terça-feira, 7 de maio de 2013

Massificação e incultura religiosa


Nas últimas dezenas de anos deram-se importantes alterações no mundo da vivência da religião. Entre antropólogos, sociólogos e filósofos das religiões, nasceram conceitos como os de “erosão das identidades religiosas”, “religiosidades difusas”, ou mesmo, expressões quase impossíveis de traduzir para português como a noção de – pela falta de melhor - “turista religioso”.
Estas ideias aplicam-se a todo o renascimento religioso nas décadas de setenta do século XX, um ressurgimento que se manifestou em formas e atitudes totalmente novas: fuga aos movimentos / igrejas convencionais ou tradicionais; fácil deambulação entre credos e filiações; criação de uma atitude de pesquisa individual.
Ora, é neste contexto de afirmação da possibilidade e da liberdade de cada um fazer o seu percurso, preferencialmente atípico para auto-demonstração da singularidade, que se devem entender os fenómenos de massificação de obras sobre o fenómeno religioso. E referimo-nos aos livros de Paulo Coelho, de Dan Brown, ao filme de Gibson, a toda uma miríade de categorizações biblioteconómicas com que nos cruzamos nas estantes das nossa livrarias, que vão da espiritualidade ao esoterismo, passando pelo que no Brasil se chama de “auto ajuda”.
Resultante de um movimento totalmente livre de pesquisa religiosa, nasceu um imenso campo, um enorme nicho de mercado, onde cabe tudo o que afirme ser contra os ditames tradicionais. É essa a pedra de toque de quase todos estes fenómenos: afirmar que vão contra o instituído, criando, assim, a ilusão a muitos dos seus leitores de participação nesse desmontar de supostas fraudes milenares ou de viver experiências espirituais até então quase inacessíveis.
Talvez se possa, mesmo, alinhar todo este universo de produção bibliográfica em dois grandes campos. Por um lado, os livros que transmitem supostas vivências religiosas, espirituais e místicas até então vedadas; Por outro lado, as obras que, voyeristicamente, levam os leitores a viver um desmontar das grandes estruturas religiosas (nada mais voyerista neste universo que entrever nas páginas de um livro a possibilidade do acto sexual entre Jesus e Maria Madalena, por exemplo).
Em ambos os casos, o essencial é que este retorno ao sagrado, resultante de uma pesquisa individual não mediada por entidade alguma, levou a um boom editorial e ao facto de a religião estar na moda – os acontecimentos pós 11 de Setembro vieram consolidar este fenómeno.
Massificaram-se as leituras sobre religião. Os best sellers estão ai, mês após mês. Mas a cultura religiosa da população é cada vez mais baixa. Alguns museus, por exemplo, estão a adoptar descrições e explicações temáticas nas legendas de pintura sacra, respondendo à incapacidade dos visitantes compreenderem as situações retractadas.
E é cada vez mais baixa a cultura referente ao mundo religioso porque estes livros em nada a constróem, antes pelo contrário. Mas também porque não existem instrumentos que forneçam à generalidade da população informação credível e atractiva que venham colmatar o fim da massificação das catequeses.
Até há duas ou três gerações, quase toda a população tinha uma cultura religiosa mínima que advinha da obrigatoriedade da catequese no sistema de ensino. Era uma cultura facciosa, pobre, não especulativa. Mas neste momento ela simplesmente não existe.
Não é que se possa, em condição alguma, defender o regresso a esse sistema, mas urge tomar consciência de que no mundo das religiões se criam ideias feitas com a maior das facilidades, julgando que se está perante grandes e inquestionáveis verdades – porque essa é uma das vocações das religiões, agora transportada para a função da literatura: a de criar discursos de verdade.
Quantos de nós sabemos a que correspondem alguns dos feriados religiosos de que gozamos durante o ano? Esta é a faceta anedótica. Mas existem outras. O actual mundo de fundamentalismos religiosos é em grande parte alimentado por esta massificação da incultura religiosa.
Nada haveria a apontar a livros como os antes referidos, se eles não levassem o leitor, ou melhor, se o leitor não fizesse com o livro o percurso de criação de uma visão do mundo. E estas visões romanceadas, mas tidas como verdade por muitos leitores, são essencialmente fundamentalistas porque apresentam o mundo das religiões em tons altamente contrastados; uns são bons, outros são maus.
Nesta mecânica demonizante de parte da realidade, a simplicidade dá lugar ao simplismo. Longe de se estar a evoluir para um mundo com uma compreensão crítica sobre as religiões, cimentada na reflexão e no rigor, estamos a caminhar para uma crescente postura de anulação da tal individualidade que esteve na base deste surto bibliográfico.
Dominadoras, estas narrativas empolgantes que levam o leitor a vivenciar o que nunca tinham imaginado possível, castram o lugar do leitor no processo da leitura. Tudo é tão simples, tão óbvio, tão elementar, que o leitor simplesmente lê, acredita e reproduz.

 Jornal Público8 de Junho de 2006, p. 8.

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