terça-feira, 26 de dezembro de 2017
Jesus com uma romã. Transversalidades de um símbolo
Quase no final do século XV, Botticelli pintava esta linda cena. Na identificação, na legenda, que podemos consultar nos Ufizzi, em Florença, é-nos dito que é a «Virgem da romã»; contudo, é claro que Jesus também segura o referido fruto, como que o recebendo.
A simbologia da romã é imensa e o facto de aqui aparecer claramente associada a Jesus mereceria um sem número de paralelos, ligações e análises.
Por um lado, é óbvia a ligação deste fruto ao quadro solsticial em que a tradição colocou Jesus a nascer; Não só este fruto é dos poucos que amadurece quando a natureza morre, com este frio que leva a natureza como que a morrer, como a tradição nos leva a comê-lo exactamente até aos Reis, colocando-o na centralidade dos rituais da época.
Mas, por outro lado, a ligação a esta natureza que parece desaparecer na exacta medida em que o Sol, no seu momento mais alto, ao meio-dia, indicando o Sul, também faz o seu caminho na linha mais baixa, com menos força, parecendo sucumbir a uma noite cada vez maior, leva-nos para mitos antigos onde, obviamente, a figura de Jesus se foi alimentar simbolicamente.
Este fruto é a melhor metáfora para, quer uma afirmação crística, quer uma justificação eclesial.
No segundo caso, o fruto é a própria Igreja, "Una, Santa, Católica", indivisível na sua multiplicidade, e universal. O fruto herdado da decoração do Templo de Salomão, que é também recriado na simbologia do templo maçónico, é aqui a imagem do que Jesus inaugura, seguindo uma estrita leitura da tradição católica.
No primeiro caso, a romã é, naturalmente, todo o peso mental das mitologias de morte e ressurreição. Primeiramente, esta imagem leva-nos para Perséfone e Deméter no mito em que a primeira não consegue sair completamente livre do Mundo Inferior porque comeu, nesse reino de Hades, um pedaço de uma romã. Por isso, eternamente ficaria ligada a esse mundo da morte, vivendo apenas com a sua mãe durante o tempo de frutificação e de pujança da natureza. Sendo neste quadro o fruto dado por Maria, e recebido por Jesus, esta simbologia é ainda mais clara: é a mãe do menino que abre caminho à afirmação salvífica, tal como com Ísis e Hórus, em que o próprio significado do nome da deusa nos encaminha para o facto de ser ela a dar a realeza (Veja-se o nosso texto: "IN SEARCH OF THE LOST PHALLUS: ON THE NEED FOR ISIS TO MATE".
Ora, Jesus é exactamente aquele que desce ao Inferno, usando a linguagem cristã, resgatando aqueles que morreram. Neste sentido, o menino Jesus com a romã é um Alfa e um Ómega em potencial. É o princípio através da criança acabada de nascer, e é o seu fim, profeticamente marcado pelo fruto que tem na mão.
sábado, 8 de julho de 2017
PAI | - | FILHO: Dos espelhos e das fotos, de que matéria sou feito eu
Muito mais que o número, a imagem é de todas as coisas que há no mundo a menos
exacta. Talvez por isso exerça sobre nós tamanho poder. Revemo-nos no momento
ao espelho, procurando a perfeição; imortalizamos o momento na fotografia,
guardando a imagem. Em ambos os casos, somos nutridos pela sensação de
exactidão, da veracidade dos contornos que nos são dados a conhecer pelo globo ocular,
sem ter em conta que por trás do ver encontra-se o interpretar.
E muito da vida assenta na interpretação que fazemos do que o nosso globo
ocular nos faculta generosa, mas caprichosamente. Se o espelho é a
possibilidade de um qualquer Narciso se apaixonar por si mesmo, a fotografia é
a vontade de parar o tempo, de o congelar num instante como se a vastidão do
mundo fosse possível de arrumar num milímetro quadrado.
E nesse milímetro mínimo, não apenas pretendemos dar-lhe foro de tudo e
toda a essência nele condensar, como pretendemos, depois, pegar nessa
micro-realidade e, tendo-a como perfeita, dar-lhe direitos de soberania sobre
tudo o resto.
A imagem de Nuno Júdice é perfeita: “o teu corpo dobra-se, no espelho da memória, à luz frouxa da lâmpada que nos esconde. Puxo-te para fora da moldura” (“Retrato”). Fazemos a moldura condensando nela um momento e depois queremos
ver o mundo através dessa imagem sem tempo. Idealizamos e cegamos, julgando que
vemos, guiando na cegueira. É a continuada recriação do pensamento e da teologia
que nos leva de Maimónides a Saramago.
Nestes momentos de perda, parece-me que seria muito mais interessante o
mundo sem espelhos nem fotografias. Os espelhos, quando apareceram, lá pela
Antiguidade, criaram problemas religiosos e de identidade tremendos. Quem
estava do lado de lá da superfície brilhante e lisa?
"Espelho meu, diz-me quem é a mais bela?", diz a bruxa-má ao
questionar o seu espelho sobre a sua beleza. Vemos o que vemos, mas vemos mais,
vemos o que queremos. Se o não vemos, a identidade complica-se – como no caso
da bruxa e da Branca de Neve; o desejo é sempre facto de sobreposição em
relação ao real.
É de facto irónico que tenha sido o espelho o objecto usado ao longo dos
milénios para confrontar, nos ritos de iniciação, o sujeito consigo mesmo, desmascarando
a confiança em si mesmo, mostrando que o maior inimigo é a imagem ao espelho…
isto é, nós mesmos. Aquele que está no espelho, sou e eu e é também a minha capacidade,
ou quase destino, como que inata, de me opor a mim mesmo.
Mas os espelhos não são apenas aquelas peças bonitas, de superfície
atraentemente lisa e pura de rugosidades e impurezas. Apela Shakespeare: “Não
diga o meu espelho que envelheço“! O garante da juventude é o olhar para o
amor, a dedicação e a entrega, que inebriando inibem a visão mais objectiva das
rugas, das imagens do tempo e da sua voragem.
O espelho são os outros que nos servem de referencia, através de quem nos
vemos nas suas faces. Num sentido edipiano, sempre dei por mim a confirmar a
tese mítica de Freud. Mas, por mais estranho que pareça, por vezes dou por mim
a ver-me como ao meu pai. Sim, nestes dias em que o Édipo é já o meu filho, e
eu o possível ser a “morrer” às suas mãos, sinto cada vez mais uma proximidade
assustadora para com o meu pai. Eu sou para o meu filho o que o meu pai foi
para mim. Anulando-se as gerações, eu sou, literalmente, o meu pai, vivendo
pela primeira vez os desafios dessa posição.
Quantas vezes, ao longo dos dias, percebo-me, até, em posições e expressões
que eu recusaria conceber e admitir ainda há pouco tempo. Olho para mim na
relação com o meu filho e vejo fotografias do meu pai comigo. Reconheço-me? “Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu”, aponta Mia Couto (“Idades Cidades Divindades”); mas quem é quem neste jogo de olhares?
Mais que no meu filho em mudança rápida do início de vida adulta, sou eu
que agora muda a uma velocidade estonteante. No ápice de um momento, passei a
ser a geração que se segue. Na linha de montagem da memória, ou na cadeia
alimentar do tempo, passei para a primeira posição. Obviamente, este eu já é
outro. Recrio-me nesta vivência de orfandade.
É essencial o confronto com a imagem da Morte, naquilo que de atemporal ela
tem. Desde há mais de quatro milénios que esse confronto se encontra ritualizado
na vivênciação de mitos como o de Inanna. E a essencialidade encontra-se plenamente
demonstrada no facto de hoje tudo ecoar na nossa mente, no nosso inconsciente
colectivo ou subconsciente como se a ciência nada nos tivesse dado de novo.
E, verdade, não deu. Vivenciar nada tem a ver com conhecer. Talvez tenha um
pouco a ver com Saber. E, no saber, entramos novamente no que é fundamental. O
que é a morte? Seja a do mito recriado em rito, seja a de cada um de nós, em
tudo semelhante ao rito em mas em nada igual a qualquer outra morte?
Quem seria na caveira que Hamlet pega e questiona? “Ser ou não ser, eis a
questão”. O que é mais nobre perante a condição humana? O pensador responde-nos
brutalmente poucos versos abaixo: “Morrer.. dormir: não mais”, ou “Morrer para
dormir... é uma consumação”. Reagir ou sucumbir. Desafiar ou resignar, numa
luta entre o fado e as moiras e o livre arbítrio, a responsabilidade da acção,
mas também a liberdade de dizer Não! De optar e de escolher. Vida ou Morte, eis
a questão.
Num acto morre-se e é-se chamado para a Vida. Cada vez dou mais sentido à
frase de Saramago, quando dizia que quando morrer, morreriam duas pessoas. Ele
e a criança que ele fora. Sim, cada vez me sinto mais longe de mim. Cada vez me
sinto menos eu. Ou, talvez, cada vez me sinta menos a criança que fui, a
criança que fui sendo cada vez menos, e a criança que quase nada sou.
Contudo, fica uma outra pessoa. Sem um espelho
que constantemente usava, fico mais liberto para poder ser eu. É verdade que
fica a fotografia idealizada. Mas fico também eu, leitor dessa fotografia,
recriador da sua imagem.
Agora sou eu cada vez mais a imagem de um
espelho que se transforma em fotografia, até que só haja fotografia e imagem
congelada num tempo que não será o meu, mas o de outro transformado em pai, tal
como eu agora o fui.
Afinal, sou ambos. Tal como meu pai o foi. Tal
como o meu filho o será.
Pai | Filho
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sábado, 11 de junho de 2016
Em tempos de martírios, urge revisitar os «Mártires de Marrocos»
Tal como sucede
para os mártires dos primeiros séculos do Cristianismo, onde a natureza por
vezes verdadeiramente exótica dos milagres em torno de uma morte que é sempre
um desafio ao “infiel”, também no caso destes mártires cristãos do século XIII,
a procura do martírio parece ser mesmo o desígnio que os frades procuravam,
apesar das inúmeras possibilidades de vida que lhes foram dadas, mesmo em
quadros de verdadeira procura de um choque religioso que, obviamente, nunca
terminaria bem.
Contudo, todos
os dados e factos que nos chegaram pelas tradições escritas, por mais sólidos
que ao longo dos séculos tenham parecido, movimentando crentes, fé e piedade,
muito pouco parece ser factológico. É um campo de mito e de lenda onde se
espraiam os desejos e as preocupações religiosas de uma época de extremos onde
a busca da morte era muitas vezes a única via para um quadro quotidiano
positivo, um sentido superior para a vida.
De que tenhamos
conhecimento, a primeira versão desta complexa lenda dos mártires de Marrocos
foi redigida ainda em vida de S. Francisco, intitulada Chronica Fratis
Iordani a Iano, incluída na Analecta Franciscana. Terá sido no
mosteiro de Santa Cruz de Coimbra que se desenvolveram obras hagiográficas
sobre os mártires franciscanos, surgindo documentos de devoção que relatavam os
seus milagres. A sistematização deste grupo de lendas é de 1568, quando foi
redigida a obra Tratado da Vida e Martírio dos Cinco Mártires de Marrocos,
de João Álvares, uma adaptação portuguesa da Legenda Martyrum Marochii
(obra de c. 1476).
O imaginário
cristão foi tão forte em torno das tradições dos Mártires de Marrocos, que
rapidamente a iconografia se desenvolveu. As primeiras obras artísticas
dedicadas a este martírio também têm origem conimbricense, só depois passando a
ser um assunto utilizado pelos artistas de todo o País, quer em quadros e
esculturas, quer em gravuras ou peças de ourivesaria, proporcionando um dos
temas mais recorrentes na iconografia portuguesa.
Contudo, os
Santos Mártires de Marrocos não são, de facto, naturais de Portugal. São cinco
frades italianos da região da Toscânia, de seu nome: Frei Berardo, pregador e
arabista, Frei Otto, sacerdote, Frei Pedro, diácono, e Frei Adjuto e Frei
Acúrsio, frades leigos, a que acrescia Frei Vidal, que presidia a missão.
A origem da missão
encontra-se na II Assembleia Geral da Ordem Franciscana em Assis, onde
Francisco de Assis elegeu esses frades como missionários em Marrocos. De Itália
saíram os seis missionários rumo à Ibéria, de onde pretendiam partir para
Marrocos.
E é logo nos primeiros
momentos que a missão ganha contornos inesperados: em Aragão, Frei Vidal adoece
gravemente e fica impossibilitado de prosseguir junto com os seus companheiros.
Sem outra solução, nomeia para o substituir na presidência da missão Frei
Berardo. Debilitado, Frei Vidal acabaria por morrer sem a coroa do martírio,
poucos dias após a notícia da morte dos cinco frades.
Seguindo
caminho, os missionários dirigem-se a Coimbra, onde D. Urraca lhes dá guarida.
Num misto de fé e de misticismo, a rainha suplica aos frades que lhe revelem o
momento da sua morte. Relutantes, acabam por predizer que a vida de D. Urraca
apenas chegaria ao seu termo quando de Marrocos os cristãos trouxessem a
Coimbra os seus corpos martirizados.
Nesta estadia em
Coimbra, um jovem, Fernando de Bulhões, que, mais tarde, será outro grande
santo português (Santo António) terá ouvido as suas prédicas no mosteiro de
Santa Cruz, episódio que em muito lhe influenciou a vida.
Pararam ainda em
Alenquer, vila que recebera foral em 1212 de D. Sancha (beatificada, com as suas irmãs Teresa e Mafalda, em 1705), filha
de D. Sancho I. Aí, a princesa, irmã do rei D. Afonso II, os dotou de víveres e
trajes de mercadores, com os quais se deveriam disfarçar quando chegassem a
Sevilha.
Iniciando uma
postura de assumida afronta, denotando a crença na posse do Espírito Santo que,
não apenas os livraria de qualquer medo, como os dotaria das palavras que
levariam à imediata conversão dos mouros. Sem medo algum, trocaram as vestes,
generosamente ofertadas por D. Sancha, pelo hábito franciscano e, assim
vestidos, apresentaram-se na mesquita de Sevilha, onde iniciaram a sua pregação
diante de uma multidão de muçulmanos. Julgando-os loucos, foram escorraçados da
mesquita.
Frei Berardo e
os companheiros conseguem, supostamente, apresentar os fundamentos da doutrina
cristã perante Abu El-Ola, que governava Sevilha em nome de El-Mansur. Ainda
sem terem passado ao Norte de África, os missionários são colocados perante a
escolha da vida ou da morte. Obstinados na sua vontade, El-Ola obrigou-os a
escolher entre renegar a fé ou serem mortos. Os frades optaram pelo martírio,
se bem que ainda fosse nesta data que o conseguissem. Foram poupados e levados
como prisioneiros para a monumental atalaia de defesa da cidade junto ao Guadalquivir,
mais tarde batizada como Torre del Oro.
Os missionários
em nada desistiram do seu intento, e mesmo prisioneiros, continuaram a tentar
converter “infiéis”. Perante esta temerária atitude, foram encarcerados nos
pisos mais isolados e profundos da fortaleza, e sujeitos à fome e a maus tratos
físicos.
Impressionado
com a situação e sentindo-se incapaz, pelos seus esforços, de os fazer abjurar
da fé no Cristianismo, Abu El-Ola deu ordem para que fossem entregues a um
fidalgo castelhano, Pedro Fernandes de Castro, que embarcava para Marrocos.
Em Marrocos, foram
levados ao Infante D. Pedro de Portugal, filho de D. Sancho I, que, devido a
conflitos com o irmão, D. Afonso II, se havia refugiado junto do Miramolim. D.
Pedro, que nos referidos conflitos tomara partido de D. Sancha, que já acolhera
estes mártires em Alenquer, deu-lhes hospedagem e ouviu a sua história.
Conhecedor de Marrocos, onde estava ao serviço do Miramolim almóada, aconselhou
os frades a não pregarem. Contudo, de nada resultaram os avisos de prudência. À
primeira oportunidade, saíram do palácio e foram pregar junto das populações
muçulmanas.
Temendo pela segurança
dos missionários, D. Pedro conduziu-os a Ceuta onde os julgou em mais segurança
para regressarem a terras cristãs. Mas de imediato os religiosos ignoraram a
preocupação e os cuidados do infante, e regressaram, tendo sido novamente
presos.
Adensando a incerteza
sobre o que se terá passado nesta mirabolante história, contam as tradições
que, após vinte dias de prisão, o povo islâmico se terá amotinado, exigindo a
libertação dos missionários. Atribuíam aos maus tratos de que os cativos eram
vítimas no seu cárcere a causa de uma epidemia que alastrava por toda a cidade.
Foram reconduzidos à
proteção de D. Pedro, passando a acompanhar o infante português. Numa expedição
em que D. Pedro acompanhou o Miramolim, Frei Berardo terá realizado um famoso
milagre da água: perante um exército sedento, o frade bateu três vezes com o
báculo numa pedra donde brotou uma fonte que saciou a sede às hostes militares,
reproduzindo o gesto milagroso de Moisés no deserto.
Contudo, e apesar deste
milagre que muito bem deve ter caído nas hostes muçulmanas, quando regressaram
à cidade, os frades ousaram converter o Miramolim, em pleno dia de festa
religiosa. E o soberano acabou por ordenar a sua prisão e tortura.
Mas o desejo de martírio
era muito mais forte que o sentido da preservação da vida. Apesar de a populaça
interceder novamente pelos frades e de, mais uma vez, eles serem enviados para
Ceuta, eles regressaram de novo, fazendo recair sobre si a ira.
No dia 16 de Janeiro de
1220, foram chamados à presença do Miramolim. Num quadro de significativa
generosidade, os frades não renunciaram à sua fé, e preferiram injuriar o
Profeta Maomé, atingindo o desejado martírio que, aliás, já tinham previsto em
Coimbra.
Terá sido o próprio
Miramolim a degolar os frades com a sua própria espada. Despedaçados, os seus
corpos foram espalhá-los pelos campos, já que o fogo não os consumira.
Recolhidos depois, por alguns mouros, os corpos despedaçados foram entregues a
D. Pedro, que os doou a João Roberto, cónego do Mosteiro de Santa Cruz de
Coimbra. Ainda nesse ano, a 10 de Dezembro de 1220, as relíquias foram
recebidas em Coimbra por D. Afonso II.
O culto a estes Santos Mártires
foi imediato e desenvolveu-se bastante até aos séculos XV-XVI. Em Santa Cruz surgiu a Confraria dos Invictos
Santos Mártires de Marrocos, e um pouco por toda a região coimbrã nasceram
tradições das mais inesperadas em torno deste grupo de franciscanos.
No dia 16 de Janeiro, realizava-se a Procissão dos Nus, com início no rocio
de Santa Clara, junto ao Convento de S. Francisco da Ponte, que terminava na
igreja do mosteiro de Santa Cruz. Esta Procissão dos Nus, diz a tradição, terá
tido origem numa promessa de um habitante da localidade de Fala, dos arrabaldes
de Coimbra. No ano de 1423, aquando de uma epidemia de peste, este terá
prometido aos Mártires, no caso de cura dos filhos, todos os anos ir em
procissão com os filhos, nus da cintura para cima e dos joelhos para baixo,
rezar no mosteiro de Santa Cruz. Após ter sido a maior procissão da cidade no
século XVIII, ela foi suspensa em 1798 por constantes desacatos.
António, um laboratório de identidade
Frei Marcos de
Lisboa, na Primeira Parte das Chronicas da Ordem dos Frades Menores do
Seraphico P. S. Francisco (1557), indica a data de 15 de agosto de 1195
para o seu nascimento. Contudo, não há certezas sobre essa data. É também Frei
Marcos de Lisboa, já no século XVI, vários séculos após a vida do santo, a
«fixar» a paternidade, apontando os nomes de Martinho de Bulhões e Teresa
Taveira. O seu nome da batismo passa a ser, comummente, Fernando de Bulhões.
Os seus estudos
terão tido início na Igreja de Santa Maria Maior, dos cónegos regrantes da
Ordem de Santo Agostinho, tendo ingressado na Ordem, no Mosteiro de S. Vicente
de Fora, por volta dos 20 anos de idade. Terá estado pouco tempo no mosteiro em
Lisboa, tendo-se mudado para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
Terá sido aí, em
Coimbra, enquadrado pela impressionante biblioteca monacal que os Padres
Crúzios tinham organizado, que ele terá obtido as bases do seu pensamento
teológico e o conhecimento dos grandes autores que marcavam o pensamento
cristão.
A sua ordenação
sacerdotal terá sido, provavelmente, entre 1219 e 1220, por volta dos 25 anos
de idade.
Terá sido por
esta altura que se deu um episódio marcante na vida e no sentido de missão de
Fernando de Bulhões. Aqueles que viriam mais tarde a ser conhecidos como os
Mártires de Marrocos passaram pelo Mosteiro de Santa Cruz, pregando e
instruindo, antes da sua derradeira viagem. Ora, tocado pela pregação destes
homens, Fernando adere à sua interpretação da missão, ao vir a tomar
conhecimento do epílogo fatídico dessa viagem.
Fernando
abandona Santa Cruz de Coimbra e junta-se a outros franciscanos, no eremitério
de Santo Antão nos Olivais. Muda então o seu nome para António, numa profunda
invocação a Santo António do Deserto (Antão do Egito, «fundador» do monaquismo
cristão, nos séculos IV-V).
Procurando o seu
sentido de missão, embarca para Marrocos no início de outubro de 1220. Não
voltará mais a Portugal. E conta a tradição que teve de abandonar o seu
objetivo de missão devido a uma doença. No regresso, uma tempestade leva-o para
a Sicília, onde se recolhe num convento franciscano em Messina. Estaríamos,
então, na Páscoa de 1221.
Terá sido ainda
nesta primavera de 1221 que António se embrenhou mais ainda na vida
franciscana. Em maio, integrou o grupo de frades que se deslocaram a Assis onde
se realizava o Capítulo Geral da Ordem, com a presença do próprio Francisco.
No final do
Capítulo, António terá criado uma maior proximidade com o novo Provincial da
Romanha, Frei Graciano. Foi, então, enviado para o eremitério de Montepaolo,
onde passará 15 meses em meditação e disciplina profundas.
Para além das
pias atitudes e do sentido profundo de missão, António faz-se notar como grande
orador e excelente teólogo quando, nesse período, participa numa cerimónia de
ordenação de Irmãos, tomando da palavra, aparentemente de improviso, perante
uma grande assembleia de Franciscanos e de Dominicanos.
Marcado um
estilo, no Capítulo Provincial seguinte, António foi o escolhido como pregador
na província da Romanha, e viu o seu estatuto reforçado, na Ordem, quando, em
novembro de 1223, o papa Honório III sancionou a versão final da Regra da Ordem
Franciscana, em que a oratória e a erudição foram contempladas como parte
integrante da formação e da ação dos frades, se bem que sob a condição de
estarem subordinadas ao trabalho manual, à prece e à vida espiritual. Neste
sentido, é o próprio Francisco de Assis que o convida para ingressar na Casa de
Estudantes que a Ordem abrira em Bolonha.
O seu lugar de
relevo no seio da Ordem torna-se cada vez mais significativo, quer dentro dos
objetivos da fraternidade fundada por Francisco, quer na política papal da
época. Logo em setembro de 1224, António foi enviado para Montpellier e
Toulouse, para pregar em meios onde cresciam preocupantemente movimentos
heréticos.
Em termos de
cargos e funções, o seu caminho também foi rápido na hierarquia: quando, em
1226, participou do Capítulo Provincial em Arles, foi eleito custódio da
província de Limoges, e quando, após a morte de Francisco, houve necessidade de
apresentar a Regra da Ordem ao Papa, António foi o escolhido para ser recebido por
Gregório IX. Em 1227, João Parente, eleito sucessor de Francisco, nomeou-o
provincial da Romanha.
Foi apenas em
1230 que António se estabeleceu em Pádua. Terá sido nessa data que pediu ao Papa
a dispensa do cargo de provincial para se dedicar exclusivamente à pregação.
Contudo, a vida de António seria curta. Com cerca de quarenta anos, em 1231,
adoeceu gravemente. Retirado para um eremitério nos arredores da cidade, pediu
para regressar, assim que sentiu estar próximo o seu último momento. Não chegou
a entrar vivo na cidade, falecendo no convento das clarissas de Arcella, junto
a Pádua, a 13 de junho.
O seu corpo foi
levado e sepultado na Igreja de Nossa Senhora de Pádua. Em 1263, os seus restos
mortais foram depositados na Basília que tomou o seu nome: Santo António de
Pádua. No processo de trasladação, a sua língua foi encontrada incorrupta,
facto considerado milagroso e demonstrador da sua santa oratória. S.
Boaventura, presente nesse momento, afirmou ser esse o milagre da prova de que
a sua pregação era inspirada por Deus. Por isso, desde então, a Palavra foi
considerada como significado maior da missão de António, e à luz dessa longa
tradição, foi proclamado Doutor da Igreja, em 1946, pelo papa Pio XII.
Desde cedo
começaram a ser passadas a escrito algumas das suas prédicas ou sermões, que
rapidamente se tornam guias para irmãos e restantes sacerdotes.
Mais que
escritos, nasceram muitas lendas, sendo o famoso milagre do «sermão aos peixes»
dos que mais contribuiu para a difusão da imagem de santidade de António. O padre António Vieira deu uma dimensão ainda
maior a esta lenda, em torno da sua pregação em Rimini, quando os hereges a
quem se dirigia o não quiseram ouvir, levando o franciscano a decidir-se por
pregar às aquáticas criaturas, talvez mais capazes de o escutar.
Pregado em S. Luís do Maranhão, decorria o ano de 1654, Vieira afirma:
Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino,
contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são
dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a
se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que
faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos
sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços
não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra
não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia?
Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a
covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se
rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o
auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias;
deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não
querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh
poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a
concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por
sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.
Da mesma forma,
o elemento que será, para sempre, a marca distintiva da sua iconografia – o Menino
sentado em cima de um livro aberto nas suas mãos –, reflete muito bem uma
sinonímia criada pelo acaso: o Menino que do frade se aproximou e por ele fora
trazido para o improvisado colo, como que embevecido pelas palavras que da sua
boca ecoavam, é a dupla imagem, quer do episódio de Jesus em que pede que
deixem vir a si as criancinhas, as mais puras e as únicas, talvez, a conseguir
aceder às suas palavras, mas é também como que imagem do próprio Menino Jesus
como muito popularmente se crê, como que validando essas mesmas palavras tidas
por inspiradas – na mais pura forma, como criança, é o Verbo de Deus a sair do
texto das suas palavras.
Em Lisboa, as
festas em sua honra marcam atualmente o calendário de forma inquestionável. Já
o marcariam quando, na instauração da República, estas festas eram um lugar de
apaziguamento entre as autoridades republicanas muitas vezes anticatólicas e a
população que adere de maneira quase automática às festas do seu Santo.
As atuais
festividades, com centro nas Marchas e nos Casamentos de Santo António, são
criações da década de 30 do século XX, numa tentativa de «domesticar» a
dimensão de folia que se viveria no bairro antigo de Alfama. É ainda neste
bairro, longe da avenida, onde as ditas Marchas desfilam de forma ordenada,
numa formatura quase militar, que se juntam anualmente, na noite de 13 de
junho, centenas de milhares de pessoas, para festejar o popular e folgazão
Santo António que, nessa ocasião, não é comemorado como orador e lutador contra
hereges, e muito menos como eremita, mas sim como o jovem que, nas muitas
fontes dessa colina, abordava as jovens donzelas.
Mantém-se ainda
profundamente enraizado, na memória alfacinha, um largo número de tradições em
torno do Santo, que apenas o conhece por Santo António de Lisboa, de forma
inquestionável e quase bairrista, do qual emerge um poder quase mágico para
fazer aparecer artefactos perdidos. O Responso
ao Santo, oração que tem de ser recitada sem engano algum, ainda hoje é das pagelas
mais vendidas na sua igreja, mesmo junto à Sé de Lisboa, em Alfama.
Hoje, este santo
é uma das mais importantes marcas do cristianismo católico e solo português.
São quase sem número as igrejas a ele dedicadas, assim como festas,
instituições, escolas e tudo o mais que possamos imaginar com peso na
sociedade.
Sem dúvida,
Santo António pode não ser de Lisboa, reclamado por Pádua, mas é-o dos
portugueses, da sua identidade.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
A construção na adversidade, ou a homenagem a José Eduardo Franco
Para uma geração, hoje é um dia feliz. Ironicamente feliz. Mas sim, muito feliz!
José Eduardo Franco recebe hoje a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Estado Português. Será o mais jovem cidadão a receber este galardão.
Para uma geração, a que hoje é tantas vezes designada como a mais habilitada de todas, a mais instruída, a mais capacitada, o Eduardo Franco é sinónimo de trabalho, de esforço, de capacidade, de empreendedorismo em quadros muitas vezes adversos, mas sempre com uma força e um sentido de missão que o levou a superar todos os obstáculos, mesmo aqueles lançados por quem teria todo o dever de o acolher, acarinhar e dar apoio.
Eduardo Franco fez todo um percurso, comum na minha geração, de bolsas e de projectos. Comeu o pão que o diabo amassou com milhares e milhares de horas voluntárias em projectos de outrem. Deu o seu melhor em projectos que idealizou e dirigiu, e onde foi sempre o maior e inqualificável motor. Foi o responsável por muitos elementos altamente honrosos em relatórios de actividades de muitas instituições que, sem ele, pouco ou nada teriam para apresentar.
E, contudo, após um punhado de grandes encontros científicos internacionais marcantes, após vários projectos de investigação onde conseguiu reunir dezenas de investigadores e fundos imensos, após, dezenas e dezenas de livros publicados, o Eduardo Franco foi "apenas" mais um de nós na precaridade que nunca tiveram a coragem de lhe retirar, como se essa dimensão de inovação e de capacidade de trabalho fosse uma mácula, uma culpa, mesmo, que transportava por ser dinâmico e empreendedor, por não se resignar.
O Eduardo Franco tem como maior prova da sua capacidade e generosidade o desprezo a que é votado pelos ilustres da parte mais bafienta da nossa academia que continuam a achar que o Saber deve estra fechado e retido entre paredes onde apenas é gerido pelas políticas de progressão na carreira académica ou por simples mecanismos de tutela do poder simbólico que a cultura permite. Não, não são apenas alguns velhos do restelo, nem mesmo velhos, apenas. É algo que nos remete para uma passividade que engorda os que não se movem e os que não arriscam.
O mais irónico é ver essa elite académica, parada, estática, tendente para a quietude, a ter de aplaudir um homem que é a negação do estar parado. O Eduardo Franco concebe a cultura como uma realidade transversal a toda a sociedade e, em sentido de retorno, a ela regressando para a alimentar. A Cultura, afinal, só faz sentido se for direcionada para todos os grupos sociais. Só assim uma identidade se pode construir no futuro através da análise do passado. Tudo o resto não acaba por ser muito mais que um exercício de ego entre iluminados que numa mecânica autofágica se congratulam uns aos outros, esquecendo que há mundo para lá das paredes da sua sala de aula.
Felizmente, temos generosidades como a do Eduardo Franco. Uma generosidade de uma cultura aberta, que olha para a produção cultural como uma realidade de todos e para todos, sorridente e não cabisbaixa, empenhada no futuro e não resguardada nas paredes poeirentas da academia onde o estatuto corresponde a autoridade, negando a mais elementar natureza do trabalho científico: o debate aberto para a superação de ideias.
Felizmente, temos o Eduardo Franco para nos mostrar algo que, no campo das Humanidades, até nos poderia passar ao lado: afinal, e recompondo a frase batida mas muito actual, a universidade até pode iluminar o Povo antes de arder!
É da mais elementar justiça este acto de atribuição desta medalha. Afinal, a existir, Ele escreve direito por linhas tortas!
O maior abraço!
Continua a trabalhar.
Continua como és.
José Eduardo Franco recebe hoje a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Estado Português. Será o mais jovem cidadão a receber este galardão.
Para uma geração, a que hoje é tantas vezes designada como a mais habilitada de todas, a mais instruída, a mais capacitada, o Eduardo Franco é sinónimo de trabalho, de esforço, de capacidade, de empreendedorismo em quadros muitas vezes adversos, mas sempre com uma força e um sentido de missão que o levou a superar todos os obstáculos, mesmo aqueles lançados por quem teria todo o dever de o acolher, acarinhar e dar apoio.
Eduardo Franco fez todo um percurso, comum na minha geração, de bolsas e de projectos. Comeu o pão que o diabo amassou com milhares e milhares de horas voluntárias em projectos de outrem. Deu o seu melhor em projectos que idealizou e dirigiu, e onde foi sempre o maior e inqualificável motor. Foi o responsável por muitos elementos altamente honrosos em relatórios de actividades de muitas instituições que, sem ele, pouco ou nada teriam para apresentar.
E, contudo, após um punhado de grandes encontros científicos internacionais marcantes, após vários projectos de investigação onde conseguiu reunir dezenas de investigadores e fundos imensos, após, dezenas e dezenas de livros publicados, o Eduardo Franco foi "apenas" mais um de nós na precaridade que nunca tiveram a coragem de lhe retirar, como se essa dimensão de inovação e de capacidade de trabalho fosse uma mácula, uma culpa, mesmo, que transportava por ser dinâmico e empreendedor, por não se resignar.
O Eduardo Franco tem como maior prova da sua capacidade e generosidade o desprezo a que é votado pelos ilustres da parte mais bafienta da nossa academia que continuam a achar que o Saber deve estra fechado e retido entre paredes onde apenas é gerido pelas políticas de progressão na carreira académica ou por simples mecanismos de tutela do poder simbólico que a cultura permite. Não, não são apenas alguns velhos do restelo, nem mesmo velhos, apenas. É algo que nos remete para uma passividade que engorda os que não se movem e os que não arriscam.
O mais irónico é ver essa elite académica, parada, estática, tendente para a quietude, a ter de aplaudir um homem que é a negação do estar parado. O Eduardo Franco concebe a cultura como uma realidade transversal a toda a sociedade e, em sentido de retorno, a ela regressando para a alimentar. A Cultura, afinal, só faz sentido se for direcionada para todos os grupos sociais. Só assim uma identidade se pode construir no futuro através da análise do passado. Tudo o resto não acaba por ser muito mais que um exercício de ego entre iluminados que numa mecânica autofágica se congratulam uns aos outros, esquecendo que há mundo para lá das paredes da sua sala de aula.
Felizmente, temos generosidades como a do Eduardo Franco. Uma generosidade de uma cultura aberta, que olha para a produção cultural como uma realidade de todos e para todos, sorridente e não cabisbaixa, empenhada no futuro e não resguardada nas paredes poeirentas da academia onde o estatuto corresponde a autoridade, negando a mais elementar natureza do trabalho científico: o debate aberto para a superação de ideias.
Felizmente, temos o Eduardo Franco para nos mostrar algo que, no campo das Humanidades, até nos poderia passar ao lado: afinal, e recompondo a frase batida mas muito actual, a universidade até pode iluminar o Povo antes de arder!
É da mais elementar justiça este acto de atribuição desta medalha. Afinal, a existir, Ele escreve direito por linhas tortas!
O maior abraço!
Continua a trabalhar.
Continua como és.
domingo, 13 de setembro de 2015
"Será que todos são todos?" sim, todos são O TODOS
O fim de tarde de domingo arrisca-se muitas vezes a ser como que um não-lugar, um já-não-fim-de-semana, já a pensar em segunda-feira, mas sem ainda o ser. Não me afligem os regressos aos afazeres da semana, mas gosto de marcar esse fim de fim-de-semana de forma significativa, com algo que me preencha. Felizmente, hoje isso aconteceu, teve lugar na igreja do Hospital dos Capuchos, o antigo convento dos franciscanos na hoje chamada "colina dos hospitais".
E este fim de tarde foi tão mais significativo porque vivemos tempos brutalmente conturbados, sem que a maioria de nós dê minimamente por isso, ocupados que estamos na sobre-vivência, incapazes de viver, quer os gestos magníficos de uma boa música, quer os indícios imensos de fim de linha, de grande mudança de tempos que se aproxima.
Encerramos fronteiras, construímos muros, e fechamos uma Europa como se ela pudesse estar fechada, ou mesmo, como se ela, tentando-se fechar, assim pudesse permanecer. Sempre fomos muito zelosos da nossa identidade ou das formas como nos definimos, como se "de" + "finir" não nos conduzisse irremediavelmente para um fim, um terminus que pode parecer coerente, completo, até honroso, mas não deixa de ser um ponto final, fechado sobre si mesmo.
É irónico que hoje a dita igreja dos capuchinhos tenha recebido um grupo de música do século XVI, trazendo sob o título de Diásporas um leque estupendo de interpretações de músicas com sabor a África,a Brasil, a Índia, a Portugal. E é irónico porque estas músicas muitas delas os frades capuchinhos terão ouvido ou até cantado. Mas o sue sentido era o de converter o outro, não o de integrar a sua cultura. Hoje, nesta igreja onde tantas vezes devem ter rezado frades a pedir a Deus as capacidades para converter, ouvimos a fusão da não-conversão, da não-aniquilação da diferença.
O Festival Todos tem este condão de nos levar a vaguear por uns fora de nos que nos fazem perceber que esse fora somos nós mesmos no nosso matizado de heranças e de vizinhanças. O concerto deste fim de tarde foi em tudo um momento de franco diálogo entre diferentes.
E os diferentes foram muitos. A antiga igreja estava repleta, com gente fora da porta, amontoada, a ouvir as belas vozes de contratenor dos dois solistas. Idosos locais, muitos; gente ligada às lides das artes, reconhecíveis pela indumentária reconhecível, quase de tribo, imensos. Todos cidadãos a ouvir. Pelo meio, quando uma música terminava, com a liberdade de um concerto sem solenidade, livre, algumas pessoas iam saindo, dando lugar a umas outras tantas que então entravam.
Aí, era da mais rica expressão as faces e os rostos. Quanto de nacionalidades eu vi passar à minha frente! Mas as nacionalidades são nada exactas e menos correctas. Eram rostos que mostravam algum aspecto diferente do meu, mas os ouvidos tinham-se, tal como os meus, deliciado nos sons que, convenhamos, nem a uns, nem a outros diziam directamente nada. Ou diriam a todos, no emaranhado de heranças que somos.
No meio de gentes variadas, saem também senhoras idosas, talvez moradoras sozinhas do bairro. talvez crentes que ao domingo debandam a uma igreja me busca de missa. Sim, talvez, porque muitas foram as que ao sair fizeram o mais delicioso gesto repetitivo, de uma vida inteira: viradas para o altar onde nenhum sacrário estava, benzeram-se no gesto de sempre, mas agora, sem darem por isso, na direcção dos músicos, como que assumindo a dimensão sagrada do que ali acontecia.
Ainda pelo meio, uma rapariga negra num fundo alvo que contrastava ainda mais a sua tez, saia do meio das gentes. Fez o gesto, o caminho, de tantas outras. Benzeu-se ao sair. Mas não saía para uma rua qualquer, para ir para casa, ou não fosse esta igreja agora parte integrante de um hospital. Ela era uma doente internada, de roupão da própria instituição tinha vindo ao concerto.
Não sei se a música agradou a esta jovem doente, acolhida nesse hospital - quer no hospital, quer num concerto, é de acolhimento que devemos falar. Apenas sei que a certo momento, um pombo entrou no edifício vindo de uma brecha qualquer, um rombo no telhado, ou uma janela partida. Esvoaçou e colocou-se no topo de uma coluna junto ao lançamento do arco da cobertura. Claramente olhava a multidão com um ar de espanto. Sem ter obtido respostas, se eram questões o que tinha, levantou voo e, assim como entrara, assim saíra. Nada mais, a não ser uma imagem que culturalmente nos remete para paz.
E paz é, sem dúvida, o centro dinâmico deste festival. Paz é estar com os vizinhos, os próximos, sejam eles diferentes ou pretensiosamente iguais. Hoje, saindo da igreja dos capuchinhos, e passando para as longas e intermináveis filas de migrantes a atentar entrar na Europa, mais uma vez me assola a pergunta: porque nascem uns numa Europa livre e bem alimentada, confortável, e com educação e saúde, e outros são nados de belos locais, mas perseguidos pela morte que parece estar-lhes colada a um qualquer destino desde que foram concebidos?
Lembro-me de uma frase, de uma sabedoria popular e profunda, como poucas, porque respira vida, uma vida ingrata, sentida e desiludida, talvez. Há uns anos, uma amiga relatou-me uma situação em que um imigrante, possivelmente cabo-verdiano, entre algum álcool e muito mais de confronto com o pais de acolhimento, dizia aos seus companheiros de viagem no autocarro que vinha de Odivelas para Lisboa: "será que todos são todos?" questionando a suposta igualdade que não encontrava no dia-a-dia.
No TODOS, todos fomos todos em momentos como o que eu tratei agora. Mas ao longo destes anos que o festival já leva, muitas mais foram as ocasiões em que senti, sem dúvida, esse sentimento único de Todos serem Todos, sem excepção, sem máculas nem reparos, sem dúvidas nem constrangimentos.
À Academia de Produtores Culturais, ao Miguel Abreu, à Madalena Vitorino, ao Giacomo Scalisi, para apenas citar quem me está mais próximo entre tantos os que montam esta delícia, o meu obrigado!
E este fim de tarde foi tão mais significativo porque vivemos tempos brutalmente conturbados, sem que a maioria de nós dê minimamente por isso, ocupados que estamos na sobre-vivência, incapazes de viver, quer os gestos magníficos de uma boa música, quer os indícios imensos de fim de linha, de grande mudança de tempos que se aproxima.
Encerramos fronteiras, construímos muros, e fechamos uma Europa como se ela pudesse estar fechada, ou mesmo, como se ela, tentando-se fechar, assim pudesse permanecer. Sempre fomos muito zelosos da nossa identidade ou das formas como nos definimos, como se "de" + "finir" não nos conduzisse irremediavelmente para um fim, um terminus que pode parecer coerente, completo, até honroso, mas não deixa de ser um ponto final, fechado sobre si mesmo.
É irónico que hoje a dita igreja dos capuchinhos tenha recebido um grupo de música do século XVI, trazendo sob o título de Diásporas um leque estupendo de interpretações de músicas com sabor a África,a Brasil, a Índia, a Portugal. E é irónico porque estas músicas muitas delas os frades capuchinhos terão ouvido ou até cantado. Mas o sue sentido era o de converter o outro, não o de integrar a sua cultura. Hoje, nesta igreja onde tantas vezes devem ter rezado frades a pedir a Deus as capacidades para converter, ouvimos a fusão da não-conversão, da não-aniquilação da diferença.
O Festival Todos tem este condão de nos levar a vaguear por uns fora de nos que nos fazem perceber que esse fora somos nós mesmos no nosso matizado de heranças e de vizinhanças. O concerto deste fim de tarde foi em tudo um momento de franco diálogo entre diferentes.
E os diferentes foram muitos. A antiga igreja estava repleta, com gente fora da porta, amontoada, a ouvir as belas vozes de contratenor dos dois solistas. Idosos locais, muitos; gente ligada às lides das artes, reconhecíveis pela indumentária reconhecível, quase de tribo, imensos. Todos cidadãos a ouvir. Pelo meio, quando uma música terminava, com a liberdade de um concerto sem solenidade, livre, algumas pessoas iam saindo, dando lugar a umas outras tantas que então entravam.
Aí, era da mais rica expressão as faces e os rostos. Quanto de nacionalidades eu vi passar à minha frente! Mas as nacionalidades são nada exactas e menos correctas. Eram rostos que mostravam algum aspecto diferente do meu, mas os ouvidos tinham-se, tal como os meus, deliciado nos sons que, convenhamos, nem a uns, nem a outros diziam directamente nada. Ou diriam a todos, no emaranhado de heranças que somos.
No meio de gentes variadas, saem também senhoras idosas, talvez moradoras sozinhas do bairro. talvez crentes que ao domingo debandam a uma igreja me busca de missa. Sim, talvez, porque muitas foram as que ao sair fizeram o mais delicioso gesto repetitivo, de uma vida inteira: viradas para o altar onde nenhum sacrário estava, benzeram-se no gesto de sempre, mas agora, sem darem por isso, na direcção dos músicos, como que assumindo a dimensão sagrada do que ali acontecia.
Ainda pelo meio, uma rapariga negra num fundo alvo que contrastava ainda mais a sua tez, saia do meio das gentes. Fez o gesto, o caminho, de tantas outras. Benzeu-se ao sair. Mas não saía para uma rua qualquer, para ir para casa, ou não fosse esta igreja agora parte integrante de um hospital. Ela era uma doente internada, de roupão da própria instituição tinha vindo ao concerto.
Não sei se a música agradou a esta jovem doente, acolhida nesse hospital - quer no hospital, quer num concerto, é de acolhimento que devemos falar. Apenas sei que a certo momento, um pombo entrou no edifício vindo de uma brecha qualquer, um rombo no telhado, ou uma janela partida. Esvoaçou e colocou-se no topo de uma coluna junto ao lançamento do arco da cobertura. Claramente olhava a multidão com um ar de espanto. Sem ter obtido respostas, se eram questões o que tinha, levantou voo e, assim como entrara, assim saíra. Nada mais, a não ser uma imagem que culturalmente nos remete para paz.
E paz é, sem dúvida, o centro dinâmico deste festival. Paz é estar com os vizinhos, os próximos, sejam eles diferentes ou pretensiosamente iguais. Hoje, saindo da igreja dos capuchinhos, e passando para as longas e intermináveis filas de migrantes a atentar entrar na Europa, mais uma vez me assola a pergunta: porque nascem uns numa Europa livre e bem alimentada, confortável, e com educação e saúde, e outros são nados de belos locais, mas perseguidos pela morte que parece estar-lhes colada a um qualquer destino desde que foram concebidos?
Lembro-me de uma frase, de uma sabedoria popular e profunda, como poucas, porque respira vida, uma vida ingrata, sentida e desiludida, talvez. Há uns anos, uma amiga relatou-me uma situação em que um imigrante, possivelmente cabo-verdiano, entre algum álcool e muito mais de confronto com o pais de acolhimento, dizia aos seus companheiros de viagem no autocarro que vinha de Odivelas para Lisboa: "será que todos são todos?" questionando a suposta igualdade que não encontrava no dia-a-dia.
No TODOS, todos fomos todos em momentos como o que eu tratei agora. Mas ao longo destes anos que o festival já leva, muitas mais foram as ocasiões em que senti, sem dúvida, esse sentimento único de Todos serem Todos, sem excepção, sem máculas nem reparos, sem dúvidas nem constrangimentos.
À Academia de Produtores Culturais, ao Miguel Abreu, à Madalena Vitorino, ao Giacomo Scalisi, para apenas citar quem me está mais próximo entre tantos os que montam esta delícia, o meu obrigado!
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Palmira - in Memoriam fotográfico
Como disse no post anterior, há uns anos tive a grato prazer de ir com o meu querido amigo Francisco Moura a Palmira.
Foi uma viagem sobre a qual muito teria a dizer. Fá-lo-ei em breve, neste mesmo sítio.
Mas agora fico pela reportagem fotográfica, pelo que de material se terá perdido nas últimas semanas às mãos dos terroristas inqualificáveis.
Assim era Palmira, a que conheci em 2008.
Foi uma viagem sobre a qual muito teria a dizer. Fá-lo-ei em breve, neste mesmo sítio.
Mas agora fico pela reportagem fotográfica, pelo que de material se terá perdido nas últimas semanas às mãos dos terroristas inqualificáveis.
No topo da colina, um forte medieval que domina a paisagem.
Cheguei ao fim do dia:
Lá em baixo, a cidade... a moderna e, em pleno diálogo, mesmo ao lado, a antiga, notando-se a via central do urbanismo romano, o cardo:
Desci, era noite.
A iluminação das principais artérias romanas deixava qualquer um num estado de êxtase.
Os edifícios da necrópole romana no Vale dos Túmulos terão sido, há mais de um mês, os primeiros a terem sido destruídos.
Estavam muito bem conservados.
Nas imediações da cidade, no deserto, era uma paisagem única, estes esguios edifícios plantados na areia.
As 10 primeiras imagens deste grupo são da Torre de Elahbel, então a mais bem conservada, erigida entre o séc. Ia.C. e I d.C., agora desaparecida.
As 10 primeiras imagens deste grupo são da Torre de Elahbel, então a mais bem conservada, erigida entre o séc. Ia.C. e I d.C., agora desaparecida.
A cidade antiga....
No museu, muito havia para ser visto e estudado...
O Templo de Baal Shamin, também já arrasado:
O Templo de Bel.
O edifício antigo que mais me impressionou e mais me marcou.
Grandioso nas suas dimensões e opulência.
(edifício central ao grande pátio - o "santo dos santos")
(túnel de entrada dos animais para sacrifício)
(esta e as próximas imagens: altares sacrificiais - com dimensões para sacrificar vários bovinos ao mesmo tempo)
(possivelmente, por onde escorreria o sangue)
O "santo dos santos", o centro ritual e sagrado do templo
Baixos-relevo junto ao edifício central
Procissão de entrada no próprio templo:
No século II d.C., mulheres de burca...
Recuperando a imagem bíblica, um soldado esmaga com o pé a serpente apocaliptica?
Altar de oferendas:
O próprio deus Bel?
Assim era Palmira, a que conheci em 2008.
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