sábado, 11 de junho de 2016

António, um laboratório de identidade


Frei Marcos de Lisboa, na Primeira Parte das Chronicas da Ordem dos Frades Menores do Seraphico P. S. Francisco (1557), indica a data de 15 de agosto de 1195 para o seu nascimento. Contudo, não há certezas sobre essa data. É também Frei Marcos de Lisboa, já no século XVI, vários séculos após a vida do santo, a «fixar» a paternidade, apontando os nomes de Martinho de Bulhões e Teresa Taveira. O seu nome da batismo passa a ser, comummente, Fernando de Bulhões.

Os seus estudos terão tido início na Igreja de Santa Maria Maior, dos cónegos regrantes da Ordem de Santo Agostinho, tendo ingressado na Ordem, no Mosteiro de S. Vicente de Fora, por volta dos 20 anos de idade. Terá estado pouco tempo no mosteiro em Lisboa, tendo-se mudado para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

Terá sido aí, em Coimbra, enquadrado pela impressionante biblioteca monacal que os Padres Crúzios tinham organizado, que ele terá obtido as bases do seu pensamento teológico e o conhecimento dos grandes autores que marcavam o pensamento cristão.

A sua ordenação sacerdotal terá sido, provavelmente, entre 1219 e 1220, por volta dos 25 anos de idade.

Terá sido por esta altura que se deu um episódio marcante na vida e no sentido de missão de Fernando de Bulhões. Aqueles que viriam mais tarde a ser conhecidos como os Mártires de Marrocos passaram pelo Mosteiro de Santa Cruz, pregando e instruindo, antes da sua derradeira viagem. Ora, tocado pela pregação destes homens, Fernando adere à sua interpretação da missão, ao vir a tomar conhecimento do epílogo fatídico dessa viagem.

Fernando abandona Santa Cruz de Coimbra e junta-se a outros franciscanos, no eremitério de Santo Antão nos Olivais. Muda então o seu nome para António, numa profunda invocação a Santo António do Deserto (Antão do Egito, «fundador» do monaquismo cristão, nos séculos IV-V).

Procurando o seu sentido de missão, embarca para Marrocos no início de outubro de 1220. Não voltará mais a Portugal. E conta a tradição que teve de abandonar o seu objetivo de missão devido a uma doença. No regresso, uma tempestade leva-o para a Sicília, onde se recolhe num convento franciscano em Messina. Estaríamos, então, na Páscoa de 1221.

Terá sido ainda nesta primavera de 1221 que António se embrenhou mais ainda na vida franciscana. Em maio, integrou o grupo de frades que se deslocaram a Assis onde se realizava o Capítulo Geral da Ordem, com a presença do próprio Francisco.

No final do Capítulo, António terá criado uma maior proximidade com o novo Provincial da Romanha, Frei Graciano. Foi, então, enviado para o eremitério de Montepaolo, onde passará 15 meses em meditação e disciplina profundas.

Para além das pias atitudes e do sentido profundo de missão, António faz-se notar como grande orador e excelente teólogo quando, nesse período, participa numa cerimónia de ordenação de Irmãos, tomando da palavra, aparentemente de improviso, perante uma grande assembleia de Franciscanos e de Dominicanos.

Marcado um estilo, no Capítulo Provincial seguinte, António foi o escolhido como pregador na província da Romanha, e viu o seu estatuto reforçado, na Ordem, quando, em novembro de 1223, o papa Honório III sancionou a versão final da Regra da Ordem Franciscana, em que a oratória e a erudição foram contempladas como parte integrante da formação e da ação dos frades, se bem que sob a condição de estarem subordinadas ao trabalho manual, à prece e à vida espiritual. Neste sentido, é o próprio Francisco de Assis que o convida para ingressar na Casa de Estudantes que a Ordem abrira em Bolonha.

O seu lugar de relevo no seio da Ordem torna-se cada vez mais significativo, quer dentro dos objetivos da fraternidade fundada por Francisco, quer na política papal da época. Logo em setembro de 1224, António foi enviado para Montpellier e Toulouse, para pregar em meios onde cresciam preocupantemente movimentos heréticos.

Em termos de cargos e funções, o seu caminho também foi rápido na hierarquia: quando, em 1226, participou do Capítulo Provincial em Arles, foi eleito custódio da província de Limoges, e quando, após a morte de Francisco, houve necessidade de apresentar a Regra da Ordem ao Papa, António foi o escolhido para ser recebido por Gregório IX. Em 1227, João Parente, eleito sucessor de Francisco, nomeou-o provincial da Romanha.

Foi apenas em 1230 que António se estabeleceu em Pádua. Terá sido nessa data que pediu ao Papa a dispensa do cargo de provincial para se dedicar exclusivamente à pregação. Contudo, a vida de António seria curta. Com cerca de quarenta anos, em 1231, adoeceu gravemente. Retirado para um eremitério nos arredores da cidade, pediu para regressar, assim que sentiu estar próximo o seu último momento. Não chegou a entrar vivo na cidade, falecendo no convento das clarissas de Arcella, junto a Pádua, a 13 de junho.

O seu corpo foi levado e sepultado na Igreja de Nossa Senhora de Pádua. Em 1263, os seus restos mortais foram depositados na Basília que tomou o seu nome: Santo António de Pádua. No processo de trasladação, a sua língua foi encontrada incorrupta, facto considerado milagroso e demonstrador da sua santa oratória. S. Boaventura, presente nesse momento, afirmou ser esse o milagre da prova de que a sua pregação era inspirada por Deus. Por isso, desde então, a Palavra foi considerada como significado maior da missão de António, e à luz dessa longa tradição, foi proclamado Doutor da Igreja, em 1946, pelo papa Pio XII.

Desde cedo começaram a ser passadas a escrito algumas das suas prédicas ou sermões, que rapidamente se tornam guias para irmãos e restantes sacerdotes.

Mais que escritos, nasceram muitas lendas, sendo o famoso milagre do «sermão aos peixes» dos que mais contribuiu para a difusão da imagem de santidade de António.  O padre António Vieira deu uma dimensão ainda maior a esta lenda, em torno da sua pregação em Rimini, quando os hereges a quem se dirigia o não quiseram ouvir, levando o franciscano a decidir-se por pregar às aquáticas criaturas, talvez mais capazes de o escutar.

Pregado em S. Luís do Maranhão, decorria o ano de 1654, Vieira afirma:

Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

Da mesma forma, o elemento que será, para sempre, a marca distintiva da sua iconografia – o Menino sentado em cima de um livro aberto nas suas mãos –, reflete muito bem uma sinonímia criada pelo acaso: o Menino que do frade se aproximou e por ele fora trazido para o improvisado colo, como que embevecido pelas palavras que da sua boca ecoavam, é a dupla imagem, quer do episódio de Jesus em que pede que deixem vir a si as criancinhas, as mais puras e as únicas, talvez, a conseguir aceder às suas palavras, mas é também como que imagem do próprio Menino Jesus como muito popularmente se crê, como que validando essas mesmas palavras tidas por inspiradas – na mais pura forma, como criança, é o Verbo de Deus a sair do texto das suas palavras.

Em Lisboa, as festas em sua honra marcam atualmente o calendário de forma inquestionável. Já o marcariam quando, na instauração da República, estas festas eram um lugar de apaziguamento entre as autoridades republicanas muitas vezes anticatólicas e a população que adere de maneira quase automática às festas do seu Santo.

As atuais festividades, com centro nas Marchas e nos Casamentos de Santo António, são criações da década de 30 do século XX, numa tentativa de «domesticar» a dimensão de folia que se viveria no bairro antigo de Alfama. É ainda neste bairro, longe da avenida, onde as ditas Marchas desfilam de forma ordenada, numa formatura quase militar, que se juntam anualmente, na noite de 13 de junho, centenas de milhares de pessoas, para festejar o popular e folgazão Santo António que, nessa ocasião, não é comemorado como orador e lutador contra hereges, e muito menos como eremita, mas sim como o jovem que, nas muitas fontes dessa colina, abordava as jovens donzelas.

Mantém-se ainda profundamente enraizado, na memória alfacinha, um largo número de tradições em torno do Santo, que apenas o conhece por Santo António de Lisboa, de forma inquestionável e quase bairrista, do qual emerge um poder quase mágico para fazer aparecer artefactos perdidos. O Responso ao Santo, oração que tem de ser recitada sem engano algum, ainda hoje é das pagelas mais vendidas na sua igreja, mesmo junto à Sé de Lisboa, em Alfama.

Hoje, este santo é uma das mais importantes marcas do cristianismo católico e solo português. São quase sem número as igrejas a ele dedicadas, assim como festas, instituições, escolas e tudo o mais que possamos imaginar com peso na sociedade.

Sem dúvida, Santo António pode não ser de Lisboa, reclamado por Pádua, mas é-o dos portugueses, da sua identidade.


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