sábado, 30 de maio de 2026

Edgar Morin (1921-2026), partiu uma imensa Luz


Acabado de sair de um percurso escolar cheio de certezas, centrado numa ideia de conhecimento que via no número a mais exata de todas as coisas, o dia em que me cruzei com um texto de Edgar Morin foi a abertura de um mundo novo. Estava no 1º ano da licenciatura em História e, no meio de tanto conhecimento que nos era dado de forma árida, a Fátima Reis deu-nos um grupo de textos, centrados em Epistemologia, para lermos. Calhou-me um capítulo do Método, uma das obras seminais do filósofo. Era uma lufada de ar fresco a leitura desses textos que, infelizmente, muito pouco proveito deram a muitos na turma que abominaram, quer Morin, quer Habermas.

Li avidamente e, pela primeira vez, tive a intensa necessidade de voltar atrás uns parágrafos para melhor compreender o que vinha a seguir. Era um texto difícil, mas magnético. Agarrava-me como se quisesse chegar à cena seguinte na narrativa. E a cena seguinte não era um diálogo ou aventura de um romance, mas sim a desconstrução do humano, do que ele é e de como se forma o conhecimento. Era por isso que eu tinha ido para História e, finalmente, tinha esse vislumbre de possibilidade. 

Vivendo quotidianamente num paradigma académico em que era quase ausente a reflexão crítica sobre o próprio processo de construção do conhecimento, ler Edgar Morin abria portas que me diziam que tudo estava por fazer. Afinal, a História poderia não ser apenas a soma de factos, de coisas e coisinhas, umas mais importantes que outras. Não, era na teia de relações entre tudo que se jogava o conhecimento do humano, da História. Li e reli tudo o que apanhei de Edgar Morin editado em Portugal; os volumes do Método encontravam-se nos livros de bolso da já desaparecida Europa-América. 

Entre o muito que fui buscar ao pensador, um conjunto vocabular suscitou em mim uma atração quase magnética: a Unitas Multiplex. Com esta frase criada com base no latim, de uma clara boa sonoridade, Edgar Morin dizia-nos algo tremendamente simples, mas revolucionário:  a condição humana é como que uma "unidade múltipla" em que somos uma única espécie com um capital genético comum, mas, ao mesmo tempo, somos radicalmente diversos e plurais nas nossas expressões culturais e vivências individuais. Anos largos depois de este conceito ter mudado radicalmente a minha forma de ver a História, e de me ter encaminhado para o trabalho sobre a diversidade religiosa, foi ainda este conceito que me deu ferramentas para que no meu caminho iniciático me aproximasse da ideia de Fraternidade.

Pelo meio, quando, a certo momento, soube que viria a Portugal, para uma conferência numa instituição universitária, fui vê-lo, ouvi-lo e, na medida do possível, estar perto dessa fonte de inquietação. Pouco dado à valorização carismática das pessoas, foi-me fundamental ver como um velhinho, com um ar frágil, pequeno, sem nada que o fizesse impor-se ao olhar, iluminava com os seus pequenos olhos todos os que compenetrados o ouviam. Numa imagem que pode parecer exagerada, mas uso-a com toda a consciência, foi a minha primeira experiência da Luz.

Soube ainda que vinha a Portugal com frequência. Várias homenagens lhe foram prestadas em terras lusas, onde é admirado. No próximo dia 8 de junho, faria 105 anos de uma vida repleta de trabalho e de marcas. Judeu sefardita, lutou na resistência francesa durante a II Guerra Mundial. Mas a sua luta foi a da compreensão do Humano. 

Há pouco mais de dois anos, na Associação Humana Fraternitas, presidida pelo José Eduardo Meira da Cunha, participei na organização e edição do pequeno livro "Fraternidade: para resistir à crueldade do mundo", uma coletânea de textos de Edgar Morin sobre esse conceito tão desafiante que, herdado dos tempos de lutas políticas em fim de Antigo Regime na França revolucionária, ainda continua tão arredado das nossas ações políticas e sociais, levada ao prelo por essa associação e pelo Grémio Lusitano.

Está para muito breve a edição, pelas Edições Universitárias Lusófonas, a chancela da Universidade Lusófona, um volume com os textos referentes ao Doutoramento Honoris Causa que recebeu nesta universidade em 2019.

Num tempo onde tanto comunicamos mas pouco entendemos, retiro do seu discurso nessa cerimónia o seguinte trecho:

"quero apenas salientar que, mais do que nunca, precisamos de compreensão. As incompreensões não dizem respeito apenas aos povos ou às culturas, existem igualmente dentro de uma mesma sociedade, por vezes até dentro de uma mesma família. E, ainda assim, todos comunicam… Mas tudo depende de como se comunica. Por isso, o problema da incompreensão deve ser colocado no próprio âmago do problema da comunicação."

6 comentários:

  1. Obrigado Paulo Mendes Pinto pelo teu texto. Desconhecia que o Edgar Morin tinha morrido. O teu texto é uma grande homenagem.

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    1. Eu ia escrever um comentário semelhante. Obrigado pela partilha Paulo. Belo texto que escreveste a homenagiá-lo. Abraço

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  2. Obrigada Paulo Mendes Pinto.
    Mais uma mente brilhante que nos deixou.
    Felizmente a sua obra perdurará...

    Sempre uma Inspiração.

    Em 2025 deixaram-nos 3 Grandes Fotografos;
    Diogo Margarido ( parceiro de pensamento de Edgar Morin)
    Eduardo Gageiro
    Sebastião Salgado

    A Mestria da Comunicação da Arte de Viver, dos Caminhos trilhados pelos Grandes, dão-nos Esperança .
    Obrigada pela Partilha, Abraço.

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  3. Partiu o último sábio. Referencia maior desde "O Paradigma Perdido", o primeiro dos livros dele que li. O ultimo, "De guerra em guerra". Agora faltarão as suas palavras e a sua humanidade...Obrigada Paulo, pela partilha.

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  4. "Num tempo onde tanto comunicamos mas pouco entendemos," não sei se tens a noção da dimensão desta frase, mas que ela traduz a verdadeira natureza do homem, é uma verdade. Para entendermos o homem, no modesto meu entender, temos de o conhecer e saber como apareceu e, sobretudo, o porquê. É no princípio que está nossa matriz. Por norma a tendência é arquitetar aquilo que nos carateriza, talvez imaginar o que gostaríamos de ser sem termos a noção do que nós somos e o porquê. Se tentarmos imaginar o que seriamos de a partir de um dado momento ficasse-mos sem toda, mesmo toda a tecnologia que suporta a vida, o que restaria de nós? Um símio superior! A nossa dependência da tecnologia é de tal maneira total, que poderíamos afirmar que é a tecnologia que nos comanda a evolução que dá expressão à vida. Este, para mim, o ponto de partida para ajuizarmos o homem.
    Desculpa esta intromissão
    Augusto Dias

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  5. Excelente este texto, Paulo. A partir da tua visão e entendimento, criaste um retrato sentido de Edgar Morin. Gostei de ler e sobretudo apreciei que, apesar de falares dele a partir de ti próprio, o teu ego ficou arredado e apenas surge como personagem secundária. Grata pela tua partilha, tão rica de ensinamentos.

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