Enquanto espécie, talvez o nosso elemento de caracterização mais
verdadeiro seja o de Homo Narrativus, mais que Sapiens.
Construímos narrativas, desenhamos identidades e, em ambos os casos, temos no
passado a matéria-prima para o fazer.
Ainda enquanto espécie, somos gregários, um chavão que nos
afirma a inevitabilidade de vivermos em grupos, em sociedade, criando regras e
hierarquias, normas e preceitos de convívio. Quanto dessas normas é criado em
torno dessas mesmas narrativas, alimentado pela visão do passado, dando coesão
ao grupo, tantas vezes por oposição a outros.
Em todos os momentos criamos modelos de leitura da
realidade. Num país que durante séculos definiu a sua identidade através
de vários ciclos coloniais, a passagem para um regime democrático implicou o
parto de uma visão mais isenta e responsável para com quem fazia parte desse
modelo económico, social e ideológico.
Mas, num olhar que se quer isento, quem fez parte dos
modelos de sociedade que as narrativas historiográficas, mais ou menos tornadas
ideologia, cantaram e cantam? Nesse olhar, os colonialismos são muito mais
vastos e abrangentes, muito mais criadores de espartilhos na capacidade de
respirar, e palas na de ver.
Vivemos uma época marcada por olhares que equacionam o
património cultural que nos define e já não são apenas os colonialismos
clássicos, mas todos os modelos e mecânicas de subalternização. Mantendo as
decidas distâncias, temos de afirmar que é tão colonizado o estranho que é
submetido num processo de força, como aquele que é agente desse processo,
supostamente do lado dos “ricos e poderosos”, mas que, de riqueza ou poder nada
tem, sendo apenas uma peça numa imensa máquina para a qual em nada foi tido ou
achado, muito menos, pouco ou quase nada dela recebe.
Emancipação e consciência são, inevitavelmente, palavras que
surgem neste debate, propositadamente organizado no quadro do Dia de África.
Remorso e culpa podem também surgir a qualquer momento, como o caminho fácil e
óbvio. Mas levam-nos a algum lugar?
Em mim, por exemplo, há uma África que me roubou os meus
pais, que os lançou num vórtice de doença mental para a qual apenas temos
palavras há muito pouco tempo. Ao mesmo tempo, ainda hoje dei uma aula em que a
maioria dos alunos eram dos chamados PALOP, com as fragilidades académicas e
culturais de quem vem de uma sociedade consolidadamente colonial na sua
organização política e social, mesmo até aos dias de hoje.
E qual é o nosso lugar nesta equação em que parece que todos
temos uma certa vivência de Síndrome de Estocolmo, por tão incapazes que somos
de fazer a mudança?




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