sexta-feira, 22 de maio de 2026

"Populares", um dos rótulos mais preconceituosos

 


Todos temos palavras que abominamos. Umas pela sonoridade, por algum preconceito, ou até por uma memória. Mas outras revestem-se, em cada um de nós, de ecos verdadeiramente impossíveis de digerir pelo que significam na ingenuidade, ou não, de quem as usa.

Por estes dias, fomos surpreendidos por um crime hediondo, o abandono de duas crianças em plena via pública. Muito mais rápido que os canais televisivos que têm de preencher horas de emissão, sistematizemos o que importa: o casal que supostamente abandonou os petizes, foi apanhado graças a um bom e atento cidadão ou cidadã que, vendo um casal suspeito, tirou a matrícula da viatura e a comunicou à GNR que, rapidamente, agiu de forma competente.

Menos competente, no que ao uso da língua diz respeito, foi alguém que, à falta de melhor opção, usou a famigerada e tantas vezes repetida palavra "popular", para indicar que uma "pessoa do povo", que não tem direito a nome, fez o que deveria fazer. Não tem identidade na narrativa mediática, é, simplesmente, uma anónimo vindo da plebe, como diriam os nossos antepasados medievais.

É que esta palavra é profundamente preconceituosa. Não tivesse ocorrido a situação numa esplanada de um aglomerado rural, mas sim em Cascais, numa esplanada da baía, e a legenda seria, garantidamente, de outro género: "Senhora", "Idosa", ou mesmo, "Fulana tal", ou, até, "Cidadã", imaginemos! Mas nunca seria uma "Popular". Não há povinho em todo o lugar, claro que não!

As palavras dizem muito para além da sua correta definição de dicionário. Neste caso, colam a quem fez um gesto altamente meritório, uma imagem de vulgaridade, de ruralidade, de parte de uma mole disforme que sempre foi reivindicada politicamente por muitos, mas muito mal tratada por todos.

Agora sim, o "popular", no sentido de senso-comum, de falta de capacidade crítica, vagueia por muitos lugares, por muitas funções, onde não se equaciona o que se diz ou escreve.

O que custava escrever "Cidadão" ou "Cidadã", tanto mais que a ação foi verdadeiramente do campo do cívico? É pedir muito. Pensar nas implicações das palavras é um ato de grande esforço que não merece a correção que a nobreza do gesto deveria implicar.