sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Manuela Mendonça, memória da melhor aula

Com uma personalidade forte, uma presença sempre sentida e marcante, Manuela Mendonça foi minha professora de História Geral Medieval no meu segundo ano na Licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Nesse distante ano de 1993, a Profa. Manuela Mendonça tinha funções dirigentes da Torre do Tombo, pelo muitas das aulas foram dadas pela sua Assistente, como seria normal e esperado. 

Terminada a Licenciatura, poucas vezes mais me cruzei com a distinta professora. A História Medieval, onde era uma reconhecida especialista, não foi o meu caminho de investigação; tal como as pertenças e ligações institucionais não passaram por caminhos comuns.

Nestes mais de vinte anos, recordo alguns momentos com muita alegria. O primeiro, mais formal, quando na Universidade Lusófona organizei, com o Eng. Rui Vargas, a Sessão Académica da Federação das Academias de História Militar Terrestre do Brasil, a par do Dr. Jorge Quinta-Nova, propusemos a Profa. Doutora Manuela Mendonça, como Académica Honorária dessa instituição brasileira. A sessão decorreu no dia 24 de junho de 2019, dia de S. João Batista, e tive a honra de fazer o discurso de receção, em nome do Colégio Académico. Nesse discurso, peguei em duas situações que me marcaram e que deram lugar a uma partilha muito mais sentida que apenas académica.

De natureza completamente diversa, recordo um outro, quatro anos antes: depois de alguns eventos menos edificantes, com alguma violência urbana sistemática, a Câmara Municipal de Loures, na altura dirigida por Bernardino Soares, do PCP, decidiu em bom momento levar a cabo o evento "Amar é Cuidar", no problemático Bairro da Apelação, com grandes comunidades ciganas, angolanas e cabo-verdianas, nos dias 26 e 27 de setembro de 2015. 

No segundo dia, reunindo as várias confissões religiosas presentes no bairro, assim como as associações, a junta de freguesia a autarquia, teve lugar uma versão muito especial da tradicional procissão das Festas da Sra. da Apelação: encabeçada por crianças com faixas a apelar para a paz, o corteja seguia com a composição normal religiosa, e terminava com o próprio Presidente da Câmara e mais algumas pessoas, entre eles, eu. 

No final desta procissão cívica/religiosa, teve lugar uma refeição em que, lado a lado, as três comunidades cozinharam e partilharam a comida. Alguém dizia a certo momento, já no final, que se conseguira um milagre. 

Na véspera, à noite, no Teatro IBISCO, que funciona no bairro, pela mão da Catarina Aidos, era levada à cena uma peça sobre a travessia do Mediterrâneo por migrantes; os atores eram crianças dos vários grupos presentes na complexidade do bairro. Nas semanas seguintes, levei vários grupos ed alunos a este teatro de bairro, assistir a essa representação tão genuína e tão "na primeira pessoa".

Mas para mim este quadro teve ainda um outro momento significativo. Num dos troços do trajeto da procissão, a certo momento, no meio da população que via passar o cortejo, reconheci a Profa. Manuela Mendonça. Saí do meu lugar e, a medo, fui-lhe falar. Reconheceu-me, o que me deu uma grande alegria. Abraçou-me, também ela espantada com aminha presença ali.

Não a sabia responsável da Pastoral dos Ciganos. Por isso ali estava. Falámos sobre o bairro, sobre os problemas de integração. Sobre o evento que eu ajudara a realizar, e que pretendia ser uma peça na criação de laços de boa vizinhança entre as comunidades tantas vezes em guerra e dinâmicas de vingança. A Pastoral dos Ciganos tinha um papel muito ativo no bairro, e tinha sido essencial para se criarem as boas-vontades que procurávamos nutrir. 

À admiração académica, juntava-se uma outra, muito mais importante. A figura imponente tornava-se verdadeiramente humana nesta quadro impressionista da Apelação. Despida dos trajes vistosos e criadores de distâncias simbólicas da academia, ali estava a cidadã e a católica, dando muito de si para aqueles que nada sabiam o que era a Academia Portuguesa da História, muito menos a sua Presidente. Estava ali a Manuela Mendonça, sem graus e qualidades académicas, sem a intermediação do valor científico. Era o humano, apenas humano.

Mas a admiração por esta mulher vinha desse me segundo ano na faculdade. Poucas aulas nos deu nesse ano, resultado das suas funções nos Arquivos Nacionais. Mas, dessas poucas, todas brilhantes, uma foi a melhor aula com que fui brindado na minha carreira académica.

O tema era já em si aliciante: "Razões da decadência e queda do Império Romano". Ao longo de duas horas, de forma apelativa e cativante, foi-nos bombardeando com as várias teses em jogo na historiografia, conjugando cada uma delas coma  complexidade da situação que se vai arrastando ao longo de vários séculos. Para desgosto dos que esperavam uma justificação exata, terminámos sem saber qual a razão da queda desse grande império. Mas recebemos uma lição, não apenas de História de Roma, mas de epistemologia.

Esta aula, que já em tantos lugares referi como a "melhor aula que recebi", marcou-me na forma de encarar a verdade em História. Nunca é linear, é sempre complexa tal como cada um de nós, tal como a situação que ocorreu na Apelação. E são estas as que merecem a pena e ficam guardadas na memória.

Foi com muita tristeza que recebi a notícia da sua morte.

Obrigado Profa. Manuela Mendonça, pela melhor aula, e pela aula de vida.

Que esteja em Paz.



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