domingo, 24 de maio de 2026

Novos corpos diretivos da Aliança Evangélica Portuguesa



Com 105 anos de atividade, vinda da distante I República, passando pela ditadura do Estado Novo, a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) vive hoje em Democracia, sendo parte estruturante do nosso sistema que valoriza a diferença. A Liberdade Religiosa apenas faz sentido na medida em que acolha, sem ter em conta percentagens populacionais, todos os crentes de toda e qualquer religião, afirmando-se como inquestionável a opção de cada um.  

A I República foi, em muitos séculos, o primeiro, e infelizmente, pequeno período em que a cidadania abraçou a liberdade religiosa. Puderam afirmar a sua fé, Protestantes e Evangélicos, Judeus, Testemunhas de Jeová, Adventista do Sétimo Dia. Era escassa a nossa diversidade religiosa, mas esta é a base do que hoje vivemos, e nessa época distante de um século, puderam crescer, apresentar a sua mensagem e construir os seus espaços religiosos.  

Neste sábado, numa sociedade supostamente livre e defensora da Liberdade de cada um, a Aliança Evangélica Portuguesa abriu mais uma nova fase da sua vida. Reconhecendo o excelente trabalho dirigido por Timóteo Cavaco nos últimos três anos à frente da equipa dirigente, Jorge Humberto tomou posse como novo Presidente da Direção.




Na sessão de tomada de posse, tive a honra de me sentar ao lado do Dr. Vera Jardim, verdadeiramente o "pai" da Lei de Liberdade Religiosa. Figura ímpar no universo da cidadania, foi ele, enquanto Ministro da Justiça do governo liderado por António Guterres, que dirigiu o longo processo, de mais de três anos, até que a lei fosse aprovada. A ele devemos a estabilização e o enquadramento que hoje temos da realidade religiosa, uma fórmula imitada por vários países que viram na solução portuguesa uma forma sensata e equilibrada na formulação dos deveres e dos direitos das comunidades, assim como na forma de registo junto do Estado. Hoje, como Presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, órgão que acompanha a vida da lei que criou, Vera Jardim é a imagem dos Direitos e Garantias que desejamos vermos perdurar no tempo. 

A presença de Vera Jardim nesta cerimónia é ainda imagem, quer da importância da AEP na diversidade religiosa portuguesa, sempre do lado da cidadania, do diálogo e da construção de uma sociedade plural, justa e integradora, quer do papel que esta mesma agremiação de igrejas evangélicas tem no atual momento de diversificação religiosa em Portugal.

Hoje, apesar do nosso aparato legal definir tudo o que uma Liberdade Religiosa implica, não vivemos num quadro em que esse valor seja inquestionável nem plenamente praticado. Fruto dos radicalismos vividos a nível político, alimentada no seu crescimento por fluxos migratórios, o evangelicalismo surge ao olhar de muitos de nós como um perigo, uma invasão, uma traição aos nossos valores e tradições.

Sendo tudo isso o resultado de uma instrumentalização exterior ao próprio mundo evangélico, a principal agremiação dessa linhagens cristã tem hoje uma tarefa muito complexa e delicada: integrar os crentes oriundos, especialmente do Brasil, com tradições, culturas e formas de fazer e viver a política diferentes, sem perder a sua natureza nacional, dialogantes, plenamente integrada nas instâncias portuguesas de diálogo.

Jorge Humberto não recebe a direção da Aliança Evangélica para fazer um passeio, nem a sua função será um cargo honorífico. Não que ele o não merecesse. Mas os desafios são imensos: há que integrar, valorizar a diferença, mantendo sólida a matriz herdada. Ser evangélico em Portugal deverá ser a tensão criativa entre uma fé que é universal, com princípios de crença e prática iguais em todo o planeta, conjugada com as especificidades da vida nesta geografia, valorizando o seu passado e as suas instituições.

Resumindo, o desafio é imenso!





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