Se há
assuntos que têm feito correr muita tinta, um deles é o antissemitismo,
demonstrando que o facto de muito se escrever e pensar sobe um tema em nada
equivale à sua resolução. Prova disso encontramo-la no quão frequente é o tema,
como parte central do universo dos preconceitos, como se tudo o que se viveu e analisou
para nada tivesse servido, mantendo-se o primado das reações primárias e
violentas assentes em milénios de ideias feitas.
Hoje, o
crescente antissemitismo, que percorre todo o chamado mundo ocidental, radica
em várias frentes, tem várias raízes, o que o torna ainda mais complexo de
entender e complicado de combater. Muito genericamente, temos três grandes
fontes do antissemitismo atual:
Em primeiro
lugar, a postura que é a herdeira da perseguição inquisitorial, reativada e
reforçada nos séculos XIX e XX com a teses que conduziram ao nazismo, e hoje se
encontram em processo de ativação em alguma extrema-direita;
Temos,
também, um antissemitismo enclausurado em certa extrema-esquerda, herdeira de
visões também elas do século XIX, em que ao judaísmo é dada a responsabilidade
pelo capitalismo e por todos os imperialismos que subjugam o povo, nos dias de
hoje ativados através das narrativas da luta entre Israel e palestinianos;
Por fim,
temos hoje ainda uma nova vertente, com potencial mortífero eficaz, que se
encontra num resvalar de certo islamismo radical para uma postura nada comum ao
Islão, mas desde há algumas décadas profundamente enraizado nos movimentos
terroristas. Foi este que há pouco tempo atacou na Austrália, deixando-nos
arrepiados e com a necessidade de fazer uma reflexão para lá da espuma dos dias
sobre a forma como deixámos que se tornassem normais, perfeitamente aceitáveis,
certas posturas de intolerância que vemos percorrerem a Europa.
Em relação
a qualquer das vertentes deste antissemitismo, nada há que mereça o mínimo
espanto da nossa parte. Buscando a imagem ao título do famoso livro de Helmut
Ortner, temos de afirmar que “somos todos antissemitas”, na medida em que tudo
se tem passado à nossa frente, perante os nossos olhos, sem que nada, ou quase
nada, façamos. Pior, mais que não fazer, justificamos, relativizamos, dizendo
um “mas…..”, como se a ética e os valores fossem passíveis de serem vistas
através do olhar do “achismo” do senso-comum.
Com um
escondido sentimento de consentimento, quando não de prazer, todos vimos os indicadores,
todos assistimos à instalação da normalização antijudaica em virtude de uma
confusão que foi aos mais baixos instintos buscar a secular discriminação dos
judeus.
Incapazes
de distinguir entre judaísmo, Estado de Israel e governo desse Estado, tantas
vezes manipulados para não conseguir fazer essa distinção, como se um governo representasse
uma identidade e, mais, como se esse governo fosse imagem de uma população que,
aliás, menos de metade vive no Estado por ele governado, somos levados a nutrir
sentimentos generalizados que são, inevitavelmente, o alimento para a radicalização.
Urge uma
ética dos limites que nos leve a ponderar o lugar do que podemos tolerar no
campo da criação de discursos radicais, sejam antissemitas, ou contra qualquer
outro grupo humano.
Levando ao
limite, a ideia de “tolerância” pode encerrar em si a própria intolerância, na
medida em que permite a aceitação do que é intolerável. O chamado “Paradoxo da
tolerância” é um dos três paradoxos delimitados por Karl Popper no seu livro The
Open Society and Its Enemies, de 1945, no quadro de criação dos fascismos
europeus. O paradoxo diz-nos que, no ambiente social, a tolerância
ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância.
Num
sentido de auto-preservação, a sociedade deve defender-se dos grupos que,
abrigados em termos de liberdade de expressão e de ação, sob a “tolerância”,
são intolerantes. Esta posição foi aprofundada por John Rawls que, na sua obra
de 1971, A Theory of Justice, afirma que uma sociedade deve ser tolerante ao
intolerante, sob o risco de ser incoerente. Contudo, também ele afirma que a
tolerância deve ter limites, sobretudo perante os grupos extremistas,
fundamentalmente intolerantes, seja em relação aos outros, seja em relação à
diferença no seu seio.
Nesta
linha, e já num quadro cronologicamente muito próximo do desenvolvimento dos
extremismos que ganharam terreno no século XXI, afirma Michael Walzer, na sua
obra On Toleration: "devemos tolerar os intolerantes?"; respondendo,
afirma, com alguma ênfase que num regime tolerante, os cidadãos deverão
“aprender” a “tolerar” ou, quanto mais não seja, a comportar-se "como se
possuíssem esta virtude" (Walzer, 1997, p. 80-81).
Mas fica o
problema de uma pedagogia: como superar a criação de culturas populares de ódio
e de violência, baseadas em falsidades e na deturpação da realidade?
Talvez este
seja o maior desafio a que todos devemos dedicar parte do nosso pensamento no
dia em que recordamos a morte de mais de seis milhões de judeus às mãos de uma
sociedade que construiu uma máquina de morte eficaz e, sobretudo, sem limites.
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