sábado, 4 de outubro de 2014

Rosh Hashanah - Início do Ano Novo judaico - 1 de Tishrei (ao pôr-do-sol de 24 de setembro)


O início do Ano Novo na tradição judaica encontra-se profundamente ligado à ideia de renovação. Normalmente, os calendários encontram muitas vezes ciclicidades ligadas ao mundo agrário, aos ritmos da natureza, às ideias de renascimento e de morte, seguindo as estações do ano. No caso judaico tal pode acontecer, mas o sentido profundo teológico encontra-se na própria ideia de Criação do Mundo.
De facto, as tradições rabínicas colocam a abertura do ano nesta data porque é aí que, interpretando os Textos Sagrados, a Torah, se definiu ter sido criado o mundo. Assim, este início de ano é um momento absoluto e único que, não apenas marca e festeja essa data primordial, como liga toda a comunidade ao que de essencial ela representa. No livro de Levítico 23: 24, na referida Torah, fala-se no dia Dia da Aclamação. O sentido é o de ligação ao momento primeiro da Criação e, obviamente, ao próprio Criador.
Assim, este dia é, verdadeiramente, o momento de reflexão e de balanço de todo o ano anterior. No primeiro dia do ano dá-se início a todo um período de meditação em torno das falhas marcadas, muitas vezes, pelas imagens das desobediências e dos erros dos personagens do Génesis bíblico, seja Adão e Eva, ou mesmo Caim.
Passagem de um ano a outro, para algumas tradições, este dia é o Dia de Julgamento, o dia em que o Criador faz o balanço entre os justos e os ímpios. Na espiritualidade de cada um, este primeiro dia do ano abre dez dias de reflexão que terminam no Dia da Expiação, o Yom Kippur.

O Ano Novo judaico, mais que um evento de celebração, com os seus rituais e orações próprias, é um tempo de meditação, de balanço e de avaliação.

sábado, 20 de setembro de 2014

Frei Bento Domingues, reinventar a criança em nós

Frei Bento Domingues foi ontem homenageado num plenamente cheio auditório da Fundação Gulbenkian. Ouvi falar sobre ele. Ouvi-o a ele falar. E era imperativo escrever sobre esta figura que tanto me marcou, e cada vez mais marca.

E é imperativo trazer Frei Bento à luz destas linhas porque elas nunca lhe poderão corresponder. Por mais que martele nas teclas, delas nunca daqui sairá o sorriso que é seu apanágio. Sim, em Frei Bento, é o seu sorriso contagiante que mais facilmente nos deixa desarmados, provocando-nos um inevitável transtorno. Um sorriso que é imagem do que devíamos dar a nós mesmos como seres humanos - a arte de sorrir, o tão difícil keep on trying, smile, seguindo Chaplin. Frei Bento desarma-nos numa luta que é o colocar-nos ao espelho. Essa é a sua principal arma.

E essa tal arma ele usa-a de forma tão simples e tão desconcertante que muitas vezes nos deixa sem saber o que é acaso e o que é pensado. De acaso nada tem, mas de pensado, muito menos. E é neste jogo de tantos inesperados que por vezes deixamos de saber o que é a sério e o que é a brincar, o que é crítica e o que é gozo, acima de tudo, o que é ironia (se o "a sério" tiver fronteiras muito definidas, reduzimos tudo aos maniqueismos simplistas de tudo arrumar em bom e em mau - não me parece que Frei Bento nos resuma e nos arrume dessa forma).

Há alguns anos, num baptizado, uma amiga, estupefacta com a forma como o Frei Bento se entrosava com as crianças durante a cerimónia religiosa, perguntava-me, espantada: "ele é sempre assim?". Pressenti ainda uma segunda questão, encapotada na primeira: seria “estilo”?. Sim, ele é sempre assim, disse eu, acrescentando como resposta à pergunta não feita, que não era estilo, era feitio! E é mesmo. É feitio, é forma de ser e de agir que sai espontaneamente, sem treino, sem pensar como sai na fotografia.

Estava ontem sentado num elegante sofá da fundação, aguardando com a minha filha a conferência do Dimas de Almeida, quando ouço da voz de uma jovem uma frase que reconheci logo. Dizia a jovem de pouco mais de 20 anos a alguém que poderia ser seu avô que ele, o Frei Bento, se o encontrasse lhe perguntaria logo se era feliz.

Reconheço essa frase, essa forma de contender picando-nos com uma afirmação que nos deixa descalços, uma frase que, no seu quê de aparentemente simplista, nos reduz a um simples essencial: a felicidade.

É de uma simplicidade existencial que nos choca. Quantas vezes paramos para nos perguntarmos se somos felizes? Esgotados no frenesim do momento presente, um momento ao ritmo dos SMSs, dos telemóveis e dos facebooks que nos geram amigos nunca vistos, vivemos estasiados por alegrias efémeras, incapazes de felicidade prolongada.

E, voltando às crianças e aos sorrisos, tudo o mais, é a máxima de Jesus, a figura que ele segue tão apaixonadamente. Se Jesus dizia "deixai vir a mim as criancinhas", então Frei Bento ensina-nos e pratica-o afincadamente, na simplicidade de ser criança. Sendo criança, irrequieto, capaz de brincar, essencialista, Frei Bento solta-nos das amarras de uma adultisse sem humanismo. O humanismo ele encontra-o e constrói-o no sempre ser simples, como uma criança.

E como criança. No dia-a-dia das necessidades desse mesmo quotidiano, Frei Bento faz algo a que damos o nome pomposo de Teologia. Mas não é isso o que ele faz. É que o mais sábio de tudo é saber que os caminhos não se encontram prontos, qual prêt-à-porter. Não são os artigos certos dos catecismos e dos dogmas que nos indicam o caminho a seguir. Ou melhor, indicar, indicam, deixa é de ser caminho. Porque o caminho faz-se, na frase batida, caminhando, não seguindo.

Na irrequietude e na inquietude, Frei Bento apenas nos diz o fundamental: Só sei que não vou por aí.








sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A instalação da desesperança

Desde 2001 que muito se tem falado sobre fundamentalismo religioso. Mais que saber e compreender os fenómenos fundamentalistas, criou-se o hábito de para aí tudo remeter, de nesse grande invólucro dar guarita a tudo o que, tendo algum aspecto religioso no seu facies, criava incómodo ou afrontava o "ocidente".
Contudo, é de desmontagem fácil a noção de fundamentalismo religioso, tal e qual ela vezes é aplicada. A leitura e interpretação literalista de Textos Sagrados não é, por si só, geradora de violência e criadora de conflitos. Uma suposta teologia fundamentalista apenas gera seguidores em ambientes de falta de cultura religiosa e, sobretudo, de falta de esperança através dos modelos de valores vigentes. E o mesmo é válido para o universo das ideologias políticas, pelo que o problema não é nem religioso, nem político, mas essencialmente social e cultural.
E é aqui, na "desesperança" que radica o centro do problema, não só dos fundamentalismos no seu todo, mas especificamente na capacidade de certos movimentos arregimentarem jovens para acções de terror com uma violência extrema.
No chamado "ocidente", são milhões os jovens sem emprego, sem perspectivas de futuro semelhante ao que foi consignado pelo American way of life que todos almejamos através da publicidade com que somos bombardeados diariamente. A verdadeira realidade do emprego, da educação, da saúde, e mesmo as visões políticas, económicas e financeiras geraram uma mole imensa de desesperançados no actual sistema de governação. Cada vez temos mais sintomas desta doença civilizacional que se manifesta, por exemplo, na grande abstenção e no crescimento dos partidos políticos radicais.
No chamado "Médio Oriente", o já referido "Ocidente", num quadro em que já nem os ditos "ocidentais" acreditavam no seu modelo, tentou-se impor normas e uma visão do mundo, o que levou aos desastres tremendos a que todos hoje assistimos. Libertou-se o Iraque de um ditador, mas deixou-se o Iraque na situação que todos conhecem, em que o auto-proclamado Estado Islâmico é apenas o último acontecimento desastroso de uma desestruturação social e cultural imposta por uma visão externa totalmente desconhecedora daquilo que fazia, muito menos das suas consequências.
Em ambos os casos, os fundamentalismos, sejam os vindos de ideologias políticas, sejam os supostamente religiosos, alimentam-se desta desesperança, desta incapacidade de gerar valores e de criar perspectivas e horizontes. Incapazes de gerar utopias que alimentem vontades positivas e gerem futuro, o "Ocidente" esvai-se em protestos internos e guerras externas.
Até onde irá correr esta sangria, é mistério para o qual nem os mais doutos especialistas dão previsões. Os desafios que se colocam nas políticas internas e externas são de natureza completamente diferente dos paradigmas anteriores.

Se até agora os radicalismos se alimentavam da fome para acenar com um futuro, um modelo, agora alimentam-se da falta de modelos e de futuros. Combater a desesperança com "mais do mesmo" apenas vai fazer alastrar o Iraque a muitos outros iraques, uns fora de portas, outros bem cá dentro.
             
Artigo no Público a 30 de agosto último.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Liberdade Religiosa e deveres perante o trabalho

Depois de várias polémicas sem resolução clara, a recente decisão do Tribunal Constitucional, que veio dar razão a uma cidadã adventista no seu direito a não trabalhar ao sábado, parece ter vindo criar uma jurisprudência que virá ser a norma na resolução de muitos mais casos como este.
A interpretação que era até agora dada da Lei de Liberdade Religiosa apontava para que a possibilidade de adaptação do horário individual mediante as práticas religiosas tivesse lugar num quadro em que já houvesse uma flexibilização de horários e quando, obviamente, essa alteração em nada beliscasse a produtividade.
Hoje, com esta nova posição dos juízes do Constitucional, é afirmado esse direito como fundamental no quadro das liberdades individuais. No fundo, como parte constitutiva da base e da identidade do ser e do indivíduo perante o colectivo que é o Estado, do que é inalienável enquanto direito constitucional.
E, realmente, é nesse patamar que a questão deve ser equacionada se, porventura, quisermos olhar para a liberdade religiosa como um elemento de consciência e não apenas como mais um proforma. No fundo, o que temos perante nós é a tensão entre o direito à liberdade de consciência e o dever de respeitar as normas do trabalho.
Mas em termos teológicos e de mentalidade, a questão é bem mais profunda. A questão é antiga e remonta a uma das mais antigas funções religiosas do Mediterrâneo: o prover de alimento, de paz e de estabilidade social. No limite, para o crente, quem provê do sustento? O trabalho, o empregador, ou Deus a cujos “representantes” muitas vezes, entrega parte do seu rendimento do trabalho, exactamente porque os encara como dádiva?
É que o trabalho, mais uma vez, num sentido teológico, não é apenas o que se consolidou como imagem dominante em parte da cultura católica: o trabalho como uma pena, um resultado da “queda” e do pecado original. O célebre “pão que o diabo amassou”. Não, nas culturas de raiz protestantes e judaica, a ética do trabalho sedimentou-se numa visão teológica em que o trabalhar é a continuidade que o homem realiza em relação à Criação divina. Portanto, trabalhar não é castigo; trabalhar é continuar a acção de Deus através de um mandato em que o planeta lhe foi entregue.
E aqui, olhar para o universo, o tempo, os momentos de trabalho, já implica uma instrumentação mental completamente diferente para se perceber o que está realmente em jogo.
Não se “falta” ao trabalho no sábado porque se vai participar num rito. Mesmo que no sábado se participe num rito, a essência do “sábado” não se encontra no rito. No limite, há uma diferença radical entre o participar num ritual ou o aparente nada fazer…  participar num rito pode, algumas vezes, ser adiado, como no caso de uma oração. Contudo, o fruir, o correr do tempo, reside já no patamar da plenitude do entendimento do sagrado. Manter todo um dia sem trabalhar, como o defendem judeus ou adventistas em relação ao sábado, dedicar um tempo inteiro e pleno a um aparente “nada”, é, de facto, a máxima santificação.
Na sua raiz, a palavra «sacrificar» significa «fazer sagrado», tornar sagrado. E santificar um dia é isso mesmo, sacrificar esse dia, tornando todo o tempo e espaço em sagrados. Não há possibilidade de, em consciência, um crente relativizar este princípio. Ou é, ou não é. Não pode ser parte, ou um pouco mais tarde.
E não pode ser alterado por regra humana porque, mais que tudo, esse tempo de dedicação ao seu sagrado é imagem de algo profundamente ordenador do mundo. Guarda-se o sábado porque nesse dia Deus descansou depois de completada a Criação. Portanto, guardar esse dia é repetir o acto e gesto primordial de ordenação do mundo.
Nas tradições do Mediterrâneo, quando por regra religiosa se para de trabalhar, é porque se está a glorificar esse mesmo trabalho, colocando-o à altura do que de mais importante existe.
É uma rotação brutal na forma como nos habituámos a olhar para a ética do trabalho. Mas a produtividade poderá ser a primeira a agradecer.



Com Fernando Catarino, na Life&Style do Público, a 6 de Agosto passado.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Circuncisão: O Estado na definição dos deveres dos pais

O início deste ano de 2014 parece estar a consolidar uma polémica que começara já no ano anterior em torno da circuncisão por motivos religiosos. A polémica estalara na Alemanha, mas também parece correr na Dinamarca e noutros países escandinavos que já apresentaram recomendações contra esta prática no Conselho da Europa.
A base das propostas que defendem a proibição de tal prática reside na valorização dos direitos da criança em relação à manutenção das práticas das tradições religiosas. Neste caso, o Judaísmo e o Islão são os alvos desta onda.
Obviamente que esse campo do Direito deve ser invocado. Depois de milhares de anos a menosprezar os menores, tratando-os quase sempre de forma sub-humana, fica “bem” à Europa finalmente colocar as crianças num lugar de direitos inquestionáveis.
Contudo, esta postura implica uma certa inversão na responsabilidade educativa e de identidade das crianças. Quais os direitos e os deveres da progenitura? Onde termina e como se define o que de espiritual os pais podem transferir para os filhos como parte de uma identidade colectiva, e quais os limites para as marcas que esses actos podem implicar?
Para a tradição bíblica, seguida por judeus e por muçulmanos, a circuncisão é a marca da primeira grande aliança entre Deus e o seu povo, na pessoa de Abraão. Pode-se encarra, sem esforço, que a circuncisão é a principal marca de identidade ritual nestas religiões. Mais que identidade religiosa, é identidade cultural e sentido de irmanação com os antepassados e o que eles representam.
De facto, ao retirar o prepúcio, os pais estão a efectivar na criação, a repetir o gesto primordial, da aliança que a sua religião representa. Daqui se percebe que a circuncisão é um acto central e nunca se pode comparar com a mutilação genital feminina que em nenhuma religião tem foro minimamente semelhante - para além de a circuncisão não minimizar ou retirar nenhuma capacidade ao homem, ao passo que o mesmo não se aplica no caso feminino.
Para os pais, circuncidar é, sim, tornar sagrado aquele bebé, integrando-o nos laços de uma aliança primordial. E tornar sagrado, no sentido primeiro da expressão, é sacrificar – sacre facere. É um sacrifício porque torna sagrado.
É claro que a nossa sociedade está numa deriva de protecção à criança que deve equacionar os limites da acção dos pais a muitos níveis. Mas a eventual proibição de actos milenares que, feitos segundo as regras estabelecidas há séculos, em nada fazem perigar a saúde da criança, nem lhe retiram capacidades na vida adulta, é imagem de um autoritarismo que nega em absoluto o papel e o lugar dos pais na passagem da sua cultura e identidade.
Mais, este universo de proibições, as do campo religioso, acabam sempre por definir muito mais que o simples acto que procuram banir. Neste caso concreto, são dois os grupos religiosos abrangidos: judeus e muçulmanos.
Num tempo em que tantos movimentos extremistas se revigoram na Europa com vitórias eleitorias que nos devem deixar alarmados, proibir a circuncisão tem um nada leve tom a déjà vu.

O que proibiremos a seguir?
           

Com Fernando Catarino, na Life&Style do Público, a 6 de Maio passado.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Um regresso às praias do Meco - ou, o fascínio (mórbido) pelo iniciático

No meu entendimento, obviamente tolhido pelo defeito profissional, o “caso das praxes no Meco” trouxe à face visível da nossa cultura popular o lugar que os rituais iniciáticos detêm na nossa mitologia urbana. Enquanto historiador das religiões, tenho assistido a um constante fascínio que tudo o que é “iniciático” tem tido, de forma crescente, no nosso imaginário colectivo.
Dos “pactos de sangue”, aos Iluminatti de vários romances e filmes; das recorrentes teorias da conspiração, à existência de uma “ordem mundial” escondida; do efectivo grande crescimento que as ordens iniciáticas mostram hoje (das mais antigas às mais recentes e menos ligadas a alguma tradição), às constantes notícias que os nossos media veiculam sobre os poderes da maçonaria; muito no nosso dia-a-dia gira em torno do medo, muitas vezes do pânico, desses poderes escondidos que pretensamente nos manipulam.
De facto, num fascínio que faz vender livros, esgotar salas de cinema e vender jornais, cimentou-se plenamente essa ideia que nos diz que há sempre um “big brother watching you”… Mais, esse “big” em nada é “irmão”, fraterno, apenas deseja oprimir, esgotar recursos, sugar tudo à sua volta e dominar o mundo, qual regresso das teorias mais aberrantes do século XIX que desaguaram nos fascismos do século XX – com os medos colectivos e irracionais cimentados em obras como o Protocolos dos Sábios de Sião, regou-se o ódio que terminaria no Holocausto.
Hoje, muito longe de se buscarem responsabilidades no indivíduo que é cada um de nós, segue-se o caminho fácil de um bode expiatório que, no melhor sentido conspiracionista, não se conhece, não se vê, operando por poderes de controle emocional e por juramentos de um poder tremendo. É a porta para o “eles” que pulula nas conversas de café.
Seja a Maçonaria ou o Opus Dei, realidades existentes mas totalmente desconhecidas para quem faz juízos rápidos, ou os conteúdos dos romances de Dan Brown, tudo se gere emocionalmente no mesmo patamar de realidade, confundindo o que não é confundível. Vive-se a realidade muitas vezes como se fosse um longo romance em que, num sentido telenovelístico, há sempre um lado oculto, uma maquinação, uma dimensão escondida. Sim, porque “eles” estão sempre aí! Especialmente quando não se vislumbram… não os ver é prova de que nos observam e dominam….
E esta mentalidade mítico-ficcional emerge nos mais variados momentos, como foi o caso da tragédia da praia do Meco. Em poucas semanas se amontoaram supostas provas claras de que se tinha tratado de um rito de praxe, com alta pressão psicológica, senão, mesmo, domínio da personalidade, em que um grupo de jovens se tinha deixado manobrar totalmente por um superior hierárquico, numa prova que determinaria a passagem a novas funções.
Os indícios eram dados como provas e o quadro implicou mesmo verdadeiras reconstituições das praxes que teriam ocorrido na malfadada noite. Tudo as televisões, os jornais e os consumidores conseguiram colocar no quadro jornalístico para criar um rito iniciático de grande violência e total alheamento das capacidades de decisão.
No final do inquérito, o que fica? Exactamente um grande nada. Esse vazio de provas em relação aos ritos de praxe num limite tão grande do domínio da personalidade, apenas corresponde ao desejo que tivemos de que elas existissem.
Desejamos ardentemente, e a todo o custo, ver em todo o lado esse papão da prova iniciática, do meio e das personagens que dominam.
Incapazes de decidir, de optar e de fazer grandes mudanças, precisados de ser dominados, sonhamos que vivemos enclausurados, não percebendo que a liberdade estaria na capacidade de interrogar e de questionar o que nos colocam à frente como verdade…
Esta é a mais perigosa das alienações: já nem precisamos que nos dominem; alienamo-nos através dos desejos do nosso inconsciente.
                   
Artigo no Público, a 7 de Agosto último.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O Papa, a amamentação e o barulho das crianças

É quase unânime que o papa Francisco tem tomado muitas iniciativas e posturas que, longe de alterarem os dogmas propriamente ditos, em muito beliscam as posturas e as formas instaladas que definiam o que era o ser cristão católico. Um dos campos mais interessantes encontra-se na forma mais aberta, mais leve, mas também mais na essência dos próprios rituais religiosos.
Olhemos hoje um pouco para temas que aqui na Life&Style são residentes: família e crianças. Ora, Francisco tem inovado bastante no que respeita a algumas posições mais restritivas que grande parte do clero católico tinha adoptado. O facto de o Papa ter batizado o filho de uma mãe solteira e a filha de pais casados civilmente, não se afigura como uma novidade teológica muito grande nem uma evolução (como chegou a ser dito), mas é um sinal, entre muitos outros, que o Sumo Pontífice passa para a hierarquia.
Mas Francisco tem ido ainda mais longe, especialmente quando olhamos para a forma como quer enquadrar, enquanto normalidade, as acrianças nos ritmos das práticas católicas. Numa recente cerimónia, bem ao jeito do Bergoglio que obviamente habita por baixo das vestes imaculadamente brancas do Papa, Francisco desdramatizava aquilo que tantas vezes é empolado e condenado nas celebrações católicas um pouco por todo o mundo: as crianças, na sua irrequietude e, muitas vezes, com o choro, atrapalham, desconcentram e retiram dignidade ao momento eucarístico.
Ora, o papa sugere mesmo que o coro que cantava na cerimónia se ouvirá, sim, mas as crianças não deixarão de se ouvir também, nem devem ser recriminadas por chorar, uma vez que, elas são "o coro mais belo".
Mas dentro de um certo puritanismo que nos contagiou ao longo dos séculos XIX e XX, Francisco recoloca o essencial da maternidade no centro devido, até em termos teológicos. De facto, ao longo dos tempos, as rotundas Virgens do Ó quase desapareceram dos altares, assim como as ainda mais impúdicas Virgens a amamentar. Numa religião e numa confissão que tanto se move e se inspira na dimensão da maternidade e da concepção, esta é uma ironia que demonstra o muito esforço que a Igreja fez em afastar a natureza mais humana do seu espaço mental.
Já numa entrevista, Francisco tinha desdramatizado a necessidade das mães darem de mamar às crianças durante as cerimónias papais (geralmente demoradas). Ora, várias vezes o voltou a fazer publicamente, afirmando que as mães não devem ter complexo algum em amamentar durante a cerimónia em causa, que o mais importante são mesmo as crianças e, se elas têm necessidade de comer, pois que se alimentem.
Por definição, as celebrações (religiosas, ou não) são momentos de festa, de alegria, de reunião de amigos e de pessoas que partilham uma mesma fé. A forma como o Papa desdramatiza estas duas questões, a naturalidade com que as apresenta e a alegria com que as transmite é reveladora daquilo que pretende para a Igreja. Uma Igreja que se quer mais aberta, mais acolhedora, mais festiva. Agora resta saber se o exemplo será seguido…

Com Fernando Catarino, na Life&Style do Público, a 6 de Junho passado.