sábado, 11 de junho de 2016

Em tempos de martírios, urge revisitar os «Mártires de Marrocos»


Tal como sucede para os mártires dos primeiros séculos do Cristianismo, onde a natureza por vezes verdadeiramente exótica dos milagres em torno de uma morte que é sempre um desafio ao “infiel”, também no caso destes mártires cristãos do século XIII, a procura do martírio parece ser mesmo o desígnio que os frades procuravam, apesar das inúmeras possibilidades de vida que lhes foram dadas, mesmo em quadros de verdadeira procura de um choque religioso que, obviamente, nunca terminaria bem.

Contudo, todos os dados e factos que nos chegaram pelas tradições escritas, por mais sólidos que ao longo dos séculos tenham parecido, movimentando crentes, fé e piedade, muito pouco parece ser factológico. É um campo de mito e de lenda onde se espraiam os desejos e as preocupações religiosas de uma época de extremos onde a busca da morte era muitas vezes a única via para um quadro quotidiano positivo, um sentido superior para a vida.

De que tenhamos conhecimento, a primeira versão desta complexa lenda dos mártires de Marrocos foi redigida ainda em vida de S. Francisco, intitulada Chronica Fratis Iordani a Iano, incluída na Analecta Franciscana. Terá sido no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra que se desenvolveram obras hagiográficas sobre os mártires franciscanos, surgindo documentos de devoção que relatavam os seus milagres. A sistematização deste grupo de lendas é de 1568, quando foi redigida a obra Tratado da Vida e Martírio dos Cinco Mártires de Marrocos, de João Álvares, uma adaptação portuguesa da Legenda Martyrum Marochii (obra de c. 1476).

O imaginário cristão foi tão forte em torno das tradições dos Mártires de Marrocos, que rapidamente a iconografia se desenvolveu. As primeiras obras artísticas dedicadas a este martírio também têm origem conimbricense, só depois passando a ser um assunto utilizado pelos artistas de todo o País, quer em quadros e esculturas, quer em gravuras ou peças de ourivesaria, proporcionando um dos temas mais recorrentes na iconografia portuguesa.

Contudo, os Santos Mártires de Marrocos não são, de facto, naturais de Portugal. São cinco frades italianos da região da Toscânia, de seu nome: Frei Berardo, pregador e arabista, Frei Otto, sacerdote, Frei Pedro, diácono, e Frei Adjuto e Frei Acúrsio, frades leigos, a que acrescia Frei Vidal, que presidia a missão.

A origem da missão encontra-se na II Assembleia Geral da Ordem Franciscana em Assis, onde Francisco de Assis elegeu esses frades como missionários em Marrocos. De Itália saíram os seis missionários rumo à Ibéria, de onde pretendiam partir para Marrocos.

E é logo nos primeiros momentos que a missão ganha contornos inesperados: em Aragão, Frei Vidal adoece gravemente e fica impossibilitado de prosseguir junto com os seus companheiros. Sem outra solução, nomeia para o substituir na presidência da missão Frei Berardo. Debilitado, Frei Vidal acabaria por morrer sem a coroa do martírio, poucos dias após a notícia da morte dos cinco frades.

Seguindo caminho, os missionários dirigem-se a Coimbra, onde D. Urraca lhes dá guarida. Num misto de fé e de misticismo, a rainha suplica aos frades que lhe revelem o momento da sua morte. Relutantes, acabam por predizer que a vida de D. Urraca apenas chegaria ao seu termo quando de Marrocos os cristãos trouxessem a Coimbra os seus corpos martirizados.

Nesta estadia em Coimbra, um jovem, Fernando de Bulhões, que, mais tarde, será outro grande santo português (Santo António) terá ouvido as suas prédicas no mosteiro de Santa Cruz, episódio que em muito lhe influenciou a vida.

Pararam ainda em Alenquer, vila que recebera foral em 1212 de D. Sancha (beatificada, com as suas irmãs Teresa e Mafalda, em 1705), filha de D. Sancho I. Aí, a princesa, irmã do rei D. Afonso II, os dotou de víveres e trajes de mercadores, com os quais se deveriam disfarçar quando chegassem a Sevilha.

Iniciando uma postura de assumida afronta, denotando a crença na posse do Espírito Santo que, não apenas os livraria de qualquer medo, como os dotaria das palavras que levariam à imediata conversão dos mouros. Sem medo algum, trocaram as vestes, generosamente ofertadas por D. Sancha, pelo hábito franciscano e, assim vestidos, apresentaram-se na mesquita de Sevilha, onde iniciaram a sua pregação diante de uma multidão de muçulmanos. Julgando-os loucos, foram escorraçados da mesquita.

Frei Berardo e os companheiros conseguem, supostamente, apresentar os fundamentos da doutrina cristã perante Abu El-Ola, que governava Sevilha em nome de El-Mansur. Ainda sem terem passado ao Norte de África, os missionários são colocados perante a escolha da vida ou da morte. Obstinados na sua vontade, El-Ola obrigou-os a escolher entre renegar a fé ou serem mortos. Os frades optaram pelo martírio, se bem que ainda fosse nesta data que o conseguissem. Foram poupados e levados como prisioneiros para a monumental atalaia de defesa da cidade junto ao Guadalquivir, mais tarde batizada como Torre del Oro.

Os missionários em nada desistiram do seu intento, e mesmo prisioneiros, continuaram a tentar converter “infiéis”. Perante esta temerária atitude, foram encarcerados nos pisos mais isolados e profundos da fortaleza, e sujeitos à fome e a maus tratos físicos.

Impressionado com a situação e sentindo-se incapaz, pelos seus esforços, de os fazer abjurar da fé no Cristianismo, Abu El-Ola deu ordem para que fossem entregues a um fidalgo castelhano, Pedro Fernandes de Castro, que embarcava para Marrocos.

Em Marrocos, foram levados ao Infante D. Pedro de Portugal, filho de D. Sancho I, que, devido a conflitos com o irmão, D. Afonso II, se havia refugiado junto do Miramolim. D. Pedro, que nos referidos conflitos tomara partido de D. Sancha, que já acolhera estes mártires em Alenquer, deu-lhes hospedagem e ouviu a sua história. Conhecedor de Marrocos, onde estava ao serviço do Miramolim almóada, aconselhou os frades a não pregarem. Contudo, de nada resultaram os avisos de prudência. À primeira oportunidade, saíram do palácio e foram pregar junto das populações muçulmanas.

Temendo pela segurança dos missionários, D. Pedro conduziu-os a Ceuta onde os julgou em mais segurança para regressarem a terras cristãs. Mas de imediato os religiosos ignoraram a preocupação e os cuidados do infante, e regressaram, tendo sido novamente presos.

Adensando a incerteza sobre o que se terá passado nesta mirabolante história, contam as tradições que, após vinte dias de prisão, o povo islâmico se terá amotinado, exigindo a libertação dos missionários. Atribuíam aos maus tratos de que os cativos eram vítimas no seu cárcere a causa de uma epidemia que alastrava por toda a cidade.

Foram reconduzidos à proteção de D. Pedro, passando a acompanhar o infante português. Numa expedição em que D. Pedro acompanhou o Miramolim, Frei Berardo terá realizado um famoso milagre da água: perante um exército sedento, o frade bateu três vezes com o báculo numa pedra donde brotou uma fonte que saciou a sede às hostes militares, reproduzindo o gesto milagroso de Moisés no deserto.

Contudo, e apesar deste milagre que muito bem deve ter caído nas hostes muçulmanas, quando regressaram à cidade, os frades ousaram converter o Miramolim, em pleno dia de festa religiosa. E o soberano acabou por ordenar a sua prisão e tortura.

Mas o desejo de martírio era muito mais forte que o sentido da preservação da vida. Apesar de a populaça interceder novamente pelos frades e de, mais uma vez, eles serem enviados para Ceuta, eles regressaram de novo, fazendo recair sobre si a ira.

No dia 16 de Janeiro de 1220, foram chamados à presença do Miramolim. Num quadro de significativa generosidade, os frades não renunciaram à sua fé, e preferiram injuriar o Profeta Maomé, atingindo o desejado martírio que, aliás, já tinham previsto em Coimbra.

Terá sido o próprio Miramolim a degolar os frades com a sua própria espada. Despedaçados, os seus corpos foram espalhá-los pelos campos, já que o fogo não os consumira. Recolhidos depois, por alguns mouros, os corpos despedaçados foram entregues a D. Pedro, que os doou a João Roberto, cónego do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Ainda nesse ano, a 10 de Dezembro de 1220, as relíquias foram recebidas em Coimbra por D. Afonso II.

O culto a estes Santos Mártires foi imediato e desenvolveu-se bastante até aos séculos XV-XVI. Em Santa Cruz surgiu a Confraria dos Invictos Santos Mártires de Marrocos, e um pouco por toda a região coimbrã nasceram tradições das mais inesperadas em torno deste grupo de franciscanos.

No dia 16 de Janeiro, realizava-se a Procissão dos Nus, com início no rocio de Santa Clara, junto ao Convento de S. Francisco da Ponte, que terminava na igreja do mosteiro de Santa Cruz. Esta Procissão dos Nus, diz a tradição, terá tido origem numa promessa de um habitante da localidade de Fala, dos arrabaldes de Coimbra. No ano de 1423, aquando de uma epidemia de peste, este terá prometido aos Mártires, no caso de cura dos filhos, todos os anos ir em procissão com os filhos, nus da cintura para cima e dos joelhos para baixo, rezar no mosteiro de Santa Cruz. Após ter sido a maior procissão da cidade no século XVIII, ela foi suspensa em 1798 por constantes desacatos.

António, um laboratório de identidade


Frei Marcos de Lisboa, na Primeira Parte das Chronicas da Ordem dos Frades Menores do Seraphico P. S. Francisco (1557), indica a data de 15 de agosto de 1195 para o seu nascimento. Contudo, não há certezas sobre essa data. É também Frei Marcos de Lisboa, já no século XVI, vários séculos após a vida do santo, a «fixar» a paternidade, apontando os nomes de Martinho de Bulhões e Teresa Taveira. O seu nome da batismo passa a ser, comummente, Fernando de Bulhões.

Os seus estudos terão tido início na Igreja de Santa Maria Maior, dos cónegos regrantes da Ordem de Santo Agostinho, tendo ingressado na Ordem, no Mosteiro de S. Vicente de Fora, por volta dos 20 anos de idade. Terá estado pouco tempo no mosteiro em Lisboa, tendo-se mudado para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Terá sido aí, em Coimbra, enquadrado pela impressionante biblioteca monacal que os Padres Crúzios tinham organizado, que ele terá obtido as bases do seu pensamento teológico e o conhecimento dos grandes autores que marcavam o pensamento cristão.

A sua ordenação sacerdotal terá sido, provavelmente, entre 1219 e 1220, por volta dos 25 anos de idade.

Terá sido por esta altura que se deu um episódio marcante na vida e no sentido de missão de Fernando de Bulhões. Aqueles que viriam mais tarde a ser conhecidos como os Mártires de Marrocos passaram pelo Mosteiro de Santa Cruz, pregando e instruindo, antes da sua derradeira viagem. Ora, tocado pela pregação destes homens, Fernando adere à sua interpretação da missão, ao vir a tomar conhecimento do epílogo fatídico dessa viagem.

Fernando abandona Santa Cruz de Coimbra e junta-se a outros franciscanos, no eremitério de Santo Antão nos Olivais. Muda então o seu nome para António, numa profunda invocação a Santo António do Deserto (Antão do Egito, «fundador» do monaquismo cristão, nos séculos IV-V).

Procurando o seu sentido de missão, embarca para Marrocos no início de outubro de 1220. Não voltará mais a Portugal. E conta a tradição que teve de abandonar o seu objetivo de missão devido a uma doença. No regresso, uma tempestade leva-o para a Sicília, onde se recolhe num convento franciscano em Messina. Estaríamos, então, na Páscoa de 1221.

Terá sido ainda nesta primavera de 1221 que António se embrenhou mais ainda na vida franciscana. Em maio, integrou o grupo de frades que se deslocaram a Assis onde se realizava o Capítulo Geral da Ordem, com a presença do próprio Francisco.

No final do Capítulo, António terá criado uma maior proximidade com o novo Provincial da Romanha, Frei Graciano. Foi, então, enviado para o eremitério de Montepaolo, onde passará 15 meses em meditação e disciplina profundas.

Para além das pias atitudes e do sentido profundo de missão, António faz-se notar como grande orador e excelente teólogo quando, nesse período, participa numa cerimónia de ordenação de Irmãos, tomando da palavra, aparentemente de improviso, perante uma grande assembleia de Franciscanos e de Dominicanos.

Marcado um estilo, no Capítulo Provincial seguinte, António foi o escolhido como pregador na província da Romanha, e viu o seu estatuto reforçado, na Ordem, quando, em novembro de 1223, o papa Honório III sancionou a versão final da Regra da Ordem Franciscana, em que a oratória e a erudição foram contempladas como parte integrante da formação e da ação dos frades, se bem que sob a condição de estarem subordinadas ao trabalho manual, à prece e à vida espiritual. Neste sentido, é o próprio Francisco de Assis que o convida para ingressar na Casa de Estudantes que a Ordem abrira em Bolonha.

O seu lugar de relevo no seio da Ordem torna-se cada vez mais significativo, quer dentro dos objetivos da fraternidade fundada por Francisco, quer na política papal da época. Logo em setembro de 1224, António foi enviado para Montpellier e Toulouse, para pregar em meios onde cresciam preocupantemente movimentos heréticos.

Em termos de cargos e funções, o seu caminho também foi rápido na hierarquia: quando, em 1226, participou do Capítulo Provincial em Arles, foi eleito custódio da província de Limoges, e quando, após a morte de Francisco, houve necessidade de apresentar a Regra da Ordem ao Papa, António foi o escolhido para ser recebido por Gregório IX. Em 1227, João Parente, eleito sucessor de Francisco, nomeou-o provincial da Romanha.

Foi apenas em 1230 que António se estabeleceu em Pádua. Terá sido nessa data que pediu ao Papa a dispensa do cargo de provincial para se dedicar exclusivamente à pregação. Contudo, a vida de António seria curta. Com cerca de quarenta anos, em 1231, adoeceu gravemente. Retirado para um eremitério nos arredores da cidade, pediu para regressar, assim que sentiu estar próximo o seu último momento. Não chegou a entrar vivo na cidade, falecendo no convento das clarissas de Arcella, junto a Pádua, a 13 de junho.

O seu corpo foi levado e sepultado na Igreja de Nossa Senhora de Pádua. Em 1263, os seus restos mortais foram depositados na Basília que tomou o seu nome: Santo António de Pádua. No processo de trasladação, a sua língua foi encontrada incorrupta, facto considerado milagroso e demonstrador da sua santa oratória. S. Boaventura, presente nesse momento, afirmou ser esse o milagre da prova de que a sua pregação era inspirada por Deus. Por isso, desde então, a Palavra foi considerada como significado maior da missão de António, e à luz dessa longa tradição, foi proclamado Doutor da Igreja, em 1946, pelo papa Pio XII.

Desde cedo começaram a ser passadas a escrito algumas das suas prédicas ou sermões, que rapidamente se tornam guias para irmãos e restantes sacerdotes.

Mais que escritos, nasceram muitas lendas, sendo o famoso milagre do «sermão aos peixes» dos que mais contribuiu para a difusão da imagem de santidade de António.  O padre António Vieira deu uma dimensão ainda maior a esta lenda, em torno da sua pregação em Rimini, quando os hereges a quem se dirigia o não quiseram ouvir, levando o franciscano a decidir-se por pregar às aquáticas criaturas, talvez mais capazes de o escutar.

Pregado em S. Luís do Maranhão, decorria o ano de 1654, Vieira afirma:

Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

Da mesma forma, o elemento que será, para sempre, a marca distintiva da sua iconografia – o Menino sentado em cima de um livro aberto nas suas mãos –, reflete muito bem uma sinonímia criada pelo acaso: o Menino que do frade se aproximou e por ele fora trazido para o improvisado colo, como que embevecido pelas palavras que da sua boca ecoavam, é a dupla imagem, quer do episódio de Jesus em que pede que deixem vir a si as criancinhas, as mais puras e as únicas, talvez, a conseguir aceder às suas palavras, mas é também como que imagem do próprio Menino Jesus como muito popularmente se crê, como que validando essas mesmas palavras tidas por inspiradas – na mais pura forma, como criança, é o Verbo de Deus a sair do texto das suas palavras.

Em Lisboa, as festas em sua honra marcam atualmente o calendário de forma inquestionável. Já o marcariam quando, na instauração da República, estas festas eram um lugar de apaziguamento entre as autoridades republicanas muitas vezes anticatólicas e a população que adere de maneira quase automática às festas do seu Santo.

As atuais festividades, com centro nas Marchas e nos Casamentos de Santo António, são criações da década de 30 do século XX, numa tentativa de «domesticar» a dimensão de folia que se viveria no bairro antigo de Alfama. É ainda neste bairro, longe da avenida, onde as ditas Marchas desfilam de forma ordenada, numa formatura quase militar, que se juntam anualmente, na noite de 13 de junho, centenas de milhares de pessoas, para festejar o popular e folgazão Santo António que, nessa ocasião, não é comemorado como orador e lutador contra hereges, e muito menos como eremita, mas sim como o jovem que, nas muitas fontes dessa colina, abordava as jovens donzelas.

Mantém-se ainda profundamente enraizado, na memória alfacinha, um largo número de tradições em torno do Santo, que apenas o conhece por Santo António de Lisboa, de forma inquestionável e quase bairrista, do qual emerge um poder quase mágico para fazer aparecer artefactos perdidos. O Responso ao Santo, oração que tem de ser recitada sem engano algum, ainda hoje é das pagelas mais vendidas na sua igreja, mesmo junto à Sé de Lisboa, em Alfama.

Hoje, este santo é uma das mais importantes marcas do cristianismo católico e solo português. São quase sem número as igrejas a ele dedicadas, assim como festas, instituições, escolas e tudo o mais que possamos imaginar com peso na sociedade.

Sem dúvida, Santo António pode não ser de Lisboa, reclamado por Pádua, mas é-o dos portugueses, da sua identidade.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A construção na adversidade, ou a homenagem a José Eduardo Franco

Para uma geração, hoje é um dia feliz. Ironicamente feliz. Mas sim, muito feliz!
            
José Eduardo Franco recebe hoje a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Estado Português. Será o mais jovem cidadão a receber este galardão.
          
Para uma geração, a que hoje é tantas vezes designada como a mais habilitada de todas, a mais instruída, a mais capacitada, o Eduardo Franco é sinónimo de trabalho, de esforço, de capacidade, de empreendedorismo em quadros muitas vezes adversos, mas sempre com uma força e um sentido de missão que o levou a superar todos os obstáculos, mesmo aqueles lançados por quem teria todo o dever de o acolher, acarinhar e dar apoio.
       
Eduardo Franco fez todo um percurso, comum na minha geração, de bolsas e de projectos. Comeu o pão que o diabo amassou com milhares e milhares de horas voluntárias em projectos de outrem. Deu o seu melhor em projectos que idealizou e dirigiu, e onde foi sempre o maior e inqualificável motor. Foi o responsável por muitos elementos altamente honrosos em relatórios de actividades de muitas instituições que, sem ele, pouco ou nada teriam para apresentar.
                  
E, contudo, após um punhado de grandes encontros científicos internacionais marcantes, após vários projectos de investigação onde conseguiu reunir dezenas de investigadores e fundos imensos, após, dezenas e dezenas de livros publicados, o Eduardo Franco foi "apenas" mais um de nós na precaridade que nunca tiveram a coragem de lhe retirar, como se essa dimensão de inovação e de capacidade de trabalho fosse uma mácula, uma culpa, mesmo, que transportava por ser dinâmico e empreendedor, por não se resignar.
          
O Eduardo Franco tem como maior prova da sua capacidade e generosidade o desprezo a que é votado pelos ilustres da parte mais bafienta da nossa academia que continuam a achar que o Saber deve estra fechado e retido entre paredes onde apenas é gerido pelas políticas de progressão na carreira académica ou por simples mecanismos de tutela do poder simbólico que a cultura permite. Não, não são apenas alguns velhos do restelo, nem mesmo velhos, apenas. É algo que nos remete para uma passividade que engorda os que não se movem e os que não arriscam.
              
O mais irónico é ver essa elite académica, parada, estática, tendente para a quietude, a ter de aplaudir um homem que é a negação do estar parado. O Eduardo Franco concebe a cultura como uma realidade transversal a toda a sociedade e, em sentido de retorno, a ela regressando para a alimentar. A Cultura, afinal, só faz sentido se for direcionada para todos os grupos sociais. Só assim uma identidade se pode construir no futuro através da análise do passado. Tudo o resto não acaba por ser muito mais que um exercício de ego entre iluminados que numa mecânica autofágica se congratulam uns aos outros, esquecendo que há mundo para lá das paredes da sua sala de aula.
                
Felizmente, temos generosidades como a do Eduardo Franco. Uma generosidade de uma cultura aberta, que olha para a produção cultural como uma realidade de todos e para todos, sorridente e não cabisbaixa, empenhada no futuro e não resguardada nas paredes poeirentas da academia onde o estatuto corresponde a autoridade, negando a mais elementar natureza do trabalho científico: o debate aberto para a superação de ideias.
            
Felizmente, temos o Eduardo Franco para nos mostrar algo que, no campo das Humanidades, até nos poderia passar ao lado: afinal, e recompondo a frase batida mas muito actual, a universidade até pode iluminar o Povo antes de arder!
           
É da mais elementar justiça este acto de atribuição desta medalha. Afinal, a existir, Ele escreve direito por linhas tortas!
               
O maior abraço!
Continua a trabalhar.
Continua como és.

domingo, 13 de setembro de 2015

"Será que todos são todos?" sim, todos são O TODOS

O fim de tarde de domingo arrisca-se muitas vezes a ser como que um não-lugar, um já-não-fim-de-semana, já a pensar em segunda-feira, mas sem ainda o ser. Não me afligem os regressos aos afazeres da semana, mas gosto de marcar esse fim de fim-de-semana de forma significativa, com algo que me preencha. Felizmente, hoje isso aconteceu, teve lugar na igreja do Hospital dos Capuchos, o antigo convento dos franciscanos na hoje chamada "colina dos hospitais".
                
E este fim de tarde foi tão mais significativo porque vivemos tempos brutalmente conturbados, sem que a maioria de nós dê minimamente por isso, ocupados que estamos na sobre-vivência, incapazes de viver, quer os gestos magníficos de uma boa música, quer os indícios imensos de fim de linha, de grande mudança de tempos que se aproxima.
                 
Encerramos fronteiras, construímos muros, e fechamos uma Europa como se ela pudesse estar fechada, ou mesmo, como se ela, tentando-se fechar, assim pudesse permanecer. Sempre fomos muito zelosos da nossa identidade ou das formas como nos definimos, como se "de" + "finir" não nos conduzisse irremediavelmente para um fim, um terminus que pode parecer coerente, completo, até honroso, mas não deixa de ser um ponto final, fechado sobre si mesmo.
              
É irónico que hoje a dita igreja dos capuchinhos tenha recebido um grupo de música do século XVI, trazendo sob o título de Diásporas um leque estupendo de interpretações de músicas com sabor a África,a  Brasil, a Índia, a Portugal. E é irónico porque estas músicas muitas delas os frades capuchinhos terão ouvido ou até cantado. Mas o sue sentido era o de converter o outro, não o de integrar a sua cultura. Hoje, nesta igreja onde tantas vezes devem ter rezado frades a pedir a Deus as capacidades para converter, ouvimos a fusão da não-conversão, da não-aniquilação da diferença.
                 
O Festival Todos tem este condão de nos levar a vaguear por uns fora de nos que nos fazem perceber que esse fora somos nós mesmos no nosso matizado de heranças e de vizinhanças. O concerto deste fim de tarde foi em tudo um momento de franco diálogo entre diferentes.
             
E os diferentes foram muitos. A antiga igreja estava repleta, com gente fora da porta, amontoada, a ouvir as belas vozes de contratenor dos dois solistas. Idosos locais, muitos; gente ligada às lides das artes, reconhecíveis pela indumentária reconhecível, quase de tribo, imensos. Todos cidadãos a ouvir. Pelo meio, quando uma música terminava, com a liberdade de um concerto sem solenidade, livre, algumas pessoas iam saindo, dando lugar a umas outras tantas que então entravam.
                          
Aí, era da mais rica expressão as faces e os rostos. Quanto de nacionalidades eu vi passar à minha frente! Mas as nacionalidades são nada exactas e menos correctas. Eram rostos que mostravam algum aspecto diferente do meu, mas os ouvidos tinham-se, tal como os meus, deliciado nos sons que, convenhamos, nem a uns, nem a outros diziam directamente nada. Ou diriam a todos, no emaranhado de heranças que somos.
                
No meio de gentes variadas, saem também senhoras idosas, talvez moradoras sozinhas do bairro. talvez crentes que ao domingo debandam a uma igreja me busca de missa. Sim, talvez, porque muitas foram as que ao sair fizeram o mais delicioso gesto repetitivo, de uma vida inteira: viradas para o altar onde nenhum sacrário estava, benzeram-se no gesto de sempre, mas agora, sem darem por isso, na direcção dos músicos, como que assumindo a dimensão sagrada do que ali acontecia.
                
Ainda pelo meio, uma rapariga negra num fundo alvo que contrastava ainda mais a sua tez, saia do meio das gentes. Fez o gesto, o caminho, de tantas outras. Benzeu-se ao sair. Mas não saía para uma rua qualquer, para ir para casa, ou não fosse esta igreja agora parte integrante de um hospital. Ela era uma doente internada, de roupão da própria instituição tinha vindo ao concerto.
        
Não sei se a música agradou a esta jovem doente, acolhida nesse hospital - quer no hospital, quer num concerto, é de acolhimento que devemos falar. Apenas sei que a certo momento, um pombo entrou no edifício vindo de uma brecha qualquer, um rombo no telhado, ou uma janela partida. Esvoaçou e colocou-se no topo de uma coluna junto ao lançamento do arco da cobertura. Claramente olhava a multidão com um ar de espanto. Sem ter obtido respostas, se eram questões o que tinha, levantou voo e, assim como entrara, assim saíra. Nada mais, a não ser uma imagem que culturalmente nos remete para paz.
    
E paz é, sem dúvida, o centro dinâmico deste festival. Paz é estar com os vizinhos, os próximos, sejam eles diferentes ou pretensiosamente iguais. Hoje, saindo da igreja dos capuchinhos, e passando para as longas e intermináveis filas de migrantes a atentar entrar na Europa, mais uma vez me assola a pergunta: porque nascem uns numa Europa livre e bem alimentada, confortável, e com educação e saúde, e outros são nados de belos locais, mas perseguidos pela morte que parece estar-lhes colada a um qualquer destino desde que foram concebidos?

Lembro-me de uma frase, de uma sabedoria popular e profunda, como poucas, porque respira vida, uma vida ingrata, sentida e desiludida, talvez. Há uns anos, uma amiga relatou-me uma situação em que um imigrante, possivelmente cabo-verdiano, entre algum álcool e muito mais de confronto com o pais de acolhimento, dizia aos seus companheiros de viagem no autocarro que vinha de Odivelas para Lisboa: "será que todos são todos?" questionando a suposta igualdade que não encontrava no dia-a-dia.
                  
No TODOS, todos fomos todos em momentos como o que eu tratei agora. Mas ao longo destes anos que o festival já leva, muitas mais foram as ocasiões em que senti, sem dúvida, esse sentimento único de Todos serem Todos, sem excepção, sem máculas nem reparos, sem dúvidas nem constrangimentos.
              
À Academia de Produtores Culturais, ao Miguel Abreu, à Madalena Vitorino, ao Giacomo Scalisi, para apenas citar quem me está mais próximo entre tantos os que montam esta delícia, o meu obrigado!

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Palmira - in Memoriam fotográfico

Como disse no post anterior, há uns anos tive a grato prazer de ir com o meu querido amigo Francisco Moura a Palmira.
         
Foi uma viagem sobre a qual muito teria a dizer. Fá-lo-ei em breve, neste mesmo sítio.
             
Mas agora fico pela reportagem fotográfica, pelo que de material se terá perdido nas últimas semanas às mãos dos terroristas inqualificáveis.
             
               
No topo da colina, um forte medieval que domina a paisagem.
Cheguei ao fim do dia:




                   
                     
Lá em baixo, a cidade... a moderna e, em pleno diálogo, mesmo ao lado, a antiga, notando-se a via central do urbanismo romano, o cardo:


             
          Desci, era noite. 
A iluminação das principais artérias romanas deixava qualquer um num estado de êxtase.






                         
Os edifícios da necrópole romana no Vale dos Túmulos terão sido, há mais de um mês, os primeiros a terem sido destruídos.
Estavam muito bem conservados.
Nas imediações da cidade, no deserto, era uma paisagem única, estes esguios edifícios plantados na areia.
As 10 primeiras imagens deste grupo são da Torre de Elahbel, então a mais bem conservada, erigida entre o séc. Ia.C. e I d.C., agora desaparecida.













                       
                           
A cidade antiga....











             
                 
No museu, muito havia para ser visto e estudado...

                 
             
O Templo de Baal Shamin, também já arrasado:



               
               
O Templo de Bel.
O edifício antigo que mais me impressionou e mais me marcou.
Grandioso nas suas dimensões e opulência.

 (edifício central ao grande pátio - o "santo dos santos")
             
 (túnel de entrada dos animais para sacrifício)
     






 

 (esta e as próximas imagens: altares sacrificiais - com dimensões para sacrificar vários bovinos ao mesmo tempo)
         

 (possivelmente, por onde escorreria o sangue)
             



             
           
O "santo dos santos", o centro ritual e sagrado do templo







             
                 
Baixos-relevo junto ao edifício central


 
         
Procissão de entrada no próprio templo:

           
No século II d.C., mulheres de burca...

                   
Recuperando a imagem bíblica, um soldado esmaga com o pé a serpente apocaliptica?



               
Altar de oferendas:







           
O próprio deus Bel?

                 
Assim era Palmira, a que conheci em 2008.