sábado, 6 de dezembro de 2014

Em tempos de morte da natureza, a ideia de renascimento

Desde a mais remota Pré-História que o marco geométrico da duração do dia deveria ser sinónimo de práticas religiosas muito importantes. Nas regiões mais a Norte da Europa, onde no Inverno o Sol se punha durante semanas a fio, eram enviados verdadeiros heróis para o cimo das mais altas montanhas para que testemunhassem o regresso do astro rei.
Também na Mesopotâmia, da qual somos em muito herdeiros, era em torno do dia mais curto que se celebravam algumas das festividades mais significativas. Naturalmente, o dia mais curto anunciava o nascer de uma época nova em que o Sol voltava a dominar crescentemente o horizonte, vindo cada vez mais os dias longos. A noite mais longa, era também a marca do fim do seu reino e o prenúncio da vitória do Sol e da luz.
No tempo de Jesus, a data do solstício de Inverno era marcada pela principal festa em honra de Mitra, o deus Princípe do Bem, oriundo do panteão persa e elevado a uma das principais divindades cultuadas no Império Romano.
O dia do Sol Invicto será, ainda em Roma, a festa que evoluirá, em grande medida, das Saturnálias, em honra de Saturno, para o culto ao Imperador.
 
No universo, venera aquele que está mais alto; nomeadamente, Aquele a que tudo o resto serve, e que dita a lei para todos. Da mesma maneira, venera o mais elevado em ti mesmo: ele constitui, com o Outro, uma só peça, uma vez que em ti próprio também reside aquilo a que tudo o resto serve e pelo qual se rege a tua vida.
Marco Aurélio, Meditações, livro 5, 21.
 
Esplêndido te ergues no horizonte do céu
Ó Aton vivo, criador da Vida;
Quando surges no horizonte do oriente,
Enches as terras com a tua beleza.
Tu és belo, grande, radioso,
E estás acima de todas as terras;
Os teus raios envolvem os países
Até ao limite da tua criação.
Ré, dominas as suas fronteiras,
Submete-los ao teu amado filho;
Embora estejas longe, os teus raios tocam a terra,
Ainda que te vejam, ocultos são os teus caminhos.
O Grande Hino a Aton
Túmulo de Ai, parede ocidental.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A propósito da visita papal à Turquia: o cristianismo nascente e o restante...

Éfeso:
Uma das 7 Igrejas do Apocalipse
Forte comunidade cristã em cidade de culto a Ártemis
 
A cidade de Éfeso podia orgulhar-se de ter uma das sete maravilhas do mundo: o Templo de Ártemis. De facto, Ártemis de Éfeso era uma deusa sobejamente conhecida em toda a bacia do Mediterrâneo. Não se tratava de uma Ártemis comum, idêntica a tantas outras cultuadas noutros locais do mundo helénico. Ártemis de Éfeso era uma divindade francamente diferente de todas as restantes: a sua representação tinha dezenas de seios, e era acompanhada por dezenas de figuras aladas, o que lhe conferiria um carácter distinto da “normal” Ártemis, uma das deusas virgens do panteão grego, deusa da vegetação selvagem, dos animais indomados, da caça. A confirmar esta vertente maternal da deusa, é provável que o nome da própria cidade derive da expressão «cidade da deusa mãe».
Divindade sincrética entre os conceitos gregos e fenícios, as festas em sua honra atraíam milhares de peregrinos. Tinham lugar em Março / Abril, e depois em Maio. Nestas alturas, o seu magnífico teatro de vinte e quatro mil lugares ficava repleto.
Mas Éfeso foi ainda um dos berços do pensamento europeu. Cidade na costa da Ásia Menor, uma estreita faixa de terra onde existiam dezenas de cidades-estado gregas em que o dialecto dominante era o jónio, foi dos principais centros da chamada filosofia pré-socrática. Heraclito (540-480 a.C.), grande nome do pensamento grego, era sacerdote no Templo de Ártemis.
A imponente biblioteca de Celso, que ainda nos apresenta dois pisos de fachada, terá sido um forte centro intelectual do Mundo Antigo. Nas lajes da sua entrada ainda se podem ver desenhados no chão alguns típicos candelabros judaicos, sinónimo da forte comunidade hebreia da cidade.
No que respeita ao cristianismo, a comunidade primitiva de Éfeso será bastante antiga. Quando Paulo aí chega no fim da sua segunda viagem, já Apolo, judeu helenizado, criara uma comunidade que o discípulo confirmará (Act 19, 17).
Paulo ficará pelo menos dois anos em Éfeso, e será desta cidade que escreverá algumas das suas mais importantes cartas, nomeadamente a Carta aos Coríntios.
Tudo leva a crer, pelos vestígios arqueológicos, que no século IV, depois da aproximação feita por Constantino ao cristianismo, as imagens de Ártemis tenham sido decapitadas, destruídas, mesmo.
Recentemente, foi dada voz a uma tradição que dizia ter Maria, mãe de Jesus, passado os seus últimos dias junto à cidade, acompanhada por João, o evangelista. De facto, de forma algo misteriosa, e baseado na predição de Catherine Emmerich (1774-1824), e mediante escavações dirigidas pelo Pe. Poulin Young em 1892, foi descoberta uma construção supostamente da época a que foi atribuída essa função, atraindo agora milhares de visitantes. Alguns investigadores afirmam que a construção será posterior, do século IX, e terá sido uma igreja com a invocação da Virgem Maria.
 
As 7 Igrejas do Apocalipse: as chamadas sete igrejas do apocalipse (elencadas no Apocalipse de João) são como que um não-lugar no campo das peregrinações, dos lugares sagrados. Algumas dessas igrejas quase não apresentam ruínas e, em especial, nunca foram objecto de romagem em si.
Mas, não sendo lugar de viagem, são lugar de grande marca a nível do imaginário. Tratam-se das sete igrejas, as sete comunidades a quem foram dirigidas as sete cartas no momento final, no fim dos tempos.
São todas na actual Turquia. Éfeso, Pérgamo, Tiatira, Filadélfia, Esmirna, e Laodiceia. Todas apresentam antecedentes religiosos – nenhuma dessas cidades é de fundação cristã. Todas tinham comunidades cristãs e hebreias fortes e activas.
                  
             
Constantinopla, Bizâncio, Istambul
O berço do Cristianismo Oriental
A sede de três impérios consecutivos
 
Localizada no Estreito do Bósforo, controlando toda a navegação entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, a cidade é metade europeia e metade asiática. Foi sede de três impérios consecutivos (romano, bizantino e otomano), a que corresponderam três nomes também eles distintos mas em continuidade plena: Constantinopla, Bizâncio, Istambul.
O nascimento desta grande metrópole está profundamente ligado a alterações radicais na política e na religião do Império Romano. Coincide no tempo a opção de dividir o império em dois, a Pars Oriens e a Pars Occidens, com a aceitação e, depois, oficialização do Cristianismo como a religião do próprio império. É nesta dupla alteração que em 330, a 11 de Maio, Constantino declara a cidade como a segunda capital do império, depois de a construir quase de raiz.
Constantino, o imperador imortalizado no nome da sua cidade, ao jeito de Alexandre ou de Antíoco, tinha por mãe uma cristã, Sta. Helena. Diz a lenda que foi com o auxílio do próprio Cristo que conseguiu vencer o seu opositor, Maxentius, na luta pelo domínio de todo o império na batalha de Ponte de Milvios (312 d.C.): em aparição, Jesus disse-lhe para mandar colocar o seu símbolo num estandarte que fosse à frente de todo o exército. No topo de um normal estandarte romano, um labarum, Constantino fazia uma cruz com a estilização cruciforme do vocábulo Cristo: e facto... com esse símbolo venceria.
Efectivamente, Constantino venceu. In hoc signo vinces passará a ser um dos mais pesados e significativos mitos de toda a cristandade. Quase um milénio depois, será uma situação supostamente idêntica a que viverá o nosso monarca fundador na mítica Batalha de Ourique, levando a que muitas das moedas das nossas duas primeiras dinastias tivessem cunhada essa frase milagrosa, salvífica.
A marca da institucionalização desse cristianismo agora de império encontra-se, por exemplo, na necessidade de convocar o Concílio de Niceia (324), onde o próprio Imperador está presente, cioso de conseguir criar uma religião de estado sem as heterodoxias que até então a fé de Cristo apresentava e que, convenhamos, em nada concorriam para a unidade política do já frágil império.
Em 476, o Império Romano do Ocidente dava o seu último suspiro, mas o mundo oriental, agora dada vez mais distante e distinto do ocidental, que entrava num fase que posteriormente passámos a designar por Idade Média, continuava com uma significativa vitalidade.
Dessa época cristã, esta cidade mostra-nos uma das maiores estruturas que a humanidade construiu: a Santa Sofia, já com mais de milénio e meio de vida.
Em honra da sabedoria divina, a sabedoria que, como diz Ben Sira, esteve desde o primeiro momento junto de Deus no acto da criação, sendo seu arquitecto, este templo de enormes proporções é uma autentica obra de arte da engenharia de todos os tempos, tendo resistido a terramotos, e a demais intempéries ao longo de 1500 anos de vida. Muitas das suas paredes cederam ao esforço de tão enorme volumetria; muitos dos contrafortes arquearam; muita superfície horizontal adquiriu uma obliquidade significativa. Mas a estrutura não está em perigo: moldou-se ao tempo, ao esforço, ao desgaste dos séculos.
A primeira basílica foi construída, possivelmente toda em madeira, em 350 sob ordens de Constantino II. A grande volumetria que esta primeira construção religiosa teria encontra-se plenamente marcada no nome que lhe foi dado: magalo ekklesia, «a grande igreja».
Entre 404 e 416 foi ainda construído um outro edifício mais robusto que o primeiro, financiado pelo imperador Teodósio. Este segundo templo foi dedicado a 10 de Outubro de 415.
Este segundo edifício ficou marcado pelo incidente, uma quase revolução, que terminou com uma grande mortandade em toda a cidade, incluindo dentro do templo. Esta luta sangrenta entre dois grupos de adeptos de corridas de carros, mostrou alguma da fragilidade em que o império tinha caído.
O actual edifício, datado do século VI (532-537) teve como arquitectos Anthemius de Tralles e Isidoros de Mileto, e começou a ser construído imediatamente após a remoção dos corpos da querela referida (23 de Fevereiro de 532). Nela trabalharam cerca de 100 mestres e mais de 10.000 operários. Foram usados materiais de inúmeros monumentos da antiguidade, nomeadamente do Templo de Ártemis em Éfeso, uma das Sete Maravilhas do Mundo (ver Éfeso).
Uma antiga tradição diz que quando as obras de Santa Sofia terminaram, o Imperador Justiniano terá erguido as mãos para o céu e exclamado “Salomão, venci-te!”, numa clara alusão à superioridade do seu templo em relação ao de Jerusalém.
O templo foi dedicado a 27 de Dezembro de 537, em plena época natalícia. Santa Sofia foi usada como templo cristão durante 916 anos, desde 537 até 1453, e como templo muçulmano por 481 anos, desde 1453 até 1934, data em que passou a ser um museu. Magnificente é a sua cúpula, levantada a 55,6 metros do chão, com um diâmetro de 31 metros.
Continuadamente pretendida pelo Islão, a cidade acabou por aprofundar o abismo que se tinha criado entre a igreja cristã do Ocidente e a do Oriente, uma com sede em Roma, outra na própria Bizâncio. Este cisma teria efectivação definitiva em 1054.
A primeira cruzada passaria por aqui em 1096 sem lhe tocar. O mesmo não aconteceria com a IV cruzada que em 1204 conquistou e saqueou a cidade, mostrando de forma eloquente os desígnios da conquista da Terra Santa.
O primeiro cerco otomano teve lugar em 1390, repetido em 1422. A Conquista de Constantinopla por Mehmet II a 29 de Maio de 1453 marcou, durante séculos, uma das rupturas mentais mais significativas na cultura ocidental: o fim da Idade Média.
Essa conquista está integrada no prelúdio da época de maior apogeu do mundo otomano, o reinado de Suleymaniye, o Magnífico (1520-66). A maior parte da Africa do Norte, leste Europeu e todo o Médio Oriente estava sobre o controle Otomano em Istambul
Depois da tomada de Constantinopla pelos otomanos em 1453, Santa Sofia foi transformada em Mesquita e foram-lhe adicionados quatro minaretes.
Capital do Império Otomano, apresenta-nos ainda algumas das mais espantosas mesquitas do mundo.
Frente à Santa Sofia, encontra-se a Mesquita Azul (o seu nome deriva da decoração interior). Construída entre 1609 e 1616, era a Mesquita Imperial de Sultanahmet, com seis minaretes, tal como Meca, imagem do seu poder.
A mesquita Imperial de Suleymaniye domina a paisagem do Corno de Ouro. Construída entre 1550 e 1557, é uma jóia do arquitecto Sinán, um dos expoentes da Idade de Ouro da arte otomana.
             

                   
Antioquia
A sede das viagens apostólicas de S. Paulo
O “berço” dos cristãos
 
Biblicamente, são duas as Antioquias: a da Síria e a da Pisídia. Interessa-nos aqui a primeira, situada no Sul da actual Turquia, nas margens do Orontes.
O nome desta cidade vem, simplesmente do nome do Antíoco, nome de seis dos monarcas seleucidas que governaram a região depois da morte de Alexandre. Trata-se de um fenómeno onomástico igual ao encontrado para o nome das várias Alexandrias com que Alexandre foi perpetuando o seu nome.
Antioquia da Síria foi fundada por volta de 300 a.C., por Seleuco I, que a fez sua capital. É nesta situação política, de sede dos seleucidas, que é muito citada no bíblico Livro dos Macabeus, aquando das revoltas contra o poder ai sediado. Um dos chefes dessa revolta hebreia contra o poder helenizador, Judas Macabeu, foi levado preso para Antioquia.
Em 64 a.C. os romanos apoderaram-se da região, transformando-a na sua província da Síria, continuando Antioquia a ser a capital administrativa.
Grande metrópole da antiguidade, na época da vida de Jesus, teria cerca de meio milhão de habitantes. Seria a terceira cidade do império, depois de Roma e de Alexandria.
A comunidade judaica da cidade era bastante numerosa no século I d.C., o que explica, em certa medida, o rápido peso que o Cristianismo ai criou. Era também muito importante o grupo de não judeus simpatizantes com o pensamento e religião judaica. Entre estes dois grupos encontrou a primitiva comunidade de seguidores de Cristo a sua base de apoio e de expansão.
Tudo leva a crer que, aquando da perseguição lançada em Jerusalém em 36/37 d.C., na qual foi morreu Estêvão (o primeiro mártir cristão), alguns cristãos tenham seguido para Antioquia. A pregação nesta grande metrópole não se circunscreveu aos judeus, mas já também a todos os “tementes a Deus” (não seriam apenas os filo-judeus, mas também todos os crentes de outras religiões monoteístas que pululavam pela cidade e que se encontravam despertos para uma mensagem como a cristã, nomeadamente neo-platónicos, mitraistas – da religião de Mitra - e isíacos – seguidores de Isis)
O sucesso foi grande e rápido. Barnabé é chamado para reforçar a evangelização; este, posteriormente, pedirá ajuda a Paulo de Tarso que terá nesta cidade o seu ponto de partida para as suas famosas viagens apostólicas.
É nesta cidade que pela primeira vez os seguidores de Cristos foram chamados de “cristãos” (Act 11, 26). No fundo, como religião, é nesta metrópole helenista que o Cristianismo tem a sua Cédula de Nascimento.
Como monumento, quase uma relíquia, e local de actual peregrinação, nas encontras de Antioquia encontra-se, ainda hoje, uma gruta-capela que terá sido a primeira “cátedra de Pedro”.
 
Viagens de S. Paulo – Considera-se que Paulo de Tarso empreendeu 3 viagens para expansão da fé de Cristo. Estas viagens decorreram no tempo do imperador Cláudio, aproximadamente entre a Primavera de 47 e 60 d.C. Nestes seus périplos, deverá ter percorrido mais de 20.000 quilómetros, pisando, segundo a actual organização política, 32 países.
 
1ª viagem (Act 13, 4 a 14, 27): entre 47 e 48 d.C., acompanhado por Barnabé, João Marcos (apenas até Perge) e Lucas. Partiu de Antioquia e terá visitado Seleucia Pieria, Salamina, Pafos (ambas em Chipre), Perge, Antioquia da Pisídia, Icónio (Frígia), Perge e Attaleia, regressando a Antioquia da Síria.
2ª viagem (Act 15, 36 a 18, 22): Entre 51 e 53, partiu novamente de Antioquia, acompanhado por Silas, Lucas, Timóteo (a partir de Listra), Barnabé segue com João Marcos para Chipre. Esteve na Cilícia, Derbe, Listra, Iconium, Antioquia na Pisídia, Alexandria Troas, Neapolis, Filipos, Tessalonica, Bereia, Atenas, Corinto e Éfeso, Cesareia, e regresso a Antioquia.
3ª viagem (Act 18, 23 a 21, 27): Estavam com ele, Lucas, Timóteo, Erasto, Tito e juntam-se ainda Áquila, Priscila e Apolo. Partindo de Antioquia, visitaram Derbe, Listra, Iconium, Antioquia na Pisídia, Éfeso, onde Paulo ficou dois anos, Alexandria Troas, Corinto, Filipos, Samos, Trogyllium, Mileto Cós, Rodes, Patara, Tiro, Ptolemais, Cesareia e Jerusalém.
4ª viagem – a Roma: Partida no Outono de 59. Cesareia, Sidon, Myra, Cnidus, Lasea, Malta, Siracusa, Rhegium, Puteoli, Fórum Appi, Roma.
  
Texto adaptado do nosso volume, em conjunto com Francisco Moura, Itinerários de Fé (Lisboa, Mediatexto, 2005).

 
 
 

sábado, 4 de outubro de 2014

Rosh Hashanah - Início do Ano Novo judaico - 1 de Tishrei (ao pôr-do-sol de 24 de setembro)


O início do Ano Novo na tradição judaica encontra-se profundamente ligado à ideia de renovação. Normalmente, os calendários encontram muitas vezes ciclicidades ligadas ao mundo agrário, aos ritmos da natureza, às ideias de renascimento e de morte, seguindo as estações do ano. No caso judaico tal pode acontecer, mas o sentido profundo teológico encontra-se na própria ideia de Criação do Mundo.
De facto, as tradições rabínicas colocam a abertura do ano nesta data porque é aí que, interpretando os Textos Sagrados, a Torah, se definiu ter sido criado o mundo. Assim, este início de ano é um momento absoluto e único que, não apenas marca e festeja essa data primordial, como liga toda a comunidade ao que de essencial ela representa. No livro de Levítico 23: 24, na referida Torah, fala-se no dia Dia da Aclamação. O sentido é o de ligação ao momento primeiro da Criação e, obviamente, ao próprio Criador.
Assim, este dia é, verdadeiramente, o momento de reflexão e de balanço de todo o ano anterior. No primeiro dia do ano dá-se início a todo um período de meditação em torno das falhas marcadas, muitas vezes, pelas imagens das desobediências e dos erros dos personagens do Génesis bíblico, seja Adão e Eva, ou mesmo Caim.
Passagem de um ano a outro, para algumas tradições, este dia é o Dia de Julgamento, o dia em que o Criador faz o balanço entre os justos e os ímpios. Na espiritualidade de cada um, este primeiro dia do ano abre dez dias de reflexão que terminam no Dia da Expiação, o Yom Kippur.

O Ano Novo judaico, mais que um evento de celebração, com os seus rituais e orações próprias, é um tempo de meditação, de balanço e de avaliação.

sábado, 20 de setembro de 2014

Frei Bento Domingues, reinventar a criança em nós

Frei Bento Domingues foi ontem homenageado num plenamente cheio auditório da Fundação Gulbenkian. Ouvi falar sobre ele. Ouvi-o a ele falar. E era imperativo escrever sobre esta figura que tanto me marcou, e cada vez mais marca.

E é imperativo trazer Frei Bento à luz destas linhas porque elas nunca lhe poderão corresponder. Por mais que martele nas teclas, delas nunca daqui sairá o sorriso que é seu apanágio. Sim, em Frei Bento, é o seu sorriso contagiante que mais facilmente nos deixa desarmados, provocando-nos um inevitável transtorno. Um sorriso que é imagem do que devíamos dar a nós mesmos como seres humanos - a arte de sorrir, o tão difícil keep on trying, smile, seguindo Chaplin. Frei Bento desarma-nos numa luta que é o colocar-nos ao espelho. Essa é a sua principal arma.

E essa tal arma ele usa-a de forma tão simples e tão desconcertante que muitas vezes nos deixa sem saber o que é acaso e o que é pensado. De acaso nada tem, mas de pensado, muito menos. E é neste jogo de tantos inesperados que por vezes deixamos de saber o que é a sério e o que é a brincar, o que é crítica e o que é gozo, acima de tudo, o que é ironia (se o "a sério" tiver fronteiras muito definidas, reduzimos tudo aos maniqueismos simplistas de tudo arrumar em bom e em mau - não me parece que Frei Bento nos resuma e nos arrume dessa forma).

Há alguns anos, num baptizado, uma amiga, estupefacta com a forma como o Frei Bento se entrosava com as crianças durante a cerimónia religiosa, perguntava-me, espantada: "ele é sempre assim?". Pressenti ainda uma segunda questão, encapotada na primeira: seria “estilo”?. Sim, ele é sempre assim, disse eu, acrescentando como resposta à pergunta não feita, que não era estilo, era feitio! E é mesmo. É feitio, é forma de ser e de agir que sai espontaneamente, sem treino, sem pensar como sai na fotografia.

Estava ontem sentado num elegante sofá da fundação, aguardando com a minha filha a conferência do Dimas de Almeida, quando ouço da voz de uma jovem uma frase que reconheci logo. Dizia a jovem de pouco mais de 20 anos a alguém que poderia ser seu avô que ele, o Frei Bento, se o encontrasse lhe perguntaria logo se era feliz.

Reconheço essa frase, essa forma de contender picando-nos com uma afirmação que nos deixa descalços, uma frase que, no seu quê de aparentemente simplista, nos reduz a um simples essencial: a felicidade.

É de uma simplicidade existencial que nos choca. Quantas vezes paramos para nos perguntarmos se somos felizes? Esgotados no frenesim do momento presente, um momento ao ritmo dos SMSs, dos telemóveis e dos facebooks que nos geram amigos nunca vistos, vivemos estasiados por alegrias efémeras, incapazes de felicidade prolongada.

E, voltando às crianças e aos sorrisos, tudo o mais, é a máxima de Jesus, a figura que ele segue tão apaixonadamente. Se Jesus dizia "deixai vir a mim as criancinhas", então Frei Bento ensina-nos e pratica-o afincadamente, na simplicidade de ser criança. Sendo criança, irrequieto, capaz de brincar, essencialista, Frei Bento solta-nos das amarras de uma adultisse sem humanismo. O humanismo ele encontra-o e constrói-o no sempre ser simples, como uma criança.

E como criança. No dia-a-dia das necessidades desse mesmo quotidiano, Frei Bento faz algo a que damos o nome pomposo de Teologia. Mas não é isso o que ele faz. É que o mais sábio de tudo é saber que os caminhos não se encontram prontos, qual prêt-à-porter. Não são os artigos certos dos catecismos e dos dogmas que nos indicam o caminho a seguir. Ou melhor, indicar, indicam, deixa é de ser caminho. Porque o caminho faz-se, na frase batida, caminhando, não seguindo.

Na irrequietude e na inquietude, Frei Bento apenas nos diz o fundamental: Só sei que não vou por aí.








sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A instalação da desesperança

Desde 2001 que muito se tem falado sobre fundamentalismo religioso. Mais que saber e compreender os fenómenos fundamentalistas, criou-se o hábito de para aí tudo remeter, de nesse grande invólucro dar guarita a tudo o que, tendo algum aspecto religioso no seu facies, criava incómodo ou afrontava o "ocidente".
Contudo, é de desmontagem fácil a noção de fundamentalismo religioso, tal e qual ela vezes é aplicada. A leitura e interpretação literalista de Textos Sagrados não é, por si só, geradora de violência e criadora de conflitos. Uma suposta teologia fundamentalista apenas gera seguidores em ambientes de falta de cultura religiosa e, sobretudo, de falta de esperança através dos modelos de valores vigentes. E o mesmo é válido para o universo das ideologias políticas, pelo que o problema não é nem religioso, nem político, mas essencialmente social e cultural.
E é aqui, na "desesperança" que radica o centro do problema, não só dos fundamentalismos no seu todo, mas especificamente na capacidade de certos movimentos arregimentarem jovens para acções de terror com uma violência extrema.
No chamado "ocidente", são milhões os jovens sem emprego, sem perspectivas de futuro semelhante ao que foi consignado pelo American way of life que todos almejamos através da publicidade com que somos bombardeados diariamente. A verdadeira realidade do emprego, da educação, da saúde, e mesmo as visões políticas, económicas e financeiras geraram uma mole imensa de desesperançados no actual sistema de governação. Cada vez temos mais sintomas desta doença civilizacional que se manifesta, por exemplo, na grande abstenção e no crescimento dos partidos políticos radicais.
No chamado "Médio Oriente", o já referido "Ocidente", num quadro em que já nem os ditos "ocidentais" acreditavam no seu modelo, tentou-se impor normas e uma visão do mundo, o que levou aos desastres tremendos a que todos hoje assistimos. Libertou-se o Iraque de um ditador, mas deixou-se o Iraque na situação que todos conhecem, em que o auto-proclamado Estado Islâmico é apenas o último acontecimento desastroso de uma desestruturação social e cultural imposta por uma visão externa totalmente desconhecedora daquilo que fazia, muito menos das suas consequências.
Em ambos os casos, os fundamentalismos, sejam os vindos de ideologias políticas, sejam os supostamente religiosos, alimentam-se desta desesperança, desta incapacidade de gerar valores e de criar perspectivas e horizontes. Incapazes de gerar utopias que alimentem vontades positivas e gerem futuro, o "Ocidente" esvai-se em protestos internos e guerras externas.
Até onde irá correr esta sangria, é mistério para o qual nem os mais doutos especialistas dão previsões. Os desafios que se colocam nas políticas internas e externas são de natureza completamente diferente dos paradigmas anteriores.

Se até agora os radicalismos se alimentavam da fome para acenar com um futuro, um modelo, agora alimentam-se da falta de modelos e de futuros. Combater a desesperança com "mais do mesmo" apenas vai fazer alastrar o Iraque a muitos outros iraques, uns fora de portas, outros bem cá dentro.
             
Artigo no Público a 30 de agosto último.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Liberdade Religiosa e deveres perante o trabalho

Depois de várias polémicas sem resolução clara, a recente decisão do Tribunal Constitucional, que veio dar razão a uma cidadã adventista no seu direito a não trabalhar ao sábado, parece ter vindo criar uma jurisprudência que virá ser a norma na resolução de muitos mais casos como este.
A interpretação que era até agora dada da Lei de Liberdade Religiosa apontava para que a possibilidade de adaptação do horário individual mediante as práticas religiosas tivesse lugar num quadro em que já houvesse uma flexibilização de horários e quando, obviamente, essa alteração em nada beliscasse a produtividade.
Hoje, com esta nova posição dos juízes do Constitucional, é afirmado esse direito como fundamental no quadro das liberdades individuais. No fundo, como parte constitutiva da base e da identidade do ser e do indivíduo perante o colectivo que é o Estado, do que é inalienável enquanto direito constitucional.
E, realmente, é nesse patamar que a questão deve ser equacionada se, porventura, quisermos olhar para a liberdade religiosa como um elemento de consciência e não apenas como mais um proforma. No fundo, o que temos perante nós é a tensão entre o direito à liberdade de consciência e o dever de respeitar as normas do trabalho.
Mas em termos teológicos e de mentalidade, a questão é bem mais profunda. A questão é antiga e remonta a uma das mais antigas funções religiosas do Mediterrâneo: o prover de alimento, de paz e de estabilidade social. No limite, para o crente, quem provê do sustento? O trabalho, o empregador, ou Deus a cujos “representantes” muitas vezes, entrega parte do seu rendimento do trabalho, exactamente porque os encara como dádiva?
É que o trabalho, mais uma vez, num sentido teológico, não é apenas o que se consolidou como imagem dominante em parte da cultura católica: o trabalho como uma pena, um resultado da “queda” e do pecado original. O célebre “pão que o diabo amassou”. Não, nas culturas de raiz protestantes e judaica, a ética do trabalho sedimentou-se numa visão teológica em que o trabalhar é a continuidade que o homem realiza em relação à Criação divina. Portanto, trabalhar não é castigo; trabalhar é continuar a acção de Deus através de um mandato em que o planeta lhe foi entregue.
E aqui, olhar para o universo, o tempo, os momentos de trabalho, já implica uma instrumentação mental completamente diferente para se perceber o que está realmente em jogo.
Não se “falta” ao trabalho no sábado porque se vai participar num rito. Mesmo que no sábado se participe num rito, a essência do “sábado” não se encontra no rito. No limite, há uma diferença radical entre o participar num ritual ou o aparente nada fazer…  participar num rito pode, algumas vezes, ser adiado, como no caso de uma oração. Contudo, o fruir, o correr do tempo, reside já no patamar da plenitude do entendimento do sagrado. Manter todo um dia sem trabalhar, como o defendem judeus ou adventistas em relação ao sábado, dedicar um tempo inteiro e pleno a um aparente “nada”, é, de facto, a máxima santificação.
Na sua raiz, a palavra «sacrificar» significa «fazer sagrado», tornar sagrado. E santificar um dia é isso mesmo, sacrificar esse dia, tornando todo o tempo e espaço em sagrados. Não há possibilidade de, em consciência, um crente relativizar este princípio. Ou é, ou não é. Não pode ser parte, ou um pouco mais tarde.
E não pode ser alterado por regra humana porque, mais que tudo, esse tempo de dedicação ao seu sagrado é imagem de algo profundamente ordenador do mundo. Guarda-se o sábado porque nesse dia Deus descansou depois de completada a Criação. Portanto, guardar esse dia é repetir o acto e gesto primordial de ordenação do mundo.
Nas tradições do Mediterrâneo, quando por regra religiosa se para de trabalhar, é porque se está a glorificar esse mesmo trabalho, colocando-o à altura do que de mais importante existe.
É uma rotação brutal na forma como nos habituámos a olhar para a ética do trabalho. Mas a produtividade poderá ser a primeira a agradecer.



Com Fernando Catarino, na Life&Style do Público, a 6 de Agosto passado.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Circuncisão: O Estado na definição dos deveres dos pais

O início deste ano de 2014 parece estar a consolidar uma polémica que começara já no ano anterior em torno da circuncisão por motivos religiosos. A polémica estalara na Alemanha, mas também parece correr na Dinamarca e noutros países escandinavos que já apresentaram recomendações contra esta prática no Conselho da Europa.
A base das propostas que defendem a proibição de tal prática reside na valorização dos direitos da criança em relação à manutenção das práticas das tradições religiosas. Neste caso, o Judaísmo e o Islão são os alvos desta onda.
Obviamente que esse campo do Direito deve ser invocado. Depois de milhares de anos a menosprezar os menores, tratando-os quase sempre de forma sub-humana, fica “bem” à Europa finalmente colocar as crianças num lugar de direitos inquestionáveis.
Contudo, esta postura implica uma certa inversão na responsabilidade educativa e de identidade das crianças. Quais os direitos e os deveres da progenitura? Onde termina e como se define o que de espiritual os pais podem transferir para os filhos como parte de uma identidade colectiva, e quais os limites para as marcas que esses actos podem implicar?
Para a tradição bíblica, seguida por judeus e por muçulmanos, a circuncisão é a marca da primeira grande aliança entre Deus e o seu povo, na pessoa de Abraão. Pode-se encarra, sem esforço, que a circuncisão é a principal marca de identidade ritual nestas religiões. Mais que identidade religiosa, é identidade cultural e sentido de irmanação com os antepassados e o que eles representam.
De facto, ao retirar o prepúcio, os pais estão a efectivar na criação, a repetir o gesto primordial, da aliança que a sua religião representa. Daqui se percebe que a circuncisão é um acto central e nunca se pode comparar com a mutilação genital feminina que em nenhuma religião tem foro minimamente semelhante - para além de a circuncisão não minimizar ou retirar nenhuma capacidade ao homem, ao passo que o mesmo não se aplica no caso feminino.
Para os pais, circuncidar é, sim, tornar sagrado aquele bebé, integrando-o nos laços de uma aliança primordial. E tornar sagrado, no sentido primeiro da expressão, é sacrificar – sacre facere. É um sacrifício porque torna sagrado.
É claro que a nossa sociedade está numa deriva de protecção à criança que deve equacionar os limites da acção dos pais a muitos níveis. Mas a eventual proibição de actos milenares que, feitos segundo as regras estabelecidas há séculos, em nada fazem perigar a saúde da criança, nem lhe retiram capacidades na vida adulta, é imagem de um autoritarismo que nega em absoluto o papel e o lugar dos pais na passagem da sua cultura e identidade.
Mais, este universo de proibições, as do campo religioso, acabam sempre por definir muito mais que o simples acto que procuram banir. Neste caso concreto, são dois os grupos religiosos abrangidos: judeus e muçulmanos.
Num tempo em que tantos movimentos extremistas se revigoram na Europa com vitórias eleitorias que nos devem deixar alarmados, proibir a circuncisão tem um nada leve tom a déjà vu.

O que proibiremos a seguir?
           

Com Fernando Catarino, na Life&Style do Público, a 6 de Maio passado.