quinta-feira, 1 de maio de 2014

Um falso Padre no púlpito


Já aconteceu muitas vezes, mas por estes dias volta a ser notícia um falso Padre que enganou uma comunidade paroquial durante largo tempo. Para além da dimensão ética mas, acima de tudo, judicial, onde surgem roubos, dívidas e dinheiros em diversas variantes, há o lado religioso, o que de mental isso implica nas populações, e o que de canónico se encontra preparado pela (normalmente designada) Igreja Católica, como resposta para situações semelhantes a  esta.
Do lado do crente e a da comunidade religiosa, uma situação desta natureza é um profundo e rude golpe. A prática, a pertença e a identidade religiosa resulta de um acto de dádiva à comunidade em que cada crente como que se abre, se entrega. O pároco é o garante dessa teia de relações onde cada um se expõe, muitas vezes mais que perante a família, porque está exactamente dentro de um grupo onde há um patamar de confiança que apenas o religioso garante – o Padre é, no nosso imaginário, uma figura de isenção devido ao segredo da confissão: numa comunidade religiosa, o Padre sabe do que mais ninguém sabe.
Portanto, acordar um dia com a descoberta de que o pároco a quem tantos entregaram os seus segredos, contaram as suas angústias, pediram conselho, afinal não o era de verdade, torna-se inevitavelmente um grande choque que, em muitos casos, poderá nunca mais ser superado na relação com a figura que deveria ser, pelo entendimento católico, o mais fácil elo na relação com Deus – no universo Protestante o Pastor tem, radicalmente, um papel totalmente diferente pois está liberto desse “ónus” psicológico que é o de aceder a níveis de intimidade que a confissão implica, para além da própria noção de “pastor” que em nada toma a dimensão sacralizada do “sacerdote”.
Contudo, para além deste lado que leva mais para a envolvência que a direcção religiosa implica, temos que olhar para um outro lado da relação pároco / paroquiano: os sacramentos. E neste campo, talvez o mais importante para uma larga fatia das pessoas de facto mais preocupadas com a prática religiosa regular, com uma forte identificação com essas metas e grandes momentos que são os sacramentos, a Igreja católica fez um percurso em muito devedor à experiencia milenar da relação entre a ortodoxia e as margens, muitas vezes até as consideradas heréticas.
De facto, a Igreja Católica em muito remeteu a validade dos sacramentos para o lado da adesão incondicional, plena e imediata, do crente ao que os gestos/símbolos e palavras significam. Portanto, por exemplo, se um baptismo for realizado por um falso Padre, isso não implica a nulidade desse sacramento, a validade não depende do celebrante mas de quem o recebe. Se quem o pediu – porque é isso que o rito diz – o fez de livre vontade, consciente do que fazia, então a Igreja Católica aceita esse baptismo como válido, pois o Padre funciona apenas como elo da transmissão de algo que não era dele.
Nestes casos, obviamente, o maior problema religioso joga-se na confiança que uma comunidade deixa de ter na autoridade eclesiástica, seja o Padre que a pastoreia, seja o Bispo que não detectou esta situação. Uma comunidade onde se deu uma situação destas demorará muito tempo a dar-se na abertura, na espontaneidade e na verdadeira entrega que a dimensão católica implica na triangulação entre Deus / Sacerdote / Crente.

com Fernando Catarino
artigo publicado na nossa secção «Religião na Cidade», na Life&Style do Público, a 9 de Abril de 2014.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Fazer da memória um tribunal de anacronismos. A propósito da memória judaica do Porto e de uma inexistente polémica

Muitos autores nos têm advertido do sentido pernicioso que o olhar para o passado potencialmente apresenta. Entre eles, Fernando Catroga tem trazido ao debate aspectos de mentalidade que se podem colocar debaixo do largo e lato chapéu das influências do judeu-cristianismo enquanto visão da construção do devir histórico.  Olhamos para o fluir do tempo através das categorias moralizadas de Princípio ou de Fim, que se materializam nas de legitimidade, messianismo, escatologia ou punição. Estas categorias são constantes e enformam, mesmo que inconscientemente, um olhar que tantas vezes apresentamos como pretensamente isento, natural, óbvio.

A forma como lidamos, enquanto herdeiros de vitórias militares ou de limpezas étnicas ou religiosas, é obviamente complexa e prenhe de contradições. O nosso olhar para a memória e para as influencias culturais de muçulmanos ou judeus, extintos de Portugal por políticas e acções com as quais hoje dificilmente nos identificaríamos, ganha foros de reconfiguração da identidade colectiva que, sem anular uma identidade cristã, abre portas para redescobertas, pedidos de perdão e tomada de consciência de que, por exemplo, quase nada sabemos sobre essa referida herança porque nunca criámos um lugar digno para os estudos judaicos ou islâmicos.

Hoje, 40 anos depois de última revolução que nos reconfigurou nessa herança de perseguição religiosa e monolitismo cultural, damos passos largos nas políticas, nos estudos, na descoberta de como eram grandes e importantes as comunidades judaica e islâmica portuguesa no século XV - como é impossível compreender os Descobrimentos que nos enchem o ego colectivo sem perceber a cultura e a ciência de judeus e de muçulmanos!

Mas, por vezes, somos assaltados por notícias de acções que em tudo parecem querer destruir este novo paradigma de relação com a nossa própria identidade. E digo assaltados por que estes actos nos roubam a dignidade de cidadãos com direito à memória. É neste quadro que integro a recente polémica em torno das declarações de um Rabi que, sendo líder religioso da comunidade do Porto, vive parte significativa do tempo em Israel, parecendo totalmente alheado e desfasado com o que se passou em Portugal nos últimos 40 anos.

Seguindo a sua lógica, concluímos que somos irremediavelmente inconciliáveis, que somos, por natureza, populações e culturas separadas, que mais vale manter essa separação que procurar plataformas de diálogo. Determinados a estar separados, apenas nos resta a guerrilha e atiçar um fogo mesmo quando ele teima em se apagar.

O mais irónico deste episódio é isso mesmo, o anacronismo das afirmações. Ao longo das últimas décadas tivemos uma mudança radical de actos que foi, acima de tudo, de  consciências. O Presidente da República Mário Soares pediu desculpa em nome de Portugal, o Cardeal Patriarca de Lisboa, José Policarpo, num gesto também pleno de significado, seguiu esses mesmos passos, palavras e actos. O mundo universitário começou a dar lugar à memória sefardita. As comunidades locais, durante séculos perseguidas, dizimadas, mortas, redescobriram essa herança riquíssima de que não se querem afastar, antes pelo contrário, cada vez mais a integram na sua identidade. As autoridades judaicas e as autoridades do Estado de Israel unem-se nestes actos e nestas dinâmicas, valorizando este trabalho em conjunto.

Hoje, depois de todo este caminho, um rabi, alheado de tudo isto, vem dizer que fazer um museu judaico no Porto é um crime à memória dos próprios judeus… Incompreensível como com poucas palavras se tenta destruir o trabalho de anos de diálogo e redescoberta. É compreensível que certos sectores enquistados numa visão fundamentalista da religião não se revejam nos actos que juntam a uma mesma mesa, num mesmo lugar ou numa mesma instituição, gente de diferentes credos e identidades. Estão desfasados do mundo e do tempo, mas todos os grupos religiosos apresentam franjas desta natureza que, infelizmente, com os seus discursos inflamados e cheios de sensacionalismo, determinam a atenção tantas vezes superficial dos órgãos de comunicação, cada vez mais numa ávida procura de sangue e de discórdia.

Contudo, o que de pior trazem ao mundo é a negação do direito à dignidade dos que se sentem herdeiros, continuadores, familiares, dos que durante séculos foram perseguidos, espoliados, mortos. Fosse apenas um e já faria sentido. Mas não, são largos os milhares que todos os anos procuram os vestígios judaicos portugueses para recordar o seu passado enquanto identidade colectiva, enquanto herdeiros dos que, iguais a todos nós, tiveram de fugir ou foram mortos por questões de consciência.

E é essa dimensão de consciência, uma tomada activa e sentida, que é negada pelos escassos que hoje reduzem o sentir de tantos a uma simples afirmação da sua prepotência enquistada no comodismo fácil de afirmar frases bombásticas que impossibilitam o diálogo, fomentam ressentimentos antigos e dão, isso sim, os 15 minutos de notoriedade.

Mas que triste notoriedade.
               

sábado, 1 de março de 2014

Festas de Loucos e Carnavais, com Maquiavel

Recuperando um poema de Maquiavel, ou as Festas de Loucos e Carnavais

Pelo início da década de noventa do século passado, veio parar às minhas mãos a edição portuguesa do livro Festas de Loucos e Carnavais de Jacques Heers (Lisboa, D. Quixote, 1987). Para mim este livro foi um verdadeiro “balde de água fria”. Com a leitura escorreita deste texto, embrenhei-me numa obra onde não encontrava um trabalho feito com base nas típicas definições de historiografia.
Festas de Loucos e Carnavais tanto era um livro sobre História das Mentalidades, sobre aspectos de Cultura e de Sociedade, como de Ideias ou, para meu espanto, era também um excepcional livro de História das Religiões.
Com esta obra de Heers, percebi que uma visão compartimentada da História pode ser mais confortável, pode ajudar-nos a criar e a definir melhor as ideias e os conceitos, mas faz-nos perder parte do essencial. É que, tal como o Carnaval, toda e qualquer actividade humana não se esgota numa das vertentes com que catalogámos a nossa vida nos dois últimos séculos. Não há social sem religioso, não há ideias sem cultura, tal como não há mentalidades sem política e normas que nos organizem.
E nesta transversalidade que é a imagem da complexidade que Edgar Morin tão bem trabalha, não deixo de frequentemente me lembrar do meu espanto quando há uns anos, cantava eu num coro em Lisboa, o saudoso Coral Paradoxal, me colocaram nas mãos uma pauta que indicava que o poema era de…. Niccoló Machiavelli! Mas mais, o poema era sobre o Carnaval!
De facto, com música de Alessandro Cappinus, lá lançámos mãos á obra que fora escrita para o carnaval veneziano de 1502. De' diavoli iscacciati di cielo era a obra que me apaixonaria e me faria recriar uma outra figura por trás do autor d’O Princípe.
E como era, e é, bastante actual, este poema ainda num dialecto arcaico do que hoje chamamos italiano. O título indica-nos que nestes dias os demónios foram empurrados, soltos, do céu. Vieram até nós, que já não somos “beati”.
O caos da quadra era vivido mas, ao mesmo tempo, cantado como algo negativo. Era negativo, mas vivia-se. A Quaresma que no dia seguinte se abria implicava já muita mortificação, jejuns, confissões e medos. Afinal, quando se começa a festejar fortemente o Carnaval deve ter sido pela época em que o Purgatório, os Anos Santos e toda a restante panóplia de espartilhos se consolidaram no mundo cristão, isto é, pelos séculos XI a XIII.
Nesta quadra, aqui ficam dois poemas de Maquiavel, ambos feitos para o Carnaval.

De' diavoli iscacciati di cielo

Già fummo, or non siam più,
spirti beati; per la superbia nostra
siàno stati dal ciel tutti scacciati;
E in questa città vostra
abbiàn preso il governo,
perché qui si dimostra
confusion, dolor più che in inferno.

E fame e guerra e sangue e diaccio e foco,
sopra ciascun mortale,
abbiàn messo nel mondo a poco a poco;
E ’n questo carnovale
vegnàno a star con voi,
perché di ciascun male
fatti siàno e saren principio noi.

Plutone è questo, e Proserpina è quella
ch’a lato se gli posa;
Donna sopra ogni donna al mondo bella.
Amor vince ogni cosa;
Però vinse costui,
che mai non si riposa,
perch’ognun faccia quel ch’ha fatto lui.

Ogni contento e scontento d’amore
da noi è generato,
e ’l pianto e ’l riso e ’l diletto e ’l dolore,
chi fussi innamorato,
segua il nostro volere
e sarà contentato;
Perché d’ogni mal far pigliàn piacere.



Degli spiriti beati

Spirti beati siàno,
che da’ celesti scanni
siàn qui venuti a dimostrarci in terra,
poscia che noi veggiàno
il mondo in tanti affanni
e per lieve cagion sì crudel guerra;
e mostrar a chi erra,
sì come al Signor nostro al tutto piace
che si ponghin giù l’arme e stieno in pace.

L’empio e crudel martoro
de’ miseri mortali,
il lungo strazio e ’nrimediabil danno,
il pianto di costoro
per li infiniti mali
che giorno e notte lamentar gli fanno,
con singulti e affanno,
con alte voci e dolorose strida,
ciascun per sé merzè domanda e grida.

Questo a Dio non è grato,
né puote essere ancora
a chiunche tien d’umanitate un segno;
per questo ci ha mandato,
che vi dimostriam ora
quanto sie l’ira sua giusta e lo sdegno:
poiché vede il suo regno
mancar a poco a poco, e la sua gregge,
se pe ’l nuovo pastor non si corregge.

Tant’è grande la sete
di guastar quel paese
ch’a tutto il mondo diè le leggi in pria,
che voi non v’accorgete
che le vostre contese
a li nimici vostri aprin la via.
Il signor di Turchia
aguzza l’armi, e tutto par ch’avvampi
per inundar i vostri dolci campi.

Dunque, alzate le mani
contr’al crudel nemico,
soccorrendo a le vostre gente afflitte;
deponete, cristiani,
questo vostro odio antico,
e contro a lui voltate l’armi invitte;
altrimenti, interditte
le forze usate vi saran dal cielo,
sendo in voi spento di pietate il zelo.

Dipàrtasi il timore,
nimicizie e rancori,
avarizia, superbia e crudeltade;
risurga in voi l’amore
de’ giusti e veri onori;
e torni il mondo a quella prima etade;
così vi fien le strade
del ciel aperte a la beata gente,
né saran di virtù le fiamme spente.



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Os dois “Budas” de Nova Iorque

No chamado Dia Internacional da Paz, recupero um texto de 2001. Contexto: 11 Setembro.
A reflexão mantem-se actual. Com muita necessidade de se ser actuante.

Os dois “Budas” de Nova Iorque

Com uma eficácia maior que a antes vista aquando da destruição dos dois Budas em Badiyan, as Twin Towers de Nova Iorque ruíram com a simplicidade de apenas um golpe cada, sem falha de pontaria alguma, sem necessidade de utilizar segundas cargas de explosivos.
Alguns meses medeiam entre as duas destruições. Em ambos os casos os alvos foram marcas patrimoniais de um ocidente que define regras e as aplica aos restantes. Também cá foram destruídos templos islâmicos aquando da chamada «Reconquista Cristã» - a Sé de Lisboa terá sido construída em cima de uma Mesquita previamente arrasada … o que de património aí se perdeu, e o que de fundamentalismo se afirmou nesse acto – mas isso não interessa para a História.
O que de comum existe nas duas destruições, a de Badiyan e a de Nova Iorque, é a afronta ao ocidente da materialidade - os budistas têm plena consciência que para a sua doutrina a existência das duas estátuas em nada significa, ao contrário, numa visão diletante e quase coleccionista, o ocidente, auto-proclamado de civilizado, chorou a irreparável perda patrimonial, sem se aperceber que essa irreparável perda patrimonial efectiva do Budismo reside na incessante luta contra o seu centro religioso, o Tibete: sem religiões livres, o património da UNESCO ficará resumido a simples peças, sem conteúdo, sem vivenciação, simples imagem e descrição nos roteiros turísticos.
Em ambos os casos ficou o vazio em seus lugares. Num, o lugar escavado na rocha milenar em que foram esculpidos os dois Budas; Noutro, o espaço correspondente ao reticulado da cidade complexa onde se encontravam os edifícios emblemáticos. Em ambos o imenso vazio que não mais se poderá ocupar.
Por mais estranho que possa parecer, a luta, em ambos os casos, não é religiosa. É no campo da crença que a afronta se afirma, não no campo do corpus fundamental do fenómeno religioso.
É que a crença não é nem nunca foi religiosa; Esta é a aferição essencial a fazer. A crença radica naquilo que de mais baixo tem o espírito humano: o seguidismo cego, autista, nulo de capacidade cognitiva alguma. Alterando as palavras do poeta Eles não sabem nem sonham que a crença comanda a vida … A Religião, na sua dimensão inevitavelmente teológica, não é o ópio do povo, a crendice é que ocupa esse lugar proeminente nas sociedades humanas, religiosas ou não.
A crença, quando religiosa, não toma qualquer conteúdo teológico – a teologia, por mais simples e simplista que possa ser, implica sempre, tal como qualquer actividade intelectual, uma atitude cognitiva. A crença não é activa na cognição, no esclarecimento de si. A crença move-se na exacta medida em que aponta o outro como seu diferente, seu inimigo para a sua plena concretização.
A crença é, sim, um instinto e uma identidade. Ao ser um instinto implica o seu aprofundamento até às últimas consequências sem que haja alguma capacidade argumentativa contrária; ao ser uma identidade alimenta-se da fraqueza de todos os restantes factores de identidade – quando tudo se perde, a crença comum preenche-se com os sentidos perdidos nos restantes campos (territorialidade, administração e policiamento, capacidade bélica, afirmação económica).
É pela crença num capitalismo desmedido, é pela crença num islão fundamentalista, é pela crença num catolicismo inquisitorial, é pela crença num ideal de cruzada, é pela crença numa visão racista que se dá a vida e que se tira a vida.
Texto publicado na revista Viragem, nº 39.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Mandela | Vida

Numa vida inteira que viva, não deverei conhecer ninguém como Mandela. É hoje uma marca de egoísmo que tenho e que quero afirmar na minha pequenez. Não conheci Mandela. Dificilmente no meu tempo, entre os vivos, aparecerá outro ser humano da sua grandeza.
                                                    
Apenas posso falar disso que é um não conhecer. Mas tantos são os “que não conhecemos” que nos entram por casa dentro nos noticiários! Com Mandela era diferente. Ele não nos entrava pela casa dentro. Ele sorria à porta e pedia licença.
                                             
Que história de vida, e que capacidade para nunca abandonar aquele sorriso que lhe marcava sempre o rosto. Ao mesmo tempo frágil e tenaz, Mandela era uma imagem que cativava pelo que ela representava de impossível. Ele era Utopia transformada em pessoa, em ser, e em colectivo.
                                                 
A História, todos a sabemos. Da luta, da prisão, da liberdade, da unidade, dos desafios e da construção de uma Nação. E exactamente porque todos a sabemos é que ela é de uma magnitude que foge ao comum dos estadistas. É que Mandela não era um estadista. Ele era muito mais, era um líder que interpretava, de facto, um povo e um pais.
                                                    
E era um líder, não dos que lideram porque vencem eleições, mas dos que lideram porque a sua acção faz com que todos nele vissem uma capacidade e um exemplo acima de todas as definições da acção política.
                           
A África do Sul não está de luto. Bendita a Pátria que tal Filho teve! Poderíamos dizer seguindo o poeta.
                                              
De luto estamos nós que não conhecemos Mandela. Não do luto de uma morte, mas do luto de uma vida sem ninguém da sua escala que nos lidere.


sábado, 23 de novembro de 2013

Anti (semitismo - judaísmo - israelismo – sionismo): algumas diferenças

Cada vez mais urge olhar para as palavras que usamos com um cuidado redobrado, fugindo à leveza da fugacidade das realidades passageiras.
De facto, no actual mundo do fast food intelectual e cultural, assistimos constantemente ao abusivo uso de determinados conceitos, de vocábulos que nasceram com definição clara do seu sentido mas que, pelo seu uso muitas vezes irresponsável, o perderam por completo, lançando um caos pantanoso onde tudo pode ser dito.
Não se trata de um purismo linguístico, mas sim de um esforço que é necessário fazer para afastar muitos mal entendidos e muitos juízos de valor.
E é importante tratar as realidades com os nomes que, de facto, se lhes aplicam, porque os nomes, as palavras, querem dizer alguma coisa, criam nuances de sentido, subtilezas de pensamento. A generalização de certas expressões que deixam de ter um sentido claro é uma das mais profundas provas de iliteracia.
O caso dos quatro vocábulos usados em título é significativamente importante porque nos obriga a um exercício de pensamento em que se separam fenómenos diferentes. Sem se compreenderem, nas suas especificidades, esses fenómenos, podemos estar a lançar os conflitos para campos ainda mais dramáticos, criando assim uma nova conflituosidade.
Esta conflituosidade criada nas opiniões mediante o uso de certas expressões, pode levar a reacções extremadas por parte de grupos islâmicos e judaicos, dificultando o diálogo e lançando ainda mais discórdia: o uso errado de certas palavras leva-nos para um horizonte de criação de uma guerra virtual em torno de judeus, islâmicos e “ocidentais”.
Historicamente, o «anti-judaismo» nasceu primeiro. Baseado na ideia de que os judeus mataram Jesus, o Cristo, o Deus Vivo, criou uma mácula que se estendeu por dois milénios. Culpados do deicídio, os judeus foram perseguidos por praticarem uma religião que conduziu a esse crime máximo, constantemente considerados um dos males do mundo.
«anti-semitismo» difere da noção anterior porque perdeu a carga religiosa e se abriu ao horizonte cultural mais largo do mundo semita. Um anti-semita não persegue um judeu porque ele pertence a uma religião, a um grupo humano, que optou por matar Jesus.
O anti-semitismo existe porque vê nos judeus os descendentes de uma raça inferior, os semitas. Ora, duas considerações há a fazer: 1) este fenómeno está plenamente enquadrado numa Europa que não integrou as comunidades judias, e que via nelas algo de exterior a si mesmas (os semitas não eram europeus, eram asiáticos); 2) esta palavra teve maior expressão aplicada a judeus, mas designava genericamente todas as populações com origem no Médio Oriente, incluindo árabes e islâmicos.
Desta forma, o que se passa em Israel, na Palestina e no Líbano nunca pode ser designado como anti-semitismo: ambos, palestinianos e israelitas, são semitas.
Donde, é a noção de «anti-israelismo» que deve ser lançada em campo em detrimento da anterior. E este campo já pouco tem a ver com a religião, já pouco tem a ver com a visão de raças inferiores, em tudo tem a ver com uma delimitação de um estado, em tudo tem a ver com a definição das fronteiras e com as resoluções da ONU que obrigavam Israel a confinar-se a uma determinada linha fronteiriça.
Ser anti-israelita não implica uma posição antisemita. Um dos «anti» é de natureza “rácica”, o outro, é de natureza política.
Mas, obviamente, nada é linear. Transversalmente, há ainda a ideia de «anti-sionismo», conceito de mais difícil definição. O moderno sionismo nasce no século XIX e tem como objectivo o restabelecimento de uma pátria judaica no espaço do antigo Israel. Muito do anti-semitismo do século XIX nasce por oposição às linhas de poder de grandes famílias judias que fomentaram esses discurso de regresso à Palestina.
Para muitos, esse regresso implicava um domínio completo e total da região, e não apenas de um território mais pequeno. Pretendia-se, miticamente, alcançar os vastos domínios de David e de Salomão, recriando uma certa ideia de império, de domínio muito acima do nacional.
Complexificando ainda mais um pouco, o facto de o Estado de Israel ser um Estado Judaico, e de os judeus pelo mundo fora se sentirem solidários com essa nação (muitas vezes com dupla nacionalidade simplesmente por serem judeus), provoca o esbatimento dos conceitos anteriores. Por analogia, as reacções às comunidades judias fora de Israel são como que um ataque a Israel na medida em que há uma relação próxima entre essas duas realidades.
Muito se ganhava se as palavras fossem usadas correctamente. Muito do que de conflito latente se tem criado na Europa poderia ter sido talvez evitado, ou amenizado, se quem escreve ou fala sobre estas questões não falasse, por exemplo, constantemente em anti-semitismo, relançando um fantasma que, agora, quase não existe. Se continuarmos a falar tanto dele e da forma como o temos feito, talvez o ressuscitemos ...
Texto publicado no jornal diário Público, a 13 de Agosto de 2006.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

União Europeia / Turquia: o regresso da noção de cristandade?

Queiramos ou não, gostemos ou não, todas as nações apresentam na sua estrutura identitária dados vindos do mundo religioso. Portugal é um país de base cultural católica. Sejamos, de facto, católicos, ou então evangélicos, protestantes, budistas, judeus, ateus ou laicos, etc, não nos podemos esquecer que a nossa cultura nasceu e se desenvolver num contexto que privilegiou secularmente um credo; só em 1974 o catolicismo deixou de ter lugar consignado na Constituição; só em 2001 foi votada uma Lei de Liberdade Religiosa – é significativo.
Somos inconscientemente herdeiros de um passado irrevogável, e através dele nos apresentamos profundamente marcados na nossa forma de estar e de viver o mundo e os seus problemas.
Não está certo nem está errado: é um facto histórico com o qual temos de conviver e que devemos ter presente sempre que pensamos em cultura em Portugal. Dependente de Roma e do catolicismo, ou afirmando-se a ela irreverente e tomando formas de recusa, toda a nossa cultura não passa ao lado desse realidade: a base católica do país.
Toda a Europa comunga da mesma noção identitária, mais ou menos enraizada nas suas gentes e nos seus hábitos.
Durante longos séculos, no Ocidente medieval, mais que reinos, principados e condados, havia a grande mole que identificava o todo colectivo, a «cristandade». De facto, a génese da cultura ocidental está profundamente ligada à noção de organização do mundo que tem em dados imaginários e simbólicos os principais referentes da construção geográfica.
Mais que identidades políticas autónomas, a cultura medieval, onde Portugal logicamente se inclui, tinha como fundamentais referentes do espaço categorias simbólicas e espirituais. O horizonte geográfico era um horizonte espiritual. A Europa, os Estados-nação, construíram-se mediante uma identidade que era, essencialmente, religioso-simbólica: a ideia de cristandade que se afirmava face aos que o não eram.
A contínua polémica em volta da retoma das negociações para a entrada da Turquia na União Europeia trouxe novamente esta identidade ancestral da Europa ao de cima.
Porque é que a Turquia, segundo, entre outros, Valery Giscard d’Estaing, não pode entrar para a EU? Está fora da Europa? Será por isso?
Pode ser, levado em sentido estrito, de facto. Grande parte do território da Turquia não se encontra no continente europeu, o mesmo se passando com a sua população. É um argumento que pode parecer lógico, mas não satisfaz. A delimitação entre Ásia e Europa é significativamente artificial; basta ver que a Rússia engloba há séculos territórios de ambos os lados e em nada isso fez perigar a sua unidade; são as escassas centenas de metros de mar que dividem ao meio a antiga Constantinopla que marcam uma radical diferença entre povos?
Ora, o que se passa é que a Turquia será o primeiro pais da União Europeia a não ter como base religiosa o cristianismo numa das suas versões históricas: catolicismo, ortodoxismo ou protestantismo.
Durante séculos o Ocidente europeu fez cruzadas para afastar o muçulmano da Terra Santa; durante séculos os Papas exararam bulas a exortar à guerra contra o “infiel”, e os reis da cristandade responderam a essas bulas com sangrentas conquistas.
Durante séculos o muçulmano foi, de facto, o grande “papão” da Europa. Temos um grande preconceito que vem do século VII da nossa era em relação ao Islão.
Foi com esse preconceito, com essa visão negativa do “outro” que construímos a nossa identidade. É nos impossível ultrapassar essa herança de forma fácil. Pode a Turquia entrar para o clube das nações da Europa?
Pode a Turquia juntar-se ao grupo de países que durante séculos viram o seu espaço e a sua religião como a principal marca do demónio no mundo dos homens?
Que sabemos nós sobre a cultura turca? Sobre o Império Otomano que normalmente é totalmente esquecido nas nossas disciplinas de História?
Nada. Somos, nós Europeus, totalmente desconhecedores dessa realidade culturalmente riquíssima que é a Turquia, herdeira do grande Império Otomano. Só o pré-conceito existe. Nada de conhecimento.