruta informação “escova de aço”, retirei-o da dita e coloquei-o, torto qb, mesmo abaixo do subtítulo do livro, mesmo na folha de rosto. Não, não é «ficção» o que este livro é. O autor, por comodidade ou outra coisa qualquer indizível, assim o rotulou. Mas ele é «destruição», por isso a nova etiqueta lhe fica tão bem. Lê-lo é passar-se numa escova de aço.

Usei a edição de 1999, a 8ª, feita em Lisboa, pelas Edições Cotovia.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A Religião enquanto Metáfora


Vai longe o excepcional ensaio de Susan Sontag sobre “A Doença enquanto Metáfora”. Iam os distantes finais dos anos setenta quando era escrito esse brilhante texto na recuperação de uma doença grave e prolongada da autora.
Hoje, muito tempo depois de a esse texto se terem vindo juntar as indagações sempre demolidoras de Foucault, a doença já está normalizada num horizonte onde a ideia de degradação se cruza com a de pecado e onde a culpa continua a fazer ecos num tempo já racional onde supostamente teríamos abandonado a ideia de falha, de mácula, de contranatura ao estado “doentio”.
Há cerca de um mês cruzei, quase sem querer, os horizontes teóricos de Sontag com os da História das Religiões. Após a leccionação de um curso breve sobre exorcismos, e da subsequente escrita de um pequeno texto sobre o mesmo tema, percebi como fomos, durante milénios, educados a ver a doença, não só como uma falha, mas mesmo como uma demonstração de uma qualquer natureza demoníaca em nós.
Ter uma verruga no nariz, como tão tipicamente apontamos às bruxas, era a marca de que estava possuída por um demónio, tendo-se a ele entregue. Era seu agente e actor. Uma malformação ou a cegueira, simplesmente, era sinónimo de pacto demoníaco, e mesmo quando no século XIX se quis encontrar uma forma de mostrar uma criança a mentir, foi pela deformação do narizito do seu pequeno que Gepeto percebia o embuste.
Mas hoje em dia as imagens da religião trazidas para a linguagem comum remetem-nos para um mundo onde a tal da falha, da mácula, quase de doença, surge de forma muito visível. Paralelamente, são importantes os estudos, entre outros, de Abddolkarim Vakil sobre a islamofobia e a forma como algumas palavras foram sendo alteradas no sentido negativo da sua conotação rácica-étnica-religiosa.
Tal como em certos países se tornou comum pedir um táxi-com-cão, para identificar um táxi que não seja conduzido por um muçulmano, continuamos a usar a palavra seita com um sentido depreciativo, surgindo ainda muitas vezes nas conversas de gente “educada” como sinónimo de grupos ou igrejas evangélicas.
A mais intrigante palavra de horizonte religioso transportada para a linguagem coloquial, e que revela os apriorismos que temos em relação ao universo religioso, é, obviamente, a palavra fundamentalismo. Fundamentalista passou a ser equivalente de terrorista. E esta rotação de significado, de um mundo ligado ao que fundamental uma fé tem, os seus textos base, para um quadro de desgraça e de destruição, é uma leitura neo-positivista que coloca uma etiqueta de erro civilizacional em todos aqueles que, muçulmanos, ou não, não aderirem 100% a uma forma de ver o mundo: laicizada e sem a necessidade de um motor divino que explique o seu devir. O Fundamentalista passa a ser todo o inimigo da visão ocidentalizada do mundo.
O mesmo se passa com uma em tudo semelhante palavra: ortodoxo. Esta tem, ainda, a peculiar característica de ter mesmo passado para o léxico específico do tratamento das religiões, baralhando tudo. Um judeu ortodoxo não é um judeu que segue a ortodoxia, a ortopráxis, do judaísmo. Um judeu ortodoxo passou a ser o equivalente, mas do lado oposto da barricada, ao muçulmano fundamentalista.
E é de guerra, de palavras e não só, que falamos. Um judeu ortodoxo seria, na base do que realmente significava, um judeu praticante e seguidos dos preceitos. Nada mais. Isto é, um membro praticante, por exemplo, da comunidade judaica de Lisboa. Um muçulmano fundamentalista é, tal como o ortodoxo, um muçulmano que segue o seu Texto Sagrado como base da visão do mundo e da organização social. Este, não faz necessariamente atentados terroristas.
Enfim, perdemos uma grande versatilidade de palavras que ganhavam nuances quando conjugadas por outras. Quando se falava num judeu ortodoxo, no século XIX ou mesmo em grande parte do XX, era necessário identificar a nacionalidade, a tradição cultural e a linhagem teológica. Hoje, numa linguagem rápida, um judeu ortodoxo é apenas um homem de longas e estranhas suíças a despontar por debaixo de um chapéu vindo de tempos oitocentistas.
Perdemos estas nuances, mas ganhámos em rancor e em ódio. Todos estes usos passaram a ser continentes poderosíssimos de violência. O resvalar destas palavras para este quadro maniqueísta é imagem de onde anda a nossa cabeça: desgraça e sangue. Pouco menos.