segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Antissemitismo… “sim, mas….”. Reflexão no Dia Internacional da Lembrança do Holocausto sobre os limites da tolerância

 

Se há assuntos que têm feito correr muita tinta, um deles é o antissemitismo, demonstrando que o facto de muito se escrever e pensar sobe um tema em nada equivale à sua resolução. Prova disso encontramo-la no quão frequente é o tema, como parte central do universo dos preconceitos, como se tudo o que se viveu e analisou para nada tivesse servido, mantendo-se o primado das reações primárias e violentas assentes em milénios de ideias feitas.

Hoje, o crescente antissemitismo, que percorre todo o chamado mundo ocidental, radica em várias frentes, tem várias raízes, o que o torna ainda mais complexo de entender e complicado de combater. Muito genericamente, temos três grandes fontes do antissemitismo atual:

Em primeiro lugar, a postura que é a herdeira da perseguição inquisitorial, reativada e reforçada nos séculos XIX e XX com a teses que conduziram ao nazismo, e hoje se encontram em processo de ativação em alguma extrema-direita;

Temos, também, um antissemitismo enclausurado em certa extrema-esquerda, herdeira de visões também elas do século XIX, em que ao judaísmo é dada a responsabilidade pelo capitalismo e por todos os imperialismos que subjugam o povo, nos dias de hoje ativados através das narrativas da luta entre Israel e palestinianos;

Por fim, temos hoje ainda uma nova vertente, com potencial mortífero eficaz, que se encontra num resvalar de certo islamismo radical para uma postura nada comum ao Islão, mas desde há algumas décadas profundamente enraizado nos movimentos terroristas. Foi este que há pouco tempo atacou na Austrália, deixando-nos arrepiados e com a necessidade de fazer uma reflexão para lá da espuma dos dias sobre a forma como deixámos que se tornassem normais, perfeitamente aceitáveis, certas posturas de intolerância que vemos percorrerem a Europa.

Em relação a qualquer das vertentes deste antissemitismo, nada há que mereça o mínimo espanto da nossa parte. Buscando a imagem ao título do famoso livro de Helmut Ortner, temos de afirmar que “somos todos antissemitas”, na medida em que tudo se tem passado à nossa frente, perante os nossos olhos, sem que nada, ou quase nada, façamos. Pior, mais que não fazer, justificamos, relativizamos, dizendo um “mas…..”, como se a ética e os valores fossem passíveis de serem vistas através do olhar do “achismo” do senso-comum.

Com um escondido sentimento de consentimento, quando não de prazer, todos vimos os indicadores, todos assistimos à instalação da normalização antijudaica em virtude de uma confusão que foi aos mais baixos instintos buscar a secular discriminação dos judeus.

Incapazes de distinguir entre judaísmo, Estado de Israel e governo desse Estado, tantas vezes manipulados para não conseguir fazer essa distinção, como se um governo representasse uma identidade e, mais, como se esse governo fosse imagem de uma população que, aliás, menos de metade vive no Estado por ele governado, somos levados a nutrir sentimentos generalizados que são, inevitavelmente, o alimento para a radicalização.

Urge uma ética dos limites que nos leve a ponderar o lugar do que podemos tolerar no campo da criação de discursos radicais, sejam antissemitas, ou contra qualquer outro grupo humano.

Levando ao limite, a ideia de “tolerância” pode encerrar em si a própria intolerância, na medida em que permite a aceitação do que é intolerável. O chamado “Paradoxo da tolerância” é um dos três paradoxos delimitados por Karl Popper no seu livro The Open Society and Its Enemies, de 1945, no quadro de criação dos fascismos europeus. O paradoxo diz-nos que, no ambiente social, a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância.

Num sentido de auto-preservação, a sociedade deve defender-se dos grupos que, abrigados em termos de liberdade de expressão e de ação, sob a “tolerância”, são intolerantes. Esta posição foi aprofundada por John Rawls que, na sua obra de 1971, A Theory of Justice, afirma que uma sociedade deve ser tolerante ao intolerante, sob o risco de ser incoerente. Contudo, também ele afirma que a tolerância deve ter limites, sobretudo perante os grupos extremistas, fundamentalmente intolerantes, seja em relação aos outros, seja em relação à diferença no seu seio.

Nesta linha, e já num quadro cronologicamente muito próximo do desenvolvimento dos extremismos que ganharam terreno no século XXI, afirma Michael Walzer, na sua obra On Toleration: "devemos tolerar os intolerantes?"; respondendo, afirma, com alguma ênfase que num regime tolerante, os cidadãos deverão “aprender” a “tolerar” ou, quanto mais não seja, a comportar-se "como se possuíssem esta virtude" (Walzer, 1997, p. 80-81).

Mas fica o problema de uma pedagogia: como superar a criação de culturas populares de ódio e de violência, baseadas em falsidades e na deturpação da realidade?

Talvez este seja o maior desafio a que todos devemos dedicar parte do nosso pensamento no dia em que recordamos a morte de mais de seis milhões de judeus às mãos de uma sociedade que construiu uma máquina de morte eficaz e, sobretudo, sem limites.

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