Acabado de sair de um percurso escolar cheio de certezas, centrado numa ideia de conhecimento que via no número a mais exata de todas as coisas, o dia em que me cruzei com um texto de Edgar Morin foi a abertura de um mundo novo. Estava no 1º ano da licenciatura em História e, no meio de tanto conhecimento que nos era dado de forma árida, a Fátima Reis deu-nos um grupo de textos, centrados em Epistemologia, para lermos. Calhou-me um capítulo do Método, uma das obras seminais do filósofo. Era uma lufada de ar fresco a leitura desses textos que, infelizmente, muito pouco proveito deram a muitos na turma que abominaram, quer Morin, quer Habermas.
Li avidamente e, pela primeira vez, tive a intensa necessidade de voltar atrás uns parágrafos para melhor compreender o que vinha a seguir. Era um texto difícil, mas magnético. Agarrava-me como se quisesse chegar à cena seguinte na narrativa. E a cena seguinte não era um diálogo ou aventura de um romance, mas sim a desconstrução do humano, do que ele é e de como se forma o conhecimento. Era por isso que eu tinha ido para História e, finalmente, tinha esse vislumbre de possibilidade.
Vivendo quotidianamente num paradigma académico em que era quase ausente a reflexão crítica sobre o próprio processo de construção do conhecimento, ler Edgar Morin abria portas que me diziam que tudo estava por fazer. Afinal, a História poderia não ser apenas a soma de factos, de coisas e coisinhas, umas mais importantes que outras. Não, era na teia de relações entre tudo que se jogava o conhecimento do humano, da História. Li e reli tudo o que apanhei de Edgar Morin editado em Portugal; os volumes do Método encontravam-se nos livros de bolso da já desaparecida Europa-América.
Entre o muito que fui buscar ao pensador, um conjunto vocabular suscitou em mim uma atração quase magnética: a Unitas Multiplex. Com esta frase criada com base no latim, de uma clara boa sonoridade, Edgar Morin dizia-nos algo tremendamente simples, mas revolucionário: a condição humana é como que uma "unidade múltipla" em que somos uma única espécie com um capital genético comum, mas, ao mesmo tempo, somos radicalmente diversos e plurais nas nossas expressões culturais e vivências individuais. Anos largos depois de este conceito ter mudado radicalmente a minha forma de ver a História, e de me ter encaminhado para o trabalho sobre a diversidade religiosa, foi ainda este conceito que me deu ferramentas para que no meu caminho iniciático me aproximasse da ideia de Fraternidade.
Pelo meio, quando, a certo momento, soube que viria a Portugal, para uma conferência numa instituição universitária, fui vê-lo, ouvi-lo e, na medida do possível, estar perto dessa fonte de inquietação. Pouco dado à valorização carismática das pessoas, foi-me fundamental ver como um velhinho, com um ar frágil, pequeno, sem nada que o fizesse impor-se ao olhar, iluminava com os seus pequenos olhos todos os que compenetrados o ouviam. Numa imagem que pode parecer exagerada, mas uso-a com toda a consciência, foi a minha primeira experiência da Luz.
Soube ainda que vinha a Portugal com frequência. Várias homenagens lhe foram prestadas em terras lusas, onde é admirado. No próximo dia 8 de junho, faria 105 anos de uma vida repleta de trabalho e de marcas. Judeu sefardita, lutou na resistência francesa durante a II Guerra Mundial. Mas a sua luta foi a da compreensão do Humano.
Há pouco mais de dois anos, na Associação Humana Fraternitas, presidida pelo José Eduardo Meira da Cunha, participei na organização e edição do pequeno livro "Fraternidade: para resistir à crueldade do mundo", uma coletânea de textos de Edgar Morin sobre esse conceito tão desafiante que, herdado dos tempos de lutas políticas em fim de Antigo Regime na França revolucionária, ainda continua tão arredado das nossas ações políticas e sociais, levada ao prelo por essa associação e pelo Grémio Lusitano.
Está para muito breve a edição, pelas Edições Universitárias Lusófonas, a chancela da Universidade Lusófona, um volume com os textos referentes ao Doutoramento Honoris Causa que recebeu nesta universidade em 2019.
Num tempo onde tanto comunicamos mas pouco entendemos, retiro do seu discurso nessa cerimónia o seguinte trecho:
"quero apenas salientar que, mais do que nunca, precisamos de compreensão. As incompreensões não dizem respeito apenas aos povos ou às culturas, existem igualmente dentro de uma mesma sociedade, por vezes até dentro de uma mesma família. E, ainda assim, todos comunicam… Mas tudo depende de como se comunica. Por isso, o problema da incompreensão deve ser colocado no próprio âmago do problema da comunicação."




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