quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Os dois “Budas” de Nova Iorque

No chamado Dia Internacional da Paz, recupero um texto de 2001. Contexto: 11 Setembro.
A reflexão mantem-se actual. Com muita necessidade de se ser actuante.

Os dois “Budas” de Nova Iorque

Com uma eficácia maior que a antes vista aquando da destruição dos dois Budas em Badiyan, as Twin Towers de Nova Iorque ruíram com a simplicidade de apenas um golpe cada, sem falha de pontaria alguma, sem necessidade de utilizar segundas cargas de explosivos.
Alguns meses medeiam entre as duas destruições. Em ambos os casos os alvos foram marcas patrimoniais de um ocidente que define regras e as aplica aos restantes. Também cá foram destruídos templos islâmicos aquando da chamada «Reconquista Cristã» - a Sé de Lisboa terá sido construída em cima de uma Mesquita previamente arrasada … o que de património aí se perdeu, e o que de fundamentalismo se afirmou nesse acto – mas isso não interessa para a História.
O que de comum existe nas duas destruições, a de Badiyan e a de Nova Iorque, é a afronta ao ocidente da materialidade - os budistas têm plena consciência que para a sua doutrina a existência das duas estátuas em nada significa, ao contrário, numa visão diletante e quase coleccionista, o ocidente, auto-proclamado de civilizado, chorou a irreparável perda patrimonial, sem se aperceber que essa irreparável perda patrimonial efectiva do Budismo reside na incessante luta contra o seu centro religioso, o Tibete: sem religiões livres, o património da UNESCO ficará resumido a simples peças, sem conteúdo, sem vivenciação, simples imagem e descrição nos roteiros turísticos.
Em ambos os casos ficou o vazio em seus lugares. Num, o lugar escavado na rocha milenar em que foram esculpidos os dois Budas; Noutro, o espaço correspondente ao reticulado da cidade complexa onde se encontravam os edifícios emblemáticos. Em ambos o imenso vazio que não mais se poderá ocupar.
Por mais estranho que possa parecer, a luta, em ambos os casos, não é religiosa. É no campo da crença que a afronta se afirma, não no campo do corpus fundamental do fenómeno religioso.
É que a crença não é nem nunca foi religiosa; Esta é a aferição essencial a fazer. A crença radica naquilo que de mais baixo tem o espírito humano: o seguidismo cego, autista, nulo de capacidade cognitiva alguma. Alterando as palavras do poeta Eles não sabem nem sonham que a crença comanda a vida … A Religião, na sua dimensão inevitavelmente teológica, não é o ópio do povo, a crendice é que ocupa esse lugar proeminente nas sociedades humanas, religiosas ou não.
A crença, quando religiosa, não toma qualquer conteúdo teológico – a teologia, por mais simples e simplista que possa ser, implica sempre, tal como qualquer actividade intelectual, uma atitude cognitiva. A crença não é activa na cognição, no esclarecimento de si. A crença move-se na exacta medida em que aponta o outro como seu diferente, seu inimigo para a sua plena concretização.
A crença é, sim, um instinto e uma identidade. Ao ser um instinto implica o seu aprofundamento até às últimas consequências sem que haja alguma capacidade argumentativa contrária; ao ser uma identidade alimenta-se da fraqueza de todos os restantes factores de identidade – quando tudo se perde, a crença comum preenche-se com os sentidos perdidos nos restantes campos (territorialidade, administração e policiamento, capacidade bélica, afirmação económica).
É pela crença num capitalismo desmedido, é pela crença num islão fundamentalista, é pela crença num catolicismo inquisitorial, é pela crença num ideal de cruzada, é pela crença numa visão racista que se dá a vida e que se tira a vida.
Texto publicado na revista Viragem, nº 39.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Mandela | Vida

Numa vida inteira que viva, não deverei conhecer ninguém como Mandela. É hoje uma marca de egoísmo que tenho e que quero afirmar na minha pequenez. Não conheci Mandela. Dificilmente no meu tempo, entre os vivos, aparecerá outro ser humano da sua grandeza.
                                                    
Apenas posso falar disso que é um não conhecer. Mas tantos são os “que não conhecemos” que nos entram por casa dentro nos noticiários! Com Mandela era diferente. Ele não nos entrava pela casa dentro. Ele sorria à porta e pedia licença.
                                             
Que história de vida, e que capacidade para nunca abandonar aquele sorriso que lhe marcava sempre o rosto. Ao mesmo tempo frágil e tenaz, Mandela era uma imagem que cativava pelo que ela representava de impossível. Ele era Utopia transformada em pessoa, em ser, e em colectivo.
                                                 
A História, todos a sabemos. Da luta, da prisão, da liberdade, da unidade, dos desafios e da construção de uma Nação. E exactamente porque todos a sabemos é que ela é de uma magnitude que foge ao comum dos estadistas. É que Mandela não era um estadista. Ele era muito mais, era um líder que interpretava, de facto, um povo e um pais.
                                                    
E era um líder, não dos que lideram porque vencem eleições, mas dos que lideram porque a sua acção faz com que todos nele vissem uma capacidade e um exemplo acima de todas as definições da acção política.
                           
A África do Sul não está de luto. Bendita a Pátria que tal Filho teve! Poderíamos dizer seguindo o poeta.
                                              
De luto estamos nós que não conhecemos Mandela. Não do luto de uma morte, mas do luto de uma vida sem ninguém da sua escala que nos lidere.


sábado, 23 de novembro de 2013

Anti (semitismo - judaísmo - israelismo – sionismo): algumas diferenças

Cada vez mais urge olhar para as palavras que usamos com um cuidado redobrado, fugindo à leveza da fugacidade das realidades passageiras.
De facto, no actual mundo do fast food intelectual e cultural, assistimos constantemente ao abusivo uso de determinados conceitos, de vocábulos que nasceram com definição clara do seu sentido mas que, pelo seu uso muitas vezes irresponsável, o perderam por completo, lançando um caos pantanoso onde tudo pode ser dito.
Não se trata de um purismo linguístico, mas sim de um esforço que é necessário fazer para afastar muitos mal entendidos e muitos juízos de valor.
E é importante tratar as realidades com os nomes que, de facto, se lhes aplicam, porque os nomes, as palavras, querem dizer alguma coisa, criam nuances de sentido, subtilezas de pensamento. A generalização de certas expressões que deixam de ter um sentido claro é uma das mais profundas provas de iliteracia.
O caso dos quatro vocábulos usados em título é significativamente importante porque nos obriga a um exercício de pensamento em que se separam fenómenos diferentes. Sem se compreenderem, nas suas especificidades, esses fenómenos, podemos estar a lançar os conflitos para campos ainda mais dramáticos, criando assim uma nova conflituosidade.
Esta conflituosidade criada nas opiniões mediante o uso de certas expressões, pode levar a reacções extremadas por parte de grupos islâmicos e judaicos, dificultando o diálogo e lançando ainda mais discórdia: o uso errado de certas palavras leva-nos para um horizonte de criação de uma guerra virtual em torno de judeus, islâmicos e “ocidentais”.
Historicamente, o «anti-judaismo» nasceu primeiro. Baseado na ideia de que os judeus mataram Jesus, o Cristo, o Deus Vivo, criou uma mácula que se estendeu por dois milénios. Culpados do deicídio, os judeus foram perseguidos por praticarem uma religião que conduziu a esse crime máximo, constantemente considerados um dos males do mundo.
«anti-semitismo» difere da noção anterior porque perdeu a carga religiosa e se abriu ao horizonte cultural mais largo do mundo semita. Um anti-semita não persegue um judeu porque ele pertence a uma religião, a um grupo humano, que optou por matar Jesus.
O anti-semitismo existe porque vê nos judeus os descendentes de uma raça inferior, os semitas. Ora, duas considerações há a fazer: 1) este fenómeno está plenamente enquadrado numa Europa que não integrou as comunidades judias, e que via nelas algo de exterior a si mesmas (os semitas não eram europeus, eram asiáticos); 2) esta palavra teve maior expressão aplicada a judeus, mas designava genericamente todas as populações com origem no Médio Oriente, incluindo árabes e islâmicos.
Desta forma, o que se passa em Israel, na Palestina e no Líbano nunca pode ser designado como anti-semitismo: ambos, palestinianos e israelitas, são semitas.
Donde, é a noção de «anti-israelismo» que deve ser lançada em campo em detrimento da anterior. E este campo já pouco tem a ver com a religião, já pouco tem a ver com a visão de raças inferiores, em tudo tem a ver com uma delimitação de um estado, em tudo tem a ver com a definição das fronteiras e com as resoluções da ONU que obrigavam Israel a confinar-se a uma determinada linha fronteiriça.
Ser anti-israelita não implica uma posição antisemita. Um dos «anti» é de natureza “rácica”, o outro, é de natureza política.
Mas, obviamente, nada é linear. Transversalmente, há ainda a ideia de «anti-sionismo», conceito de mais difícil definição. O moderno sionismo nasce no século XIX e tem como objectivo o restabelecimento de uma pátria judaica no espaço do antigo Israel. Muito do anti-semitismo do século XIX nasce por oposição às linhas de poder de grandes famílias judias que fomentaram esses discurso de regresso à Palestina.
Para muitos, esse regresso implicava um domínio completo e total da região, e não apenas de um território mais pequeno. Pretendia-se, miticamente, alcançar os vastos domínios de David e de Salomão, recriando uma certa ideia de império, de domínio muito acima do nacional.
Complexificando ainda mais um pouco, o facto de o Estado de Israel ser um Estado Judaico, e de os judeus pelo mundo fora se sentirem solidários com essa nação (muitas vezes com dupla nacionalidade simplesmente por serem judeus), provoca o esbatimento dos conceitos anteriores. Por analogia, as reacções às comunidades judias fora de Israel são como que um ataque a Israel na medida em que há uma relação próxima entre essas duas realidades.
Muito se ganhava se as palavras fossem usadas correctamente. Muito do que de conflito latente se tem criado na Europa poderia ter sido talvez evitado, ou amenizado, se quem escreve ou fala sobre estas questões não falasse, por exemplo, constantemente em anti-semitismo, relançando um fantasma que, agora, quase não existe. Se continuarmos a falar tanto dele e da forma como o temos feito, talvez o ressuscitemos ...
Texto publicado no jornal diário Público, a 13 de Agosto de 2006.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

União Europeia / Turquia: o regresso da noção de cristandade?

Queiramos ou não, gostemos ou não, todas as nações apresentam na sua estrutura identitária dados vindos do mundo religioso. Portugal é um país de base cultural católica. Sejamos, de facto, católicos, ou então evangélicos, protestantes, budistas, judeus, ateus ou laicos, etc, não nos podemos esquecer que a nossa cultura nasceu e se desenvolver num contexto que privilegiou secularmente um credo; só em 1974 o catolicismo deixou de ter lugar consignado na Constituição; só em 2001 foi votada uma Lei de Liberdade Religiosa – é significativo.
Somos inconscientemente herdeiros de um passado irrevogável, e através dele nos apresentamos profundamente marcados na nossa forma de estar e de viver o mundo e os seus problemas.
Não está certo nem está errado: é um facto histórico com o qual temos de conviver e que devemos ter presente sempre que pensamos em cultura em Portugal. Dependente de Roma e do catolicismo, ou afirmando-se a ela irreverente e tomando formas de recusa, toda a nossa cultura não passa ao lado desse realidade: a base católica do país.
Toda a Europa comunga da mesma noção identitária, mais ou menos enraizada nas suas gentes e nos seus hábitos.
Durante longos séculos, no Ocidente medieval, mais que reinos, principados e condados, havia a grande mole que identificava o todo colectivo, a «cristandade». De facto, a génese da cultura ocidental está profundamente ligada à noção de organização do mundo que tem em dados imaginários e simbólicos os principais referentes da construção geográfica.
Mais que identidades políticas autónomas, a cultura medieval, onde Portugal logicamente se inclui, tinha como fundamentais referentes do espaço categorias simbólicas e espirituais. O horizonte geográfico era um horizonte espiritual. A Europa, os Estados-nação, construíram-se mediante uma identidade que era, essencialmente, religioso-simbólica: a ideia de cristandade que se afirmava face aos que o não eram.
A contínua polémica em volta da retoma das negociações para a entrada da Turquia na União Europeia trouxe novamente esta identidade ancestral da Europa ao de cima.
Porque é que a Turquia, segundo, entre outros, Valery Giscard d’Estaing, não pode entrar para a EU? Está fora da Europa? Será por isso?
Pode ser, levado em sentido estrito, de facto. Grande parte do território da Turquia não se encontra no continente europeu, o mesmo se passando com a sua população. É um argumento que pode parecer lógico, mas não satisfaz. A delimitação entre Ásia e Europa é significativamente artificial; basta ver que a Rússia engloba há séculos territórios de ambos os lados e em nada isso fez perigar a sua unidade; são as escassas centenas de metros de mar que dividem ao meio a antiga Constantinopla que marcam uma radical diferença entre povos?
Ora, o que se passa é que a Turquia será o primeiro pais da União Europeia a não ter como base religiosa o cristianismo numa das suas versões históricas: catolicismo, ortodoxismo ou protestantismo.
Durante séculos o Ocidente europeu fez cruzadas para afastar o muçulmano da Terra Santa; durante séculos os Papas exararam bulas a exortar à guerra contra o “infiel”, e os reis da cristandade responderam a essas bulas com sangrentas conquistas.
Durante séculos o muçulmano foi, de facto, o grande “papão” da Europa. Temos um grande preconceito que vem do século VII da nossa era em relação ao Islão.
Foi com esse preconceito, com essa visão negativa do “outro” que construímos a nossa identidade. É nos impossível ultrapassar essa herança de forma fácil. Pode a Turquia entrar para o clube das nações da Europa?
Pode a Turquia juntar-se ao grupo de países que durante séculos viram o seu espaço e a sua religião como a principal marca do demónio no mundo dos homens?
Que sabemos nós sobre a cultura turca? Sobre o Império Otomano que normalmente é totalmente esquecido nas nossas disciplinas de História?
Nada. Somos, nós Europeus, totalmente desconhecedores dessa realidade culturalmente riquíssima que é a Turquia, herdeira do grande Império Otomano. Só o pré-conceito existe. Nada de conhecimento.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

…são rosas, senhor, são rosas…



É complexa e prenhe de incertezas a linha que transmitiu o conhecimento dos textos antigos herméticos até ao fim da Idade Média e, depois, ao nascimento, quer do rosacrucioanismo no século XVII, quer da maçonaria no século XVIII.
Não sabemos em que rosas se terão transformado os pães que a santa rainha distribuiria aos pobres. Mas sabemos que a escolha destas flores para centro desta lenda implicou, inevitavelmente, que o seu conteúdo simbólico fizesse apelo a elementos de significativa força, correspondente a múltiplas leituras, mas una em significado. Obviamente, não estávamos perante um rei malvado que mandaria decapitar a sua rainha por esta dar de comer aos pobres. Que comida, que pão seria esse que se transformou em rosas? Logo em rosas?...
Na sua multiplicidade de espécies, com os seus matizes de cores, volumes e tipos de pétalas, as imagens riquíssimas de simbologia estão sempre presentes nesta flor, tratem-se das Rosas de Sta. Teresinha, simples, singelas e pequenas, ou nas …. Rosas de José de Arimateia, remetendo-nos directamente para a personagem que teve a responsabilidade do depósito do corpo de Jesus, e que, em algumas tradições, recolheu o sangue de Cristo no Graal.
Não é pouco vulgar a assimilação desta flor com grande valor simbólico ao sangue Cristo, ao que ele representa de sofrimento, mas também de conhecimento, de superação e de capacidade regeneradora. Ou não fora, mesmo antes do nascimento de Jesus, esta a flor que, segundo algumas tradições, fora tingida pelo sangue que escorrera das feridas da amada de Adonis, Afrodite, aquando da perseguição que dera a morte a este.
Na tradição rosacruciana, a rosa é colocada exactamente no centro da cruz, tomando o lugar de destaque dessa imagem, no espaço iconográfico do próprio Cristo, como que o representando na sua essência, opondo-se à materialidade que é o lenho. A rosa representava, através dessa oposição, a espiritualidade implicada no processo de procura. O pão que se transmutava em rosas, teria o mesmo sentido, o alimento material que se transformava em alimento do espírito, de procura.
A simbologia desta flor vem de longe. É com este símbolo da beleza e do segredo que a amada cantada no chamado Cântico dos Cânticos se identifica (Cant. 2,1): Rosa de Saron. Geometrizada e “orientada”, cosmicizada qual dimensão de uma sabedoria cósmica, a rosa ainda a é dos “ventos”, indicando sempre esse Oriente marcado pela direcção de Jerusalém. E o Rosário, que Maria tanto quer que os fieis rezem, ainda tem marcado no nome essa dimensão de completude que a rosa foi buscar quando ao longo da Idade Média foi sendo plasmada à imagem da roda, ao circulo perfeito, aqui a Coroa de Rosas, na tradição católica. O Rosário, tal como existe hoje, foi entregue pela Virgem a São Domingos de Gusmão em 1206, já no século em Isabel de Aragão foi desposada por D. Dinis.
Seguindo a imagem da Rosa de Saron do Cântico dos Cânticos, na actual França, exactamente nesta mesma época, era começado a escrever o célebre Romance da rosa. A coincidência temporal e proximidade geográfica fazem caminhar o olhar para fora do horizonte das coincidências. O valor do símbolo estava assumido.
Mantendo uma tradição que se consegue perceber, pelo menos, desde o século X, no 4º domingo da quaresma, o Dia das Rosas, o papa ainda hoje benze uma Rosa de Ouro, recriando o ritual em que levava uma Rosa também de Ouro à Basílica de estacional de Santa Cruz de Jerusalém, ligando, mais uma vez, a Cruz à Rosa.
A história popular da Rainha Santa Isabel é, sem dúvida, uma das mais conhecidas em Portugal, e que em muito marcou o imaginário nacional. Essas rosas colhidas em Janeiro do regaço da rainha, foram uma parte de um folclore que perdeu o sentido por detrás dos símbolos. A época exacta do aparecimento desta lenda não está determinada com rigor. Apenas sabemos que ainda não consta de uma biografia, anónima, escrita no século XIV. É bem provável que circulasse oralmente. A versão escrita mais antiga deverá ser a transmitida através da Crónica dos Frades Menores, de Frei Marcos de Lisboa, 1562.
Através de séculos largos e com narrativas e símbolos complexos de entender, tal como a Rosa, muitos conteúdos foram sendo recriados continuamente por grupos que tinham na procura do conhecimento e na compreensão do mundo o seu polo aglutinador de sentido.
Quanto da nossa cultura herdámos destes grupos altamente letrados e com uma dedicação elevadíssima ao conhecimento? Sem preconceitos, com rigor e com respeito, é esse o trabalho que em Portugal se começa a fazer através da proposta editorial que a Fundación Rosacruz aqui nos trás.

A área de Ciência das Religiões tem a maior honra em poder participar deste trabalho de rigor que, estamos certos, é apenas o começo de uma caminhada que n os levará a mais e mais profundo conhecimento de nós mesmos.

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Texto publicado como introdução ao livro A Sabedoria do Silêncio, da Fundacíon Rosacruz, aquando da exposição homónima na Torre do Tombo, em Lisboa.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Palavras antigas em caminho pelo mundo moderno

É por demais sabida a origem e inspiração antiga de muito do que de pensamento e inovação a civilização ocidental criou no último milénio. As heranças, que quase sempre nem imaginamos, carregamo-las diariamente.
Fugindo ao mundo das religiões, que são a maior mostra de continuidade a nível de pensamento e comportamento humano, olhemos para o universo das marcas.
Quase todos os ramos do saber necessitam, para se legitimarem, de ir buscar (ou melhor, rebuscar) uma origem à Antiguidade. Para os geógrafos é, entre outros, Estrabão; para os historiadores é Heródoto; para os médicos é Hipócrates, etc, etc, etc.
Qual a semelhança entre o métier desses pais originais e o dos seus discípulos actuais? Regra geral, nenhuma. Trata-se de um símbolo de paternidade.
E é de símbolos que interessa falar quando nos referimos a algumas das influências antigas na ciência actual.
Talvez a actividade de Hipócrates tenha pouco a ver com a dos clínicos actuais, mas a verdade é que boa parte dos produtos farmacêuticos actuais foi buscar nome a raízes directas do grego clássico. Essa opção torna mais fácil a percepção, por parte dos médicos, farmacêuticos ou doentes, do campo de eficácia do produto? Não, em princípio só os cidadãos gregos perceberão que, por exemplo, o xarope Atarax (sem o qual o meu agregado familiar não pode passar), faz apelo à ataraxia, uma espécie de estado idêntico ao nirvana que os gregos atingiam com algumas drogas.
Obviamente, é escusado falar nos nomes científicos dos animais e plantas … quanto de grego e latim se espraia na classificação de Lineu.
Mas é todo o nosso dia-a-dia que vai buscar referências imperceptíveis a esse horizonte. Sem se dar por isso, andamos a soletrar verdadeiras frases em grego, latim, hebraico, e até egípcio.
Haveria nome melhor para uma marca de produtos desportivos que Vitória (em grego niké)? E uma linha de produtos de beleza que fosse A Beleza (no grego to kálon)? E os electrodomésticos que são Optimos, Excelentes (em grego aríston)? E porque não referir a marca de produtos didácticos e pedagógicos que é colher, escolher ... (Lego, em latim)?
De facto, até o perdido egípcio hieroglífico, só decifrado no segundo quartel de oitocentos, deu nome a automóveis: o Opel Ká foi buscar o dito «ká» à palavra egípcia que designava uma das vertentes não materiais do corpo humano: um verdadeiro, como a publicidade dizia, “carro com alma”. Mas o mundo automóvel está repleto de referencias à Antiguidade: do Clio (musa latina da história) ao Megane (superlativo de mega, grande em grego), muito mais se poderia referir. E por falar em «grande», também a relojoaria não ficou imune a este vocábulo usando-o para uma das suas principais marcas, a Omega.
Mais se poderia acrescentar. Quando ouvimos falar na Nissan, estamos a recordar um mês do calendário semita antigo; quando compramos as pastilhas da Adam’s, dizemos o nome do primeiro homem da criação divina.
Enfim, “o mito é o nada que é tudo”, nas palavras de Pessoa. Não tivesse sido debaixo de uma macieira que Newton teve a ideia da Lei da Gravitação Universal … no fundo, uma das árvores que na leitura medieval e moderna da tradição judaica era a Árvore do Conhecimento que estava no Éden… Nunca poderia ter sido debaixo de uma figueira!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Laicidade e Secularização. Entre processo e imposição

Hoje, 22 de Agosto, no Público:

Há duas formas radicalmente diferentes de definir a relação entre uma lei e a sociedade a que ela se aplica. As leis podem ser expressão de uma vontade, ecos do colectivo, e nesse caso a sociedade aceita essa lei como sua sem a contestar, ou a lei pode “ir à frente” da sociedade, e dirigir, impondo um caminho que por vezes é contestado ou, pelo menos, não cumprido na íntegra – supondo nós que esse “ir à frente” é legitimo porque se enquadra numa visão de progresso civilizacional, dimensão hoje cada vez mais complexa de aceitar de forma cega.
Para nós, hoje, cidadãos europeus do século XXI, e herdeiros de toda uma série imensa e violenta de revoluções e de grandes alterações mentais, a secularização da sociedade parece natural. A laicidade do funcionamento das instituições parece-nos ser como que imanente à própria forma de organização e de ordenamento da natureza, um dado indiscutível.
No Médio Oriente, nos casos turco e egípcio -os casos que mais vezes eram indicados como os que mais longe tinham ido nessa separação de poderes que, no mundo islâmico parece tão complicada de fazer pela própria natureza do Direito e pela literalidade de leitura do Texto Sagrado- , a secularização das instituições que teve lugar ao longo do século XX em nada vem de uma sustentável vontade popular.
A laicização da sociedade e da forma de entender o Estado, é em tudo um fenómeno do ocidente europeu e da América do Norte. É um processo que começa com a Reforma Protestante, que com as teorias do Direito de finais do século XVII e com o Iluminismo se consolidam e ganham foro de Lei nas Revoluções Liberais.
Quer no Egipto, quer na Turquia, milhares de anos nos olham com a serenidade do tempo que tudo envolve, mas onde quase sempre os poderes foram absolutos e teocráticos. Os fenómenos de laicização do Direito e da Política em países como o Egipto ou a Turquia, não saíram de um longo processo de maturação de ideias “autóctones”, de um caminho de uma elite através da sua identidade cultural integrada, mas de todo um conjunto de factores de manutenção de poder fora da esfera religiosa, legitimando uma nova elite, os seus lugares e as suas funções.
Na Turquia de Atatturk, a laicização deu-se pela forma de uma revolução que impôs essa mesma laicidade que, na Europa onde nasceu, implicava directamente a Liberdade. É neste jogo de contrários, de uma laicização que é em tudo ideologia política imposta e não vontade popular desenvolvida, que vemos a Democracia, a liberdade de escolha, de ambos os países definir um caminho que potencia a negação dessa mesma laicização.
O fundador da moderna Turquia, com gestos perfeitamente déspotas para as formas de acção que hoje defendemos, proibiu as roupas identificadas com o Islão em 1934, levando à adopção de roupas europeias pela elite nacional. Simbolicamente, a esposa de Ataturk deixou de usar o chamado véu islâmico. A esposa do actual presidente Turco já foi duramente criticada por sectores mais radicais por o usar…
As mudanças nunca se fazem por decreto, nem se importam. Sobretudo quando a tradição está cimentada na identidade religiosa.