terça-feira, 26 de maio de 2026

Descolonizar a Cultura: Repensar memórias, narrativas e identidades

 


 

Enquanto espécie, talvez o nosso elemento de caracterização mais verdadeiro seja o de Homo Narrativus, mais que Sapiens. Construímos narrativas, desenhamos identidades e, em ambos os casos, temos no passado a matéria-prima para o fazer.

Ainda enquanto espécie, somos gregários, um chavão que nos afirma a inevitabilidade de vivermos em grupos, em sociedade, criando regras e hierarquias, normas e preceitos de convívio. Quanto dessas normas é criado em torno dessas mesmas narrativas, alimentado pela visão do passado, dando coesão ao grupo, tantas vezes por oposição a outros.

Em todos os momentos criamos modelos de leitura da realidade.  Num país que durante séculos definiu a sua identidade através de vários ciclos coloniais, a passagem para um regime democrático implicou o parto de uma visão mais isenta e responsável para com quem fazia parte desse modelo económico, social e ideológico.

Mas, num olhar que se quer isento, quem fez parte dos modelos de sociedade que as narrativas historiográficas, mais ou menos tornadas ideologia, cantaram e cantam? Nesse olhar, os colonialismos são muito mais vastos e abrangentes, muito mais criadores de espartilhos na capacidade de respirar, e palas na de ver.

Vivemos uma época marcada por olhares que equacionam o património cultural que nos define e já não são apenas os colonialismos clássicos, mas todos os modelos e mecânicas de subalternização. Mantendo as decidas distâncias, temos de afirmar que é tão colonizado o estranho que é submetido num processo de força, como aquele que é agente desse processo, supostamente do lado dos “ricos e poderosos”, mas que, de riqueza ou poder nada tem, sendo apenas uma peça numa imensa máquina para a qual em nada foi tido ou achado, muito menos, pouco ou quase nada dela recebe.

Emancipação e consciência são, inevitavelmente, palavras que surgem neste debate, propositadamente organizado no quadro do Dia de África. Remorso e culpa podem também surgir a qualquer momento, como o caminho fácil e óbvio. Mas levam-nos a algum lugar?

Em mim, por exemplo, há uma África que me roubou os meus pais, que os lançou num vórtice de doença mental para a qual apenas temos palavras há muito pouco tempo. Ao mesmo tempo, ainda hoje dei uma aula em que a maioria dos alunos eram dos chamados PALOP, com as fragilidades académicas e culturais de quem vem de uma sociedade consolidadamente colonial na sua organização política e social, mesmo até aos dias de hoje.

E qual é o nosso lugar nesta equação em que parece que todos temos uma certa vivência de Síndrome de Estocolmo, por tão incapazes que somos de fazer a mudança?

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